domingo, 2 de novembro de 2014

Forte de Peniche, 24 de Dezembro de 1963: António Dias Lourenço ao filho Tónio

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«Trago aqui muitos beijinhos do pai para o Tóino!»





António Dias Lourenço, Saudades... Não Têm Conto! --Cartas da Prisão para o Meu Filho Tóino, Lisboa, Editorial Avante!, 2004.

Nota - Este cartão de Natal, executado pelo próprio, é a primeira missiva enviada pelo dirigente comunista António Dias Lourenço -- membro do Comité Central do PCP, em segunda prisão desde o ano anterior --, ao seu filho Tóino (ou Tonoc), então apenas com três anos.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Lisboa, 29 de Junho de 1884: Cesário Verde a Mariano Pina



Mariano Pina, meu caro Director


    A sua «Ilustração» impressa neste tumultuoso Paris, em grande formato, composta por tipógrafos franceses que devem achar muito drôle a abundância do «til» e a falta do «acento grave», anunciada com réclames estonteantes e um taraze ensurdecedor nesta pacífica Lisboa tão morna e tão dorminhoca, a sua «Ilustração» duma tiragem muitíssimo reparável, fez-me nascer o desejo de lhe oferecer a Você a minha colaboração. Conquanto V. não me enviasse o seu cartão de convite, o meu ideal de luxo e a minha pretensão de ver os meus versos numa elegante toilette parisiense, instigam-me a recomendar-lhe um pequeno poema que fiz com todo o esmero de que sou capaz, e cujas provas eu quereria ver pessoalmente no caso de ser publicado. Compõe-se de heróicos e alexandrinos, numas 130 quadras que no tipo miúdo (como é mais distinto e mais discreto para a poesia) encherão essas colunas de Hércules durante pouco mais de 2 páginas.

     Mas a direcção literária ou administrativa duma publicação como a sua tem dificuldades. Você tem de consultar os grossos apetites dos seus leitores e os fastios nevrálgicos das suas leitoras, e realmente eu não sei se o devia embaraçar com esta exigência.

      Em todo o caso sempre lhe direi que é um trabalho réussi, correcto, honesto e dum sentimento simples e bom. Chama-se «Nós», e é talvez a minha produção última, final. Trato de mim, dos meus, descrevo a propriedade no campo em que nos criámos, a fartura na vida de província, as alegrias do labor de todos os dias, as mortes que tem havido na nossa família e enfim os contratempos da existência. Para animar tudo isso, para dar a tudo isso a vibração vital, eu empreguei todo o colorido, todo o pitoresco, todo o amor que senti, que me foi possível acumular.

     Ora como esta obra começa com a descrição da Febre-amarela e do Cholera-morbus quando nós fugimos em crianças, lá para fora, e depois continua com as descrições do nosso verão adusto e forte; e como nós agora estamos com a ameaça da epidemia e Julho e Agosto vão começar, eu pretendia que estas coincidências convergissem, publicando imediatamente.

     É uma paixão pela arte que me faz pensar assim, não julgue V. crueldade. A famosa ciência de Pasteur e dos outros há-de atalhar o mal e o pavor será a maior dor que se sentirá.

     Outra coisa: Sabe V. que tenho saudades desse aborrecido mês que vivi em Paris tão contrariado e esmagado, e que hoje fiz volte-face, e agora digo constantemente bem dessa França, desses Franceses e dessas Francesas, como um doido ou um apaixonado?

     Bem, escreva-me Você sem demora com a sua decisão.

     Seu confrade amigo e obrigado

Cesário Verde


Rua dos Fanqueiros, 2 -- Lisboa

in Elza Miné, Mariano Pina, a Gazeta de Notícias e A Ilustração: Histórias de Bastidores Contadas por Seu Espólio, separata da Revista da Biblioteca Nacional, s.2, vol. 7 (2), Lisboa, 1992. 

Nota - Do sentido da oportunidade. (Pina era director da Ilustração, que se
publicava em Paris.) Carta emocionante do enorme e pobre Cesário (1855-1886) sobre um dos seus grandes poemas. Emocionante, porque vê-loouvi-lo falar da sua obra resgatada por Silva Pinto à dispersão, é, de algum modo, trazê-lo de além-túmulo ao nosso convívio. Bendito Mariano Pina, autor menor, porém influente da universo literário português de oitocentos.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Santa Eufémia, Córdova, 14 de Setembro de 1870: Oliveira Martins a António Enes


S.ta Eufémia, 14 de Setembro de 1870


Meu caro Enes

Há muito devia ter-te escrito, mas muito trabalho primeiro, minha mulher doente depois, e por fim 10 dias de sezões, tiraram-me o lugar. Parece-me que não há que dizer.
Agora de mim vou bem, e com a aproximação do inverno tudo melhora. Os campos viçam, rebenta a água por toda a parte. A água! a água é a grande animadora nestas regiões torradas de sol durante uns poucos de meses. Isto é uma serra, e nisto digo tudo. Sinto uma liberdade ampla de acção e de pensamento. Acho que vou dar em caçador. Há gamos, perdizes e javardos por estes montes. Folgo de ter vindo aqui: oxalá eu assim pudesse ter comigo quantos desejara!
Sou uma espécie de rei, entre os 300 ou 400 mineiros: foram-se todas as veleidades republicanas... aqui.
Escreve-me, adeus meu caro amigo.
Crê-me teu am.º verd.º

J. P. Oliveira Martins

Correspondência de J. P. Oliveira Martins, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1926
editor: Francisco d'Assis Oliveira Martins


Nota - ...ou o desterro como factor de higiene mental.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Lisboa, 19 de Setembro de 1922: Ferreira de Castro a Roberto Nobre




Roberto Nobre, meu prezado amigo

     Recebi a sua carta, carta amável, generosa.
     Como já o Assis lhe disse, gostei mtº, mtº, da capa. É um trabalho feito com garra: -- mesmo sem alusão às garras do tigre...
     E porque falei na capa, agradeço-lhe a oferta: -- oferta que eu desejo seja apenas uma moratória aos problemáticos fundos da empresa...     
Se você num momento de melancolia tiver desejo de escrever, escreva-me sobre o Algarve, as suas praias, os seus caminhos. Eu amo tanto a província que vivo nela por imaginação, vivo-a por impressões alheias, quando, como agora, não a posso viver por impressões próprias.
     Telefonei neste momento ao Assis, para saber se ele desejava transmitir-lhe qualquer coisa. Tinha ido almoçar. Paciência. Sei, porém, que brevemente ele lhe enviará ou as provas ou o original da novela. Sei, também, que ele, como eu, está-lhe grato por suas gentilezas.
     Abrace, Rob.º Nobre, o seu amigo dedicado

JM Ferr de Castro

Lisboa 19/9/922

P.S. Propositadamente deixo para o Post Scriptum o assunto do Lab.º Ainda não foi possível arrecadar-lhe aquelesmíseros 50$00. Eu não me descuido. Não é por si: -- é por mim... Abraços do Frias. JMF
Bis-P.S. -- Se você vir o Dias Sancho diga-lhe que [com] respeito à matéria da sua última carta estamos quase  de acordo. Que a carta era mtº interessante.
Abusando dos pedidos, o Frias diz-me aqui ao lado, que você deve puxar as orelhas ao Lyster, filho, porque até hoje ele ainda não lhe escreveu. Isto se você o encontrar, é lógico...
JMF


Ferreira de Castro / Roberto Nobre, Correspondência (1922-1969), Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, 1994
editor: Ricardo António Alves

Nota - O início duma amizade, grande e longa, e a manifestação do estro paisagista, que em Ferreira de Castro era agudo, como se lê nos seus livros. Castro com 24 anos, Nobre 19, ambos sem vintém, mas o segundo ainda no aconchego familiar. O tema é a capa de Carne Faminta, noveleta a sair -- a primeira de muitas capas da autoria do jovem artista --, e O Rebanho, de Assis Esperança, idem.

quarta-feira, 13 de março de 2013

Lisboa, 30 de Novembro de 1936: Alexandre Cabral a Ferreira de Castro

José dos Santos Cabral
Pseudónimo literário
(Z. Larbak)
R. do Machadinho, 3-2.º
LISBOA


Lisboa, 30 de Novembro de 1936

Exmº. Sr. Ferreira de Castro
Lisboa

     Junto a esta envio a V. Ex.ª um exemplar de "Ecos do Alcôa", onde abri uma secção "Perfis Literários", focando nela o primórdio valor da nossa literatura contemporânea: "Ferreira de Castro, o egrégio romancista."      
     Não tem esta por fim dirigir a V. Ex.ª palavras aduladoras que o v/ espírito consistente e desempoeirado rejeita, nem tão-pouco patentear-lhe novamente a minha admiração pelo vosso talento, que no citado artiguelho em tosca prosa prolixa ficou bem impressa.
     Algumas palavras quis escrever a acompanhar o exemplar junto, palavras dum jovem que tem tentado, proveitosamente, por todos os meios a cultura do seu espírito.
     E elas aí ficam encimando os protestos reiterados de amouco fervoroso pelo seu ídolo dilecto [.]
     Desejando a V. Ex.ª
Fraternidade & Literatura

Sou a subscrever-me

J. Santos Cabral

Cartas de Alexandre Cabral para Ferreira de Castro, separata de Vária Escrita #6, Sintra, Câmara Municipal, 1999.
editor: Ricardo António Alves

Nota - Um Alexandre Cabral de dezanove, enviando um artigo de fervor juvenil ao seu ídolo literário e novo correspondente. Cabral viria a ser não só o camiliano que todos reconhecem, como um castriano digno de nota, inclusive um dos seus executores testamentários.

terça-feira, 12 de março de 2013

20 de Junho de 1924: Jaime Brasil a Ferreira de Castro e Eduardo Frias

Meus caros Ferreira de Castro e Eduardo Frias:

Recebi o vosso livro. Muito obrigado por vos terdes lembrado de mim. A mim, q. tão afastado ando dos cenáculos literários e q. nas galés do jornalismo sou o último dos últimos, sensibilizou-me a vossa gentil manifestação de camaradagem espiritual. E porque entendo bem o altivo grito de angústia, erguido nas primeiras páginas do livro, aqui vos dou, irmãmente, o abraço q. traduz a minha admiração pelo vosso talento e a minha solidariedade nessa nobre revolta, contra o existente, o convencional, o medíocre.

cordialmente vosso
Jaime Brasil
6ª. Feira-20-Junho [1924]»



Cartas a Ferreira de Castro, Sintra, Câmara Municipal e Rede Portuguesa de Museus, 2006.
editor: Ricardo António Alves


Nota - Agradecendo A Boca da Esfinge, romance a quatro mãos, num tom muito característico. mesclado de camaradagem leal e amarga misantropia.