quarta-feira, 30 de março de 2016

#10 - Lisboa, 10 de Fevereiro de 1926: Reinaldo Ferreira: "Meu Caro Ferreira de Castro"


ABC 
REVISTA PORTUGUEZA
RUA DO ALECRIM, 65
LISBOA

Lisboa 10 de Fevereiro de 1926.

Meu Caro Ferreira de Castro

sabes o que certa bela camaradagem urdiu, embora sem ousar fincar dente, porque lhes faltam os queixais da verdade -- sobre a minha viagem à Rússia. Estou ensopando uma esponja nas provas e documentos para esfregar o rosto aos mal-intencionados. Para isso falta-me o teu testemunho.
Toda a gente sabe que a polícia de Espanha é das melhores informadas do mundo. A sua espionagem muito se assemelha à de Guepeau, de Moscow. Ela seguiu esta minha viagem. Tu sabes tão bem como eu, porque tiveste uma desagradável ocasião para isso. Peço-te que por carta contes o que leste na ficha que mostraram no comissariado de Madrid.
Teu camarada que muito te estima e admira
Reinaldo Ferreira

Comentário - Em 1925, a revista ABC publicava, em números sucessivos que se esgotavam e reimprimiam, uma reportagem do Repórter X à Rússia dos sovietes. Reinaldo era um repórter de mão cheia, ávido de furos de sensação. Muitos puseram em causa a veracidade desse trabalho, mas ninguém conseguiu provar que ele não esteve lá. 
Ainda hoje as opiniões se dividem. Eu, que devo ser das poucas pessoas que neste tempo a leu, inclino-me a dizer que sim, ele foi a essa Rússia, tão misteriosa quanto subversiva. Um dos argumentos mais convincentes  é o do salvo-conduto que ele invocou ter-lhe sido dado por José Carlos Rates, então secretário-geral do PCP; e que se saiba, não foi por este desmentido. Sobre este facto, do detractores do Repórter X disseram nada.
Se apesar da verosimilhança dos depoimentos, das impressões, da iconografia, a reportagem foi uma fraude, o talento de Reinaldo Ferreira, era e foi enorme, pela cópia de informações, pelo interesse que conseguiu suscitar durante meses na opinião pública portuguesa.
O episódio a que alude com a polícia espanhola foi o da detenção de Ferreira de Castro em Madrid, confundido com aquele, por usarem o mesmo apelido, pedindo-lhe que dê testemunho.
Publicado por mim em  100 Cartas a Ferreira de Castro (2.ª edição, 2006).

sexta-feira, 18 de março de 2016

#9 - Lisboa, 2 de Janeiro de 1900: Teófilo Braga: "Caro Poeta"

Lisboa, 2 de Janeiro de 1900
Caro Poeta

já alguns dias que recebi o seu primeiro livro de poesias Algas -- tendo é certo lido logo e imediatamente. Leio sempre com curiosidades diversas as composições poéticas que me caem debaixo dos olhos; quando não acho conhecimento de forma, apelo para a originalidade ou a novidade da ideia; quando falha qualquer destes aspectos procuro ainda descobrir o temperamento ou organização do Poeta, que às vezes pode estar abafado pelas correntes batidas de um gosto dominante que o prejudique.
no fim deste inquérito é que deixo o livro ou a composição poética. O seu livro das Algas  também passou por este crivo; há ali conhecimento das formas, e há temperamento poético; e é muito, e por isso que promete largas esperanças é que não é já tudo. Para ir mais longe é questão da idade, que lhe há-de dar o contacto da realidade da vida, e de uma filosofia que dê ao seu espírito a visão universal.
Felicita-o com um abraço o seu
admirador e am.º At.º
Teófilo Braga
T. S. Gertrudes, n,º 70.


Comentário - O velho, e então ainda idolatrado, positivista responde a um jovem poeta de dezanove anos, que acabara de publicar o primeiro livro, Algas, com palavras de apreço e encorajamento, não sem antes discorrer sobre o seu método de avaliação, eloquentemente enunciado... A forma benevolente e pedagógica como o faz -- em 1900, Teófilo era uma espécie de papa dos estudos literários -- é de assinalar. Algas, livro que tenho na minha pequena biblioteca, é uma meritória obra de estreia. A missiva foi publicada por Manuel de Azevedo, Cartas a João de Barros (s.d.)

quinta-feira, 10 de março de 2016

#8 - Paris, 25 de Agosto de 1697: José da Cunha Brochado: "Meu Senhor"

Meu Senhor.
Estimo muito as boas novas que Vossa Mercê me dá de se haver recolhido com saúde a sua casa, onde ficará logrando o descanso que por cá lhe faltava.
V. M., que sempre foi injusto venerador das Cortes estrangeiras, me diz que se acha muito só na nossa Corte; porém, nela melhor que nas outras viverá V. M., ainda que em menos concurso com menos concorrentes. A nossa comédia tem menos aparato, mas diverte a menos custo; a nossa praça terá menos passeio, mas tem menos atenções. As damas, que lá são menos expostas, são , por isso, mais dignas do privilégio com que as criou a natureza. As Tulherias, [por] que V. M. suspira tanto, não têm de grande mais que a novidade com que V. M. as via; mas é escusado persuadir este conhecimento a um fidalgo português, cujo génio foi sempre pagar-se mais do pouco, sendo-lhe singular, que do grande, sendo-lhe comum.
Veja V. M. se no meu pouco préstimo pode achar a honra de servi-lo.
Deus guarde a V. M. muitos anos.
25 de Agosto de 1697.

Comentário. Das Cartas editadas por António Álvaro Dória, em 1944. Missiva a desconhecido, estava então Brochado em Paris, como secretário do embaixador, o 2.º Marquês de Cascais, D. Álvaro pires de Castro. Muito reveladora da assertividade do diplomata a apreciação sobre a comédia humana em Versalhes, comparando-a com a  da corte de D. Pedro II, tentando consolar um nobre saudoso do fausto  tornado distante -- dum modo que a este não deixaria de ser lisonjeiro --, chegando a ser divertido o modo como procura menorizar a corte de Luís XIV. Fá-lo Brochado por lisonja? Provavelmente não, que ele, muito sério e competente, também não era bom de se assoar; antes por deferência devida -- e porventura sincera -- a quem lhe estava, por estado e condição, acima na pirâmide social, como era de uso na estratificação da época.

sábado, 5 de março de 2016

#7 - Nespereira, Guimarães, 28 de Março de 1922: Raul Brandão: «Exmo Senhor Ferreira de Castro»

Exmo Senhor Ferreira de Castro

Muito obrigado pelo artigo que escreveu a meu respeito no último número da «A Hora» -- que tenho lido sempre com grande interesse, como leio tudo que é apaixonado e sincero.
São raras efectivamente as pessoas que em Portugal estimam os meus livros, mas essas bastam-me, quando compreendem não o que vale a minha obra necessariamente imperfeita, mas o esforço que faço para arrancar alguns farrapos ao Sonho...
Creia-me sempre
ador e cam.da muito og.º [?]

Raul Brandão
Nespereira
Guimarães
28 de Março de 1922

Comentário - Publicada por mim, a abrir as 100 Cartas a Ferreira de Castro (1992, 2.ª ed. 2006). Não se conheciam, mas os 12 anos seguintes foram de frequente convívio e admiração. Foi o escritor português que mais impressionou Ferreira de Castro, é a sua grande referência lusa, como bem viu, antes de todos, Jorge de Sena.

quarta-feira, 2 de março de 2016

#6 - Figueira da Foz, 26 de Junho de 1926: o Visconde da Marinha Grande: «Meu querido João»

Figueira, 26-6º-1926

Meu querido João

Obrigado pela tua pronta resposta à minha precedente carta, e oxalá que o teu optimismo se realize, mas as prisões já começaram!... Cautela meu João!
E conta sempre comigo para tudo (que não poderá ser muito) que eu possa fazer.
Beija os meus queridos netos e querida Raquel, e a ti, beijo-te
                                                                   e abraço-te de todo o meu coração

                                                                                     Afonso

Faz favor de dar à irrequieta Teresa o papelinho junto e ela que entregue ao [..?]

Comentário - Testemunho maravilhoso de amor paternal dum velho de 90  anos -- Afonso Ernesto de Barros (1836-1927) ao seu mais do que adulto filho.  João de Barros (1881-1960) fora uma personalidade influente na I República, um dos nomes do ímpeto político do incremento da Instrução Pública que caracterizou essa fase da vida do país, e também ministro dos Negócios Estrangeiros.  Era também um importante poeta, cujo percurso se iniciara ainda durante o regime monárquico. Com o golpe militar de 28 de Maio de 1926, a situação pessoal complicava-se, e seu pai, o Visconde da Marinha Grande, dava conta das suas preocupações.
A "irrequieta Teresa" virá a ser mulher de Marcelo Caetano.
Publicado por Manuela de Azevedo, Cartas a João de Barros (s.d.), que escreve: «A ternura com que ele se exprime só a um filho muito merecedor se confessa.»
                                                                                                              

#5 - Penela, 6 de Janeiro de 1443: o Infante D. Pedro: "Muito alto e muito excelente Príncipe, e muito poderoso Senhor"

Muito alto e muito excelente Príncipe, e muito poderoso Senhor

O portador da presente leva a Vossa Mercê o livro que mandastes tornar em esta linguagem ao Prior de S. Jorge, o que foi muito deteudo em tornar por a minha partida de Coimbra, e por as festas que se seguiram. A Vossa Mercê praza de o haver por perdoado. Eu corri, Senhor, este tratado e parece-me que há nele razões muito bem ditadas de amizade; mas não me parecem tais nem tantas que mais e melhores não visse a obrar a Vossa Senhoria, e bem creio que se disto quiserdes fazer livro, por aquilo que a Vossa Mercê pratica e praticou, o podereis escrever de muitos e maravilhosos notados. Bem sou certo, Senhor, que, se achardes amigo semelhante a vós, que podereis mui verdadeiramente ser contados entre os três ou quatro pares de amigos de que se faz menção em aquele tratado, e ainda por dois mais principais. Mas outorgando-vos Deus o estado real, de que, a meu juízo, sois mais digno que homem que eu conheça, tirou-vos nome de amigo ao menos com vossos sujeitos, ficando-vos outro mais alto que é bom e gracioso Rei e Senhor. Porque não sinto que as obras de amizade se possam em seu perfeito grau usar entre senhor e servidores, porque a amizade traz obras de coração voluntarioso e livre. Pois como caberá isto no sujeito que a seu bom senhor é tão obrigado que lhe deve si e quanto possui, em tal maneira que lhe não fica por que possa livremente mostrar sua amizade? Parece-me ainda, Senhor, que o nome de amizade requer igualdança nas pessoas, e cada um verdadeiro amigo deseja de igualar seu amigo em benfeitorias e agradecimentos, e ainda vencê-lo em isto se puder. Pois a desigualdança é tão grande entre Senhor e servidores que parece não cabe entre eles comparação, de si as benfeitorias dos senhores são mui grandes aos servidores, e as maiores que igualmente fazem os servidores são mui pequenas a seus senhores, e quando praz nos senhores acerca de alguns mostrar quanto são poderosos em bem obrar, fazendo-lhes grandes mercês e havendo-lhe singular afeição que terão estes servidores com que conhecer a seus senhores? Eu não sei al se não aparelharem os corpos e as vontades a serem sempre seus e morrerem por eles. E porque tudo isto é devido com razão do bom direito e senhorio, a mim parece que nome de amigos entre eles não pode caber. Eu não entendo, Senhor, por minha escritura, escusar-vos de mais que de nome de amigo; que da vontade, e de saber bem amar, e usar das obras respondentes à verdadeira amizade, a vós dou a vantagem de quantos eu vi. E tanto me parece que em isto sois grande mestre, que perda seria tanta mestria principalmente exercitardes senão àcerca de grandes cousas. E não vejo outros que vos possa dignamente agradecer ao que vós sabereis com ajuda de Deus e podereis merecer senão ele; e de si por ele a reputação de vossos Reinos, em que se compreendem todas as pessoas e estado deles. E em isto firmando vosso amor, sempre achareis quem vos ame mais do que vós amardes, e quem se lembre de vossas boas obras  e conheça quanto são bem feitas, e vos galardoe mais grandemente do que requerem vossos merecimentos; e estes me parece que são dos mais principais frutos de amizade.
Senhor, este livro que vos envia o prior de S. Jorge repreende tanto a louvaminha que, se eu não entendesse que aquele nome significa louvor mentideiro ou louvor verdadeiro com tenção maliciosa, eu não fora ousado tal carta escrever. Mas porque eu tenho que aquilo significa que o que em esta é conteúdo em vosso louvor eu creio de coração e em todo o lugar o afirmo pela boca, quando se requer em tais cousas falar, porém não hei empacho de o escrever com a mão, de mais que a tenção é por virtude a crescer em vós e continuadamente melhorar, o que o todo poderoso Deus vos outorgue a seu serviço e a vossa grande honra. Escrita em Penela, a 6 de Janeiro de 1434.

Do Infante D. Pedro

Comentário. Recolhida para A Epistolografia em Portugal por Andrée Rocha nas Provas da História Genealógica da Casa Real Portuguesa (1739-1748), I, Liv. III, do operoso D. António Caetano de Sousa (1674-1759).
Uma carta que reflecte o pensamento do Infante D. Pedro (1392-1449) já como homem do Renascimento, a propósito da sua concepção do lugar central e pinacular do soberano -- neste caso, o seu irmão, o rei D. Duarte (1391-1438) --, e que nos dez anos de regência, na menoridade do sobrinho (e genro), D. Afonso V, pretendeu exercer, limitando o poder senhorial e reforçando o da corte. Exercício que lhe custou a intriga e a inimizade do círculo real, o desterro e a morte, na batalha de Alfarrobeira, contra o exército desse D. Afonso V, o nosso último rei medieval. O livro em apreço era o tratado Da Amizade, de Cícero.