terça-feira, 24 de maio de 2016

#18 - Lisboa, 29 de Junho de 1894: Cesário Verde: «Mariano Pina, meu caro Director»

Dia de S. Pedro 29/Junho/84

Mariano Pina, meu caro Director,

A sua «Ilustração» impressa neste tumultuoso Paris, em grande formato, composta por tipógrafos franceses que devem achar muito drôle a abundância do «til» e a falta do «acento grave», anunciada com réclames estonteantes e um taraze ensurdecedor nesta pacífica Lisboa tão morna e tão dorminhoca, a sua «Ilustração» duma tiragem muitíssimo reparável, fez-me nascer o desejo de lhe oferecer a Você a minha colaboração. Conquanto V. não me enviasse o seu cartão de convite, o meu ideal de luxo e a minha pretensão de ver os meus versos numa elegante toilette parisiense, instigam-me a recomendar-lhe um pequeno poema que fiz com todo o esmero de que sou capaz, e cujas provas eu quereria ver pessoalmente no caso de ser publicado. Compõe-se de heróicos e alexandrinos, numas 130 quadras que no tipo miúdo (como é mais distinto e mais discreto para a poesia) encherão essas colunas de Hércules durante pouco mais de 2 páginas.
Mas a direcção literária ou administrativa duma publicação como a sua tem dificuldades. Você tem de consultar os grossos apetites dos seus leitores e os fastios nevrálgicos das suas leitoras, e realmente eu não sei se o devia embaraçar com esta exigência.
Em todo o caso sempre lhe direi que é um trabalho réussi, correcto, honesto e dum sentimento simples e bom. Chama-se «Nós», e é talvez a minha produção última, final. Trato de mim, dos meus, descrevo a propriedade no campo em que nos criámos, a fartura na vida de província, as alegrias do labor de todos os dias, as mortes que tem havido na nossa família e enfim os contratempos da existência. Para animar tudo isso, para dar a tudo isso a vibração vital, eu empreguei todo o colorido, todo o pitoresco, todo o amor que senti, que me foi possível acumular.
Ora como esta obra começa com a descrição da Febre-amarela e do Cholera-morbus quando nós fugimos em crianças, lá para fora, e depois continua com as descrições do nosso verão adusto e forte; e como nós agora estamos com a ameaça da epidemia e Julho e Agosto vão começar, eu pretendia que estas coincidências convergissem, publicando imediatamente.
É uma paixão pela arte que me faz pensar assim, não julgue V. crueldade. A famosa ciência de Pasteur e dos outros há-de atalhar o mal e o pavor será a maior dor que se sentirá.
Outra coisa: Sabe V. que tenho saudades desse aborrecido mês que vivi em Paris tão contrariado e esmagado, e que hoje fiz volte-face, e agora digo constantemente bem dessa França, desses Franceses e dessas Francesas, como um doido ou um apaixonado?
Bem, escreva-me Você sem demora com a sua decisão.
Seu confrade amigo e obrigado
Cesário Verde

Rua dos Fanqueiros, 2 -- Lisboa

Comentário - Carta emocionante do enorme e pobre Cesário (1855-1886) sobre um dos seus grandes poemas. Emocionante, porque vê-lo, ouvi-lo falar da sua obra resgatada por Silva Pinto à dispersão, é, de algum modo, trazê-lo de além-túmulo ao nosso convívio. Bendito Mariano Pina, autor menor, porém influente da universo literário português de oitocentos.
Publicado pela primeira vez por António Valdemar, e coligida por Elza Miné, Mariano Pina, a Gazeta de Notícias e a Ilustração: Histórias de Bastidores Contadas por Seu Espólio, separata da Revista da Biblioteca Nacional, s.2, vol. 7 (2)

7 comentários:

  1. Só conheço o Cesário Verde das "Folhas Caídas", livro obrigatório no 11º, com um professor autoritário e antipático. Lendo a carta fiquei com outra impressão, muito mais agradável, do autor. E poderia conversar com ele dessa Paris, desses franceses...

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    1. Ups!, as "Folhas Caídas" é do Almeida Garrett ;) O professor falhou, nitidamente...

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    2. Ai ai o que eu esqueci! Mas no 11º falei do Cesário Verde. Ele desculpa-me o lapso de certeza!

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    3. Lá tive que pedir ajuda à "sabedoria" do Google: o "Livro" de Cesário Verde, esse é que é ;-)

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    4. Ele disse-me que sim, que está desculpada!

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  2. Sempre tive uma enorme paixão pela epistolografia e a leitura da correspondência de e entre escritores, desde os tempos da minha adolescência em que devorava os suplementos culturais dos jornais. Vou estar atento e irei passando por aqui.

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