quarta-feira, 20 de abril de 2016

Lisboa, 3 de Abril de 1936: Viana da Mota a Fernando Lopes-Graça


Lisboa 3 de Abril 1936

Meu caro Senhor Graça

O Prado demorou imenso tempo a entrega das suas composições, depois levou ainda bastante tempo a encontrar o Sassetti, por isso só hoje lhe venho participar o que consegui do Sassetti.
Está pronto a editar as suas Variações, pelo gosto de ter nas suas edições uma obra sua, mas diz que o retraimento crescente do público não lhe dá esperança de cobrir as despesas de impressão. E que para obras vocais ainda a venda é mais resumida do que para o piano. Apesar da obrigação que incluímos no Conservatório de se apresentar uma peça portuguesa nos cursos superiores de piano e de canto a venda é limitadíssima porque os alunos emprestam uns aos outros os exemplares.
Sei que este resultado não corresponde ao seu desejo, entretanto aconselho-o a aceitar a proposta do Sassetti, pois, embora as Variações não dêem, no seu entender, o aspecto exacto da sua personalidade actual, não fica por elas mal representado, visto serem m.º características e pessoais.
Infelizmente o Sassetti não pode, atendendo às despesas de impressão e pouca probabilidade de venda suficiente, oferecer-lhe nenhuma comissão.
Diga-me para onde quer que lhe mande as peças de canto e a Cena e dança.
Com os melhores cump.os
            seu ded.º
J. VIANNA DA MOTTA

Não vi ainda a sua nota sobre os Nocturnos. Pode dizer-me em que n.º do Diabo ela saiu? M.º lho agradeceria.

in Fernando Lopes-Graça, Opúsculos (3). 


Nota - Viana da Mota (1869-1948) fora professor de Lopes-Graça (1906-1994) no Conservatório. O tema em apreço é o seu Opus 1, o extraordinário Variações Sobre um Tema Popular Português (1927). Eloquentíssima carta sobra as dificuldades da edição de partituras. Pedro do Prado (1808-1990), compositor, que com Lopes-Graça, Armando José Fernandes e Jorge Croner de Vasconcelos integrou o «Grupo dos Quatro».

quarta-feira, 13 de abril de 2016

[Porto, 1884]: Eça de Queirós a Oliveira Martins

Meu querido Oliveira Martins

A minha sublevação intestinal tem resistido à repressão conservadora do Bismuto. Preciso por isso um desses sujeitos que no tempo de Molière, frequentavam a alta sociedade com uma seringa debaixo do braço, e que nós hoje chamamos um príncipe da ciência. Conheces tu algum bom -- tão bom que distinga realmente o intestino grosso da aorta? O que vem aqui regularmente ao hotel parece-me um mendigo da ignorância.
Se não estiveres em casa, ao receber desta, manda-me pelo correio, num bilhete postal, o nome e adresse do sábio, -- para que eu o mande chamar amanhã.
Excelente o Friedlaender!* Já tenho a minha estradinha romana, com a sua estalagem a sua tabuleta À Grande Cegonha, a sua inscrição convidativa invocando Apolo; e já tenho o aspecto da estrada, com as carroças de viagem, os arrieiros númidas, e os pajens favoritos com o rosto coberto duma máscara de miga seca de pão, para não sofrerem no acetinado da tez, com a humidade ou com o pó! Grande gente!
Manda o nome do sábio.
Teu do C
Queiroz



Correspondência, edição de Beatriz Berrini, Campinas, 1995.

Nota - Um perfeito exemplo do humour queirosiano, a propósito do crónico desarranjo intestinal, vírus provavelmente contraído em Cuba ou no Egipto e que tanto o moerá até à morte. sendo eventualmente a causa dela. (Creio que a doença que vitimou Eça ainda não terá sido desvendada.) Outro aspecto interessante é a menção ao livro do historiador alemão Ludwig Heinrich Friedländer, Quadros dos Costumes Romanos desde Augusto até à Época dos Antoninos (3 vols., 1862-1871), que certamente terá servido como bibliografia para A Relíquia.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Diu, 25 de Dezembro de 1546: D. João de Castro a seu filho D. Álvaro de Castro

D. Álvaro filho:



O filho del-Rei de Capem me deu uma carta vossa por que soube que estáveis de saúde, com que muito folguei, porque me tardavam já tanto novas de vós que não sabia a que o pusesse. E pois me Deus faz tanta mercê que vos dê saúde, rogo-vos muito que a saibais conservar e vos leixês estar comendo e bebendo e levando muito boa vida.
Dizês-me que vos importunam lá muito religiosos: não é maravilha, porque seu ofício é esse. Se vos muito apertarem, dai convosco em uma quinta com um par de bêbados e em chocarreiro que estê dizendo graças, e leixai-vos estar. Faço-vos saber que o bispo vosso amigo mandou agora cá o velhaco do vigairo a servir a sua vigairaria; e escreve-lhe uma carta que vos lá mostrará Rui Gonçalves das grandes virtudes que havia nelas, a qual eu tenho pera mandar a el-Rei nosso Senhor por grande jóia.
Olhai que cousa é tomar peitas e dádivas. Eu vos prometo que eu jogue um jogo ao bispo com que ele arrenegue e mande por Miguel Vaz vigário-geral e o tenha comigo e faça muitas cousas que el-Rei nosso Senhor manda. Quanto é ao negócio que me tocais em vossa carta, eu vos escreverei depois mais largamente sobre isso.
A benção de Deus e a minha vos envio de Diu, a xxb de Dezembro de 1546.

D. João de Castro

Publicada primeiramente por Elaine Sanceau, cartas de D. João de Castro (1955), foi recolhida por Andrée Rocha nA Epistolografia em Portugal.

Nota - Apesar dos contornos pouco nítidos da carta, pelo menos para um não-especialista na figura e/ou período, os sentimentos de preocupação paternal -- até porque perdera já um filho em campanha militar -- e a cumplicidade maliciosa na estúrdia são suficientemente atemporais para que não leiamos esta missiva regalados pela verdade que encerra.