terça-feira, 31 de maio de 2016

#19 - Espinho, 12 de Março de 1905: Manuel Laranjeira: "Ex.mo Sr. João de Barros"

Ex.mo Sr. João de Barros:

Um número da sua revista, que me chega agora à mão, veio bruscamente lembrar-me que lhe sou devedor de tanta coisa prometida! e devedor que se está comportando dum modo bem singular.
Peço-lhe que me creia: eu não tive o mais leve intuito em desconsiderá-lo com o meu silêncio e nem sequer tive o intuito a furtar-me a pagar-lhe o que lhe prometi e devo. Isto em mim agora não é alijar uma responsabilidade de mau pagador: é a verdade. Se me conhecesse intimamente estou certo que V. Exª. não só explicaria e perdoaria o meu silêncio amigo (numa significação bem diferente duma cursilería que para aí se chama amizade). Todos nós temos, dormitando no fundo do nosso ser, o nosso demónio (até Antero e Sócrates, que foram integrais como deuses, tinham cada um o seu) a que a psiquiatria de agora chama insultuosamente neurastenia, nevrose, psicastenia... -- e que sei eu? Quando um demónio desperta e reivindica os seus direitos ferocíssimos (ferocíssimos para o nosso pobre ser que tem de sofrê-los) nós esquecemo-nos de tudo -- até de pagar o que devemos. Exponho-lhe estas coisas íntimas e lastimosas, porque estou certo de que me dirijo a um espírito capaz de as compreeender. Doutro modo, se, em vez de tratar de si, se tratasse duma criatura vulgar como a abjecção da vida, creia: eu prolongaria indefinidamente o meu silêncio... -- et je m'en foutrais.
Eu desejava dizer-lhe muitas coisas sobre a sua magnífica plaquette dramática (dramática, não; lírica, bela e intensamente lírica); mas teria de ser longo e maçador. Sendo-lhe a si (devendo ser-lhe!) demais a mais indiferente a minha opinião sobre o valor artístico dela. De resto, uma opinião, boa ou má, seja de quem for, sobre uma obra de arte, não a desnivelará uma linha sequer do lugar justo que o seu valor real lhe marcou. Ninguém, nem Deus (refiro-me a Deus num sentido metafórico!), seria capaz de anular um átomo ao valor da obra shakespeariana, ou de pôr um átomo de génio nos medíocres furtos do Sr. J. D. Uma obra é o que é -- diga-se dela o que se disser. A crítica é apenas um comentário que traduz uma impressão ou uma análise: pode explicar a obra de arte, mas nunca validá-la ou invalidá-la. Nestes termos, a crítica, para o autor da obra de arte, não é lisonjeira, nem agressiva: é indiferente (deve sê-lo!). Por isso não estou a massacrá-lo com a minha admiração.
E quando solverei eu a grande dívida de enviar-lhe o artigo prometido?
Quando o meu demónio deixar.

Espinho, 12 de Março de 1905.
Criado sem préstimo
M.to Ob.do e Admirador

Manuel Laranjeira

Comentário - Carta extraordinária de um espírito brilhante e torturado. Por um lado, pela forma como se expõe a João de Barros na sua assustadora (sabêmo-lo suicida) vulnerabilidade; por outro, no seu agudíssimo conceito sobre a recepção literária e as suas óbvias fragilidades.
A revista referida é Arte e Vida, dirigida pelo destinatário; "J. D." -- trata-se, evidentemente, de Júlio Dantas.

Cartas (edição de Ramiro Mourão)

terça-feira, 24 de maio de 2016

#18 - Lisboa, 29 de Junho de 1894: Cesário Verde: «Mariano Pina, meu caro Director»

Dia de S. Pedro 29/Junho/84

Mariano Pina, meu caro Director,

A sua «Ilustração» impressa neste tumultuoso Paris, em grande formato, composta por tipógrafos franceses que devem achar muito drôle a abundância do «til» e a falta do «acento grave», anunciada com réclames estonteantes e um taraze ensurdecedor nesta pacífica Lisboa tão morna e tão dorminhoca, a sua «Ilustração» duma tiragem muitíssimo reparável, fez-me nascer o desejo de lhe oferecer a Você a minha colaboração. Conquanto V. não me enviasse o seu cartão de convite, o meu ideal de luxo e a minha pretensão de ver os meus versos numa elegante toilette parisiense, instigam-me a recomendar-lhe um pequeno poema que fiz com todo o esmero de que sou capaz, e cujas provas eu quereria ver pessoalmente no caso de ser publicado. Compõe-se de heróicos e alexandrinos, numas 130 quadras que no tipo miúdo (como é mais distinto e mais discreto para a poesia) encherão essas colunas de Hércules durante pouco mais de 2 páginas.
Mas a direcção literária ou administrativa duma publicação como a sua tem dificuldades. Você tem de consultar os grossos apetites dos seus leitores e os fastios nevrálgicos das suas leitoras, e realmente eu não sei se o devia embaraçar com esta exigência.
Em todo o caso sempre lhe direi que é um trabalho réussi, correcto, honesto e dum sentimento simples e bom. Chama-se «Nós», e é talvez a minha produção última, final. Trato de mim, dos meus, descrevo a propriedade no campo em que nos criámos, a fartura na vida de província, as alegrias do labor de todos os dias, as mortes que tem havido na nossa família e enfim os contratempos da existência. Para animar tudo isso, para dar a tudo isso a vibração vital, eu empreguei todo o colorido, todo o pitoresco, todo o amor que senti, que me foi possível acumular.
Ora como esta obra começa com a descrição da Febre-amarela e do Cholera-morbus quando nós fugimos em crianças, lá para fora, e depois continua com as descrições do nosso verão adusto e forte; e como nós agora estamos com a ameaça da epidemia e Julho e Agosto vão começar, eu pretendia que estas coincidências convergissem, publicando imediatamente.
É uma paixão pela arte que me faz pensar assim, não julgue V. crueldade. A famosa ciência de Pasteur e dos outros há-de atalhar o mal e o pavor será a maior dor que se sentirá.
Outra coisa: Sabe V. que tenho saudades desse aborrecido mês que vivi em Paris tão contrariado e esmagado, e que hoje fiz volte-face, e agora digo constantemente bem dessa França, desses Franceses e dessas Francesas, como um doido ou um apaixonado?
Bem, escreva-me Você sem demora com a sua decisão.
Seu confrade amigo e obrigado
Cesário Verde

Rua dos Fanqueiros, 2 -- Lisboa

Comentário - Carta emocionante do enorme e pobre Cesário (1855-1886) sobre um dos seus grandes poemas. Emocionante, porque vê-lo, ouvi-lo falar da sua obra resgatada por Silva Pinto à dispersão, é, de algum modo, trazê-lo de além-túmulo ao nosso convívio. Bendito Mariano Pina, autor menor, porém influente da universo literário português de oitocentos.
Publicado pela primeira vez por António Valdemar, e coligida por Elza Miné, Mariano Pina, a Gazeta de Notícias e a Ilustração: Histórias de Bastidores Contadas por Seu Espólio, separata da Revista da Biblioteca Nacional, s.2, vol. 7 (2)

quinta-feira, 12 de maio de 2016

#17 - S. Miguel de Seide, 17 de Abril de 1870: Camilo Castelo Branco: "Ex.mo Snr."

Ex.mo Snr.

Se vê que a minha carta não tem muito descuidos gramaticais, pode publicá-la. Não me lembro se há lá coisa que moleste o próximo; se vê que há trace. V. Ex.ª não deve ignorar que eu acato o próximo e só por descuido lhe tenho assacado aleives que me trazem assaz penitenciado.
Agradeço-lhe a estimação que dá ao futilíssimo livro dos Brilhantes do Brasileiro. Parece-me que só tem uma dúzia de paginas sofríeis, são as últimas que me saíram da alma com lágrimas. As outras são pura chalaça -- o espírito português, único a meu ver, que pode sair das nossas oficinas de caricaturista.
A nossa sociedade não dá para mais. Se tirarem a Portugal, o brasileiro e ao Jardim das Plantas, de Paris, os ursos, não há aí que ver. (Esta carta faça-me o favor de a não publicar. Isto entre nós é maledicência muito à puridade).
Dê-me as suas ordens.
De V. Ex.ª
adm.or afectivo e ob.do

Camilo Castelo Branco
S. M. de Seide, 17 de Abril 70.

Comentário - Carta cujo destinatário não está identificado, muito divertida, pelos conceitos de autoapreciação de Camilo e pela forma desprendida com que se refere à narrativa publicada no ano anterior.  Publicada pelo António Cabral, camiliano e queirosiano de mérito (pertence-lhe a primeira biografia de Eça de Queirós publicada em Portugal, datada de 1916), em Homens e Episódios Inolvidáveis (1947).

quinta-feira, 5 de maio de 2016

#16 - Rio de Janeiro, 10 de Setembro de 1934: Jorge Amado: "Meu caro Ferreira de Castro."

Rio de Janeiro, 10 de Setembro de 1934.

Meu caro Ferreira de Castro.

Acabo de voltar ao Rio e encontrei na Ariel a sua última carta. Agradeço os seus conceitos sobre Cacau Suor.
Venho de passar quatro meses na Baía, recolhendo um resto de material para um romance sobre negros. Chamar-se-á Jubiabá, nome de um macumbeiro de lá e espero fazer um livro forte, fixando nas duas primeiras partes -- Baía de Todos os Santos e --Grande Circo Internacional -- todo o pitoresco do negro baiano -- música, religião, candomblé e macumba, farras, canções, conceitos, carnaval místico -- e toda a paradoxal alma do negro -- raça liberta, raça das grandes gargalhadas, das grandes mentiras e raça ainda escrava do branco, fiel como cão, trazendo nas costas e na alma as marcas do chicote do Sinhó Branco. A terceira parte --A greve -- será a visão da libertação integral do negro pela sua proletarização integral. Que acha v. do plano?
Lhe envio um Boletim de Ariel onde falo em V. Aliás a nota está besta. Mas vale a intenção. V. recebeu meu artigo sobre Terra Fria? Acuse o recebimento.
Mande dizer o que v. está fazendo. Qual o livro que o preocupa no momento? V. tem um grande público aqui no Brasil. Aliás porque v. não envia pro Ariel uma nota sobre a nova literatura de Portugal? Aqui há um certo movimento intelectual que está fazendo alguma coisa. O público nos apoia intensamente. Compra nossos livros. A crítica, é natural, se divide em descompusturas e elogios. Mande o artigo. Porque v. não aparece aqui de novo? Pelo que depreendo dos seus livros v. esteve por aqui em 24. Gostaria de ser seu cicerone numa viagem longa através do Brasil. Vendo as casas coloniais da Baía. Material que em suas mãos daria romances como A Selva.
Me escreva. Agora não saio do Rio tão cedo. O Lins do Rego está em Maceió onde reside. Mandei em carta suas lembranças para ele.
Abrace o seu amigo e admirador
Jorge Amado
Boletim de Ariel
R. Senador Dantas -- 40 -- 5.º
Rio.

comentário - Grande documento, não apenas pela evidência do programa literário de Jorga Amado, como pelo que revela da influência que Ferreira de Castro tinha junto dos jovens escritores nordestinos brasileiros, cuja repercussão na geração neo-realista portuguesa é consabida.
Castro e Amado começaram a corresponder-se neste anos de 1934, mas só travariam conhecimento pessoal em 1948, em Paris, quando o autor brasileiro, então um activo militante comunista. teve de exilar-se. Essa amizade manteve-se e fortaleceu-se ao longo das décadas, tendo, por várias vezes e em diversas situações Jorge Amado evocado Ferreira de Castro, comovidamente. Das evidências dessa forte relação, basta lembrar que o o autor de A Selva é o autor português mais referido em Navegação de Cabotagem, as memórias de Jorge Amado.
Ferreira de Castro viria a ser um dos dedicatários de Jubiabá (1935), um dos romances mais marcantes de Amado.
 Publicada por mim, em Anarquismo e Neo-Realismo -- Ferreira de Castro nas Encruzilhadas do Século (2002) e na 2.ª edição, refundida, de 100 Cartas a Ferreira de Castro (2006)

domingo, 1 de maio de 2016

#15 - Londres, 11 de Agosto de 1911: M. Teixeira-Gomes: "Querido Amigo:"

Londres, 11 de Agosto de 1911

Querido Amigo:

Cruzaram-se as nossas cartas de ontem. -- Antes de sair de Lisboa, falando ao Camacho na possibilidade de se lembrarem de mim, em qualquer aperto para a pasta dos Estrangeiros, declarei-lhe categoricamente que nunca a aceitaria, e a haver quem, por tal motivo, me acoimasse de mau patriota, eu recolheria definitivamente ao meu buraco, de onde não sairia mais. Ficou assim o B. Camacho com procuração bastante para decidir o assunto e dou-lhe também a você no mesmo sentido, acrescentando que essa pouca energia e o resto de saúde que eu ainda conservava em Lisboa, se esgotaram quase completamente, tendo hoje como certo que, posto na alternativa de aceitar a pasta dos Estrangeiros, ou dar um tiro na cabeça, preferiria, sem a mínima hesitação, o tiro. Isto é positivo e daqui não haverá influências humanas ou divinas que me demovam. Aceitando o posto que ocupo dei ao País muito mais do que podia e devia dar.
O homem que está indicado para os Estrangeiros é o A. de Vasconcelos. Fala-se nele; é que ele aceita e quer. Com as suas amarras ao Bernardino, ao Camacho e ao Costa, considere-o você já ancorado no Terreiro do Paço. É inteligente, activo e culto; fará portanto bom papel político e de quando em quando operação cirúrgica rendosa, o que também tem importância.
A situação aqui vai de mal a pior. Naturalmente a impressão que eu dou aos portugueses que passam pela Legação é optimista, mas a verdade é que a situação é péssima.
O F. de Andrade, que esteve aqui mais 15 dias e conversou com toda a gente que tem negócios connosco, é da mesma opinião.
Que quer, não se faz coisa alguma para nos aplanar o caminho. Se eu ainda não consegui que se nomeasse vice-cônsul um homem de grande influência e respeitabilidade, que tem aguentado a Câmara Anglo-Portuguesa (atacado por todos os lados pelos nossos inimigos) e nos tem prestado relevantíssimos serviços, entre eles a organização de representações ao Governo inglês para fazer o modus-vivendi no sentido em que o desejamos. Esse homem suspira por essa honra vertiginosa há 10 anos, mas o grande Batalha de todos os Reis, que lhe não convinha por motivos de pecúnia, a existência dum vice-cônsul -- sempre lhe deu para trás e continuará dando. A propósito desse nome faustoso: falei-lhe tempos atrás na esperança que ele acalentava (em família) de ir a ministro dos Estrangeiros. Riu-se você sem dúvida desdenhosamente. Pois riu-se fora de propósito. Ele aduz em favor dos seus direitos, além da brilhante carreira diplomática universalmente conhecida, a circunstância de, aí pelas alturas de 1520 (sic), quando se preparava uma das infinitas revoluções platónicas de que José Elias Garcia e outros tiraram privilégio de invenção, ter sido solicitado para entrar no primeiro Ministério, sobraçando aquela pasta, para o que, expressamente o viera a Londres convidar o nosso tão venerável quanto profético Junqueiro. Dessa vez recusou com a mesma nobreza com que agora a requer.
Queixa-se você do calor e que ainda tem banhas. Já derreti as minhas, de modo que não há perigo de ver a pena escorregar-me pelos dedos, que são verdadeiras tenazes de coiro batido.
Seu do coração

Comentário - Carta dirigida a João Chagas, presidente do Ministério. A República no início, os aderentes, os adesivos, os do contra. Augusto de Vasconcelos viria a ser ministro dos Estrangeiro, como, mais tarde, chefe do Governo. 
M. Teixeira-Gomes, um dos maiores escritores da nossa língua, teve a espinhosa missão de assegurar o posto diplomático mais importante do país, Londres. A Inglaterra era não só a superpotência mundial de então como a nossa mais antiga aliada, essencial para a sobrevivência do novo regime, missão da qual o escritor se desempenhou com grande sucesso, por mais de uma década. Viria a ser Presidente da República, entre 1923 e 1925, sendo o único até hoje a renunciar ao cargo.
Publicada por Castelo Branco Chaves, Correspondência I -- Cartas para Políticos e Diplomatas .