segunda-feira, 27 de junho de 2016

#22 - 7 de Janeiro de 1946: Augusto Casimiro: "Meu caro Camarada e Amigo:"

Meu caro Camarada e Amigo:

Tenho aqui o seu cartão de boas-festas e o seu artigo Dum Natal que já vai longe.
Os seus votos retribuo-os com amigos votos, pela sua saúde, pelas Vitórias que andamos preparando, pelo Natal que já vem perto...
O que significa para a minha alma o seu artigo, por lembrar Nuno Cruz, -- adivinhá-lo-á se lhe disser que o conhecia desde Coimbra, -- foi meu soldado; e desde a Flandres, -- foi meu camarada, -- e heróico. Desde o primeiro momento, -- ia a dizer instante, -- em que o seu nobre espírito, o seu carácter admirável, as suas palavras, precedendo actos belos, se voltaram, fiéis à Pátria, para novas lutas, travadas aqui e no exílio, com igual fidalguia, até à hora de morrer.
O grande Camarada da Flandres, voltou a ser companheiro, e com que exemplar mestria, desde aquele dia (6 ou 7 de Novembro de 1926) -- em que descemos os dois a Lisboa. E com que lealdade e nobreza diante do próprio adversário!
Tive-o muitas vezes, sereno e apostólico foragido, no regaço da minha casa, acarinhado pelos meus.
Conheci-lhe, ainda melhor, o talento e o carácter; -- muitas vezes lhe disse:
-- «Se tudo isto, passando, nos deixar quatro ou cinco homens como você, -- ganharemos a Vitória do Futuro!... [»]
-- Ele pertence ao número daqueles de quem não digo, -- admiro, -- porque os amo.
E o amor é a forma superlativa da admiração.
Num livro que fecharei nas doces vésperas da minha morte Um Homem Lembra-se... -- este Nuno Cruz há-de ficar, espero, como uma das presenças mais vivas e queridas. Não era deste tempo. Aquela rija têmpera, aquela espiritual clareza, aquele amorável feitio...
O seu artigo, para lá do mérito literário com que o meu amigo exprime a sua emoção e solene civismo, -- tem para mim o valor de ser uma prece erguida diante dum altar que venero. Junto a minha à sua prece.
Nesse Natal, longe, longe, onde estava eu? Talvez em Angola, -- ou deportado em Cabo Verde, que por lá vivi de 1931 a 1935.
Felizes os que podem, do coração, puro perante a Pátria, viver a saudade de Natais assim.
Bem haja por tudo! -- pela sua generosa simpatia, pelas sua pródigas lembranças.
Lembre-me às dunas, ao vento, às ondas de Mira, -- e aos que se lembrarem por aí de mim.
De novo um grande Ano, que seja limiar de grandes e generosas tarefas.

Seu
Augusto Casimiro

S/C 7 de Janeiro de 1946

in Maia Alcoforado, Paisagem do Dia Ausente, Porto, Edições AOV, 1947.

Comentário - Uma carta muito sentida de Augusto Casimiro, excelente poeta, homem de A Águia, figura marcante da vida cívica e culrural portuguesa, o segundo director da Seara Nova. Casimiro, combatente na Flandres, como o destinatário desta missiva, Maia Alcoforado, e o homem que a motivou, Nuno Cruz, camarada de armas na Grande Guerra de 14-18, e também naquilo a que ficou conhecido como o 'reviralho' -- a oposição democrática e republicana à Ditadura Militar e ao Estado Novo que ela originou.
As "Vitórias" e o "Natal que já vem perto" são o almejado fim do regime salazarista, que a Oposição perspectivava com a recente vitória dos Aliados na II Guerra Mundial -- fim, que, como sabemos, ainda levaria quase trinta anos.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

#21 Montpellier, 25 de Novembro de 1934: Vitorino Nemésio: "Meu caro José Régio"

Montpellier
(Collège des Écossais,
Plan des Quatre Seigneurs),

25 de Novb.º 1934.

Meu caro José Régio

Deixe-me exprimir-lhe antes de mais, antes da crítica e de tudo a minha admiração, surpresa, encanto, entusiasmo, fé (e que mais?) pela leitura do seu livro. Vou apenas a págs. 258, mas já fui agarrado, senão rigorosamente desde o princípio, desde bastante no começo. Assim é que estou faltando ao planos que traçara: ler o seu livro apenas em viagem, e até onde chegasse a viagem. E é curioso que isto se tenha dado quando uma das coisas que terei a dizer-lhe é que o seu livro não é romance senão por alguns aspectos. Mas veja já, veja imediatamente como a intrusão da crítica numa impressão sincera e complexa é uma coisa limitante, além de poder ser uma espécie de pedrada... Não; o seu livro é uma fortíssima e extraordinária coisa. Extraordinária para nós portugueses; comum talvez só para uma das duas estreitas dúzias de escritores do mundo. E de novo lhe estraguei o que lhe digo com esta inclinação aldeã de colocar a «música» da terra num plano de «música» de outras terras! Nacionalismo, meu caro José Régio, e vícios de uma fácil «Literatura Comparativa», -- manhas de professor... A verdade é que eu queria passar-lhe para aqui, quase sem meditação (e sobretudo sem premeditação) a porção de coisas que estão a flutuar cá dentro e que me vêm jogadas do seu livro: a poesia extraordinária que nele pulsa; a prosa corrente e ao mesmo tempo rara com que é feito -- rigorosa e ondulante, toda afinada pelo timbre português sem perder nada do tom pessoal de quem a escreve e da cadência a ideias e sensações de toda a parte. Nem quero calcular, organizar esta comunicação do que sinto, e é bem triste afinal que as correntes que nos atravessam tenha a necessidade de fios!
páginas em que V. atinge a luminosidade de toda a expressão que conseguiu libertar-se dos seus meios ou da consciência deles para chegar à terrível ou inefável nudez do inexprimido -- e lembro esta página a que já cheguei hoje, 26, dia em que continuo esta carta (p. 323). Aí V. justifica involuntariamente, com naturalidade genial, a escolha do Discours de la Méthode p.ª título das duas Mem.as de Jaime Franco, quando é levado a suspeitar da inutilidade do seu «relatório» e da sua possível gaguez em face da «força de sistematização e propriedade da linguagem dos filósofos e dos sábios». Divina gaguez essa que «tritura» (um verbo de V.) as mil e uma contradições do suceder íntimo e do pensamento dele, multiplicado e reproduzido até à saciedade e à dor, recaído depois em novas fornalhas do «monstro» e outra vez levado ao tenso fulgor da reflexão.
Paro por aqui, por que me apeteceria não acabar. Não toco nos motivos porque o seu livro não é inteiramente romance. V. conhece-os. O seu livro, aliás, não sendo romance, é muito mais. E não sei porque me surge como uma dessas mensagens de cumieira: umas Confissões de St.º Agostinho, ou assim. De censurável (e até de fastidioso) só certas páginas em que Serra contracena com os rapazes do Grupo e não se sabe porque motivo -- social e lógico motivo -- se zangam, formalizam, melindram ou amuam. Confesso que aí cheguei muitas vezes a enfadar-me e a amarrotar as páginas, furioso consigo... Mas saio do Jogo da Cabra Cega com uma impressão decididamente forte, muitas vezes empolgada, -- e (deixe-me dizer-lhe) com uma sensação de pequenez minha, da mediocridade dos meus meios, que oxalá o seu exemplo, tornado estímulo, ajude a transformar nalguma coisa de melhor. Um grande abraço do
Nemésio.


Comentário - Carta empolgante de Nemésio, com mais de meio livro lido, esse inovador Jogo da Cabra Cega, de Régio, acabado de publicar, e cujo destino seria o da apreensão. Empolgante, nem tanto pelo entusiasmo, contido por vezes, de Nemésio, mas pelo espectáculo que dá do scholar em acção judicativa -- esse mesmo que dez anos mais tarde faria aparecer um dos maiores livros da nossa literatura, Mau Tempo no Canal. Publicada pelo grande regiano que é Eugénio Lisboa, num livro de ensaios que é, também ele, um extraordinário testemunho de agudeza crítica, O Objecto Celebrado, Coimbra, Por Ordem da Universidade, 1999.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

#20 - 16 de Maio de 1906: D. Carlos I: "Meu querido João Franco"

I noute.
16 -- 5 -- 906
Meu querido João Franco

Tendo o Presidente do Conselho, Cons.º Hintze Ribeiro, acabado neste momento, por carta que acabo de receber e por motivos... que de viva voz te exporei, de depor nas minhas mãos a demissão do Ministério, e desejando eu que neste momento te encarregues da formação do novo ministério, desejo que aqui venhas falar-me, logo possas, e quanto mais cedo melhor.
 muito a fazer e temos, para bem do País, que seguir por caminho diferente daquelle trilhado até hoje; para isso conto contigo e com a tua lealdade e dedicação, como tu podes contar com o meu auxilio e com toda a força que te devo dar.
Sempre teu
Amigo verdadeiro
Carlos R.

Comentário - deve ter feito algum furor, em 1924, quando João Franco, um dos homens políticos mais odiados da História do Portugal contemporâneo, resolveu publicar e comentar as cartas que D. Carlos lhe enviara, desde o convite para formar gabinete, pelo impasse criado pelos partidos tradicionais, fautores do fim da monarquia portuguesa, que em breve eclodiria. Independentemente das intenções e autojustificações, o que interessa é o conjunto de cartas que revelam um rei que pouco tem que ver com o boneco, entre o pândego e torpe, que o republicanismo panfletário dele quis fazer.

Cartas d'El-Rei D. Carlos I a João Franco Castello-Branco Seu Ultimo Presidente do Conselho, Lisboa, Aillaud & Bertrand, 1924