segunda-feira, 27 de junho de 2016

7 de Janeiro de 1946: Augusto Casimiro a Maia Alcoforado

Meu caro Camarada e Amigo:


Tenho aqui o seu cartão de boas-festas e o seu artigo Dum Natal que já vai longe.
Os seus votos retribuo-os com amigos votos, pela sua saúde, pelas Vitórias que andamos preparando, pelo Natal que já vem perto...
O que significa para a minha alma o seu artigo, por lembrar Nuno Cruz, -- adivinhá-lo-á se lhe disser que o conhecia desde Coimbra, -- foi meu soldado; e desde a Flandres, -- foi meu camarada, -- e heróico. Desde o primeiro momento, -- ia a dizer instante, -- em que o seu nobre espírito, o seu carácter admirável, as suas palavras, precedendo actos belos, se voltaram, fiéis à Pátria, para novas lutas, travadas aqui e no exílio, com igual fidalguia, até à hora de morrer.
O grande Camarada da Flandres, voltou a ser companheiro, e com que exemplar mestria, desde aquele dia (6 ou 7 de Novembro de 1926) -- em que descemos os dois a Lisboa. E com que lealdade e nobreza diante do próprio adversário!
Tive-o muitas vezes, sereno e apostólico foragido, no regaço da minha casa, acarinhado pelos meus.
Conheci-lhe, ainda melhor, o talento e o carácter; -- muitas vezes lhe disse:
-- «Se tudo isto, passando, nos deixar quatro ou cinco homens como você, -- ganharemos a Vitória do Futuro!... [»]
-- Ele pertence ao número daqueles de quem não digo, -- admiro, -- porque os amo.
E o amor é a forma superlativa da admiração.
Num livro que fecharei nas doces vésperas da minha morte Um Homem Lembra-se... -- este Nuno Cruz há-de ficar, espero, como uma das presenças mais vivas e queridas. Não era deste tempo. Aquela rija têmpera, aquela espiritual clareza, aquele amorável feitio...
O seu artigo, para lá do mérito literário com que o meu amigo exprime a sua emoção e solene civismo, -- tem para mim o valor de ser uma prece erguida diante dum altar que venero. Junto a minha à sua prece.
Nesse Natal, longe, longe, onde estava eu? Talvez em Angola, -- ou deportado em Cabo Verde, que por lá vivi de 1931 a 1935.
Felizes os que podem, do coração, puro perante a Pátria, viver a saudade de Natais assim.
Bem haja por tudo! -- pela sua generosa simpatia, pelas sua pródigas lembranças.
Lembre-me às dunas, ao vento, às ondas de Mira, -- e aos que se lembrarem por aí de mim.
De novo um grande Ano, que seja limiar de grandes e generosas tarefas.

Seu
Augusto Casimiro

S/C 7 de Janeiro de 1946

in Maia Alcoforado, Paisagem do Dia Ausente, Porto, Edições AOV, 1947
.


Nota - Uma carta muito sentida de Augusto Casimiro, excelente poeta, homem de A Águia, figura marcante da vida cívica e culrural portuguesa, o segundo director da Seara Nova. Casimiro, combatente na Flandres, como o destinatário desta missiva, Maia Alcoforado, e o homem que a motivou, Nuno Cruz, camarada de armas na Grande Guerra de 14-18, e também naquilo a que ficou conhecido como o 'reviralho' -- a oposição democrática e republicana à Ditadura Militar e ao Estado Novo que ela originou.
As "Vitórias" e o "Natal que já vem perto" são o almejado fim do regime salazarista, que a Oposição perspectivava com a recente vitória dos Aliados na II Guerra Mundial -- fim, que, como sabemos, ainda levaria quase trinta anos.


segunda-feira, 20 de junho de 2016

Montpellier, 25 de Novembro de 1934: Vitorino Nemésio a José Régio

Montpellier
(Collège des Écossais,
Plan des Quatre Seigneurs),

25 de Novb.º 1934.


Meu caro José Régio



Deixe-me exprimir-lhe antes de mais, antes da crítica e de tudo a minha admiração, surpresa, encanto, entusiasmo, fé (e que mais?) pela leitura do seu livro. Vou apenas a págs. 258, mas já fui agarrado, senão rigorosamente desde o princípio, desde bastante no começo. Assim é que estou faltando ao planos que traçara: ler o seu livro apenas em viagem, e até onde chegasse a viagem. E é curioso que isto se tenha dado quando uma das coisas que terei a dizer-lhe é que o seu livro não é romance senão por alguns aspectos. Mas veja já, veja imediatamente como a intrusão da crítica numa impressão sincera e complexa é uma coisa limitante, além de poder ser uma espécie de pedrada... Não; o seu livro é uma fortíssima e extraordinária coisa. Extraordinária para nós portugueses; comum talvez só para uma das duas estreitas dúzias de escritores do mundo. E de novo lhe estraguei o que lhe digo com esta inclinação aldeã de colocar a «música» da terra num plano de «música» de outras terras! Nacionalismo, meu caro José Régio, e vícios de uma fácil «Literatura Comparativa», -- manhas de professor... A verdade é que eu queria passar-lhe para aqui, quase sem meditação (e sobretudo sem premeditação) a porção de coisas que estão a flutuar cá dentro e que me vêm jogadas do seu livro: a poesia extraordinária que nele pulsa; a prosa corrente e ao mesmo tempo rara com que é feito -- rigorosa e ondulante, toda afinada pelo timbre português sem perder nada do tom pessoal de quem a escreve e da cadência a ideias e sensações de toda a parte. Nem quero calcular, organizar esta comunicação do que sinto, e é bem triste afinal que as correntes que nos atravessam tenha a necessidade de fios!
Há páginas em que V. atinge a luminosidade de toda a expressão que conseguiu libertar-se dos seus meios ou da consciência deles para chegar à terrível ou inefável nudez do inexprimido -- e lembro esta página a que já cheguei hoje, 26, dia em que continuo esta carta (p. 323). Aí V. justifica involuntariamente, com naturalidade genial, a escolha do Discours de la Méthode p.ª título das duas Mem.as de Jaime Franco, quando é levado a suspeitar da inutilidade do seu «relatório» e da sua possível gaguez em face da «força de sistematização e propriedade da linguagem dos filósofos e dos sábios». Divina gaguez essa que «tritura» (um verbo de V.) as mil e uma contradições do suceder íntimo e do pensamento dele, multiplicado e reproduzido até à saciedade e à dor, recaído depois em novas fornalhas do «monstro» e outra vez levado ao tenso fulgor da reflexão.
Paro por aqui, por que me apeteceria não acabar. Não toco nos motivos porque o seu livro não é inteiramente romance. V. conhece-os. O seu livro, aliás, não sendo romance, é muito mais. E não sei porque me surge como uma dessas mensagens de cumieira: umas Confissões de St.º Agostinho, ou assim. De censurável (e até de fastidioso) só certas páginas em que Serra contracena com os rapazes do Grupo e não se sabe porque motivo -- social e lógico motivo -- se zangam, formalizam, melindram ou amuam. Confesso que aí cheguei muitas vezes a enfadar-me e a amarrotar as páginas, furioso consigo... Mas saio do Jogo da Cabra Cega com uma impressão decididamente forte, muitas vezes empolgada, -- e (deixe-me dizer-lhe) com uma sensação de pequenez minha, da mediocridade dos meus meios, que oxalá o seu exemplo, tornado estímulo, ajude a transformar nalguma coisa de melhor. Um grande abraço do
Nemésio.


Publicada pelo grande regiano que é Eugénio Lisboa, num livro de ensaios que é, também ele, um extraordinário testemunho de agudeza crítica, O Objecto Celebrado, Coimbra, Por Ordem da Universidade, 1999.


Nota - Carta empolgante de Nemésio, com mais de meio livro lido, esse inovador Jogo da Cabra Cega, de Régio, acabado de publicar, e cujo destino seria o da apreensão. Empolgante, nem tanto pelo entusiasmo, contido por vezes, de Nemésio, mas pelo espectáculo que dá do scholar em acção judicativa -- esse mesmo que dez anos mais tarde faria aparecer um dos maiores livros da nossa literatura, Mau Tempo no Canal

quarta-feira, 8 de junho de 2016

16 de Maio de 1906: D. Carlos I a João Franco

I noute.
16 -- 5 -- 906
Meu querido João Franco

Tendo o Presidente do Conselho, Cons.º Hintze Ribeiro, acabado neste momento, por carta que acabo de receber e por motivos... que de viva voz te exporei, de depor nas minhas mãos a demissão do Ministério, e desejando eu que neste momento te encarregues da formação do novo ministério, desejo que aqui venhas falar-me, logo possas, e quanto mais cedo melhor.
Há muito a fazer e temos, para bem do País, que seguir por caminho diferente daquelle trilhado até hoje; para isso conto contigo e com a tua lealdade e dedicação, como tu podes contar com o meu auxilio e com toda a força que te devo dar.
Sempre teu
Amigo verdadeiro
Carlos R.


Cartas d'El-Rei D. Carlos I a João Franco Castello-Branco Seu Ultimo Presidente do Conselho
Lisboa, Aillaud & Bertrand, 1924.

Nota - Deve ter feito algum furor, em 1924, quando João Franco, um dos homens políticos mais odiados da História do Portugal contemporâneo, resolveu publicar e comentar as cartas que D. Carlos lhe enviara, desde o convite para formar gabinete, pelo impasse criado pelos partidos tradicionais, fautores do fim da monarquia portuguesa, que em breve eclodiria. Independentemente das intenções e autojustificações, o que interessa é o conjunto de cartas que revelam um rei que pouco tem que ver com o boneco, entre o pândego e torpe, que o republicanismo panfletário dele quis fazer.

terça-feira, 31 de maio de 2016

Espinho, 12 de Março de 1905: Manuel Laranjeira a João de Barros



Ex.mo Sr. João de Barros:




Um número da sua revista, que me chega agora à mão, veio bruscamente lembrar-me que lhe sou devedor de tanta coisa prometida! e devedor que se está comportando dum modo bem singular.
Peço-lhe que me creia: eu não tive o mais leve intuito em desconsiderá-lo com o meu silêncio e nem sequer tive o intuito a furtar-me a pagar-lhe o que lhe prometi e devo. Isto em mim agora não é alijar uma responsabilidade de mau pagador: é a verdade. Se me conhecesse intimamente estou certo que V. Exª. não só explicaria e perdoaria o meu silêncio amigo (numa significação bem diferente duma cursilería que para aí se chama amizade). Todos nós temos, dormitando no fundo do nosso ser, o nosso demónio (até Antero e Sócrates, que foram integrais como deuses, tinham cada um o seu) a que a psiquiatria de agora chama insultuosamente neurastenia, nevrose, psicastenia... -- e que sei eu? Quando um demónio desperta e reivindica os seus direitos ferocíssimos (ferocíssimos para o nosso pobre ser que tem de sofrê-los) nós esquecemo-nos de tudo -- até de pagar o que devemos. Exponho-lhe estas coisas íntimas e lastimosas, porque estou certo de que me dirijo a um espírito capaz de as compreender. Doutro modo, se, em vez de tratar de si, se tratasse duma criatura vulgar como a abjecção da vida, creia: eu prolongaria indefinidamente o meu silêncio... -- et je m'en foutrais.
Eu desejava dizer-lhe muitas coisas sobre a sua magnífica plaquette dramática (dramática, não; lírica, bela e intensamente lírica); mas teria de ser longo e maçador. Sendo-lhe a si (devendo ser-lhe!) demais a mais indiferente a minha opinião sobre o valor artístico dela. De resto, uma opinião, boa ou má, seja de quem for, sobre uma obra de arte, não a desnivelará uma linha sequer do lugar justo que o seu valor real lhe marcou. Ninguém, nem Deus (refiro-me a Deus num sentido metafórico!), seria capaz de anular um átomo ao valor da obra shakespeariana, ou de pôr um átomo de génio nos medíocres furtos do Sr. J. D. Uma obra é o que é -- diga-se dela o que se disser. A crítica é apenas um comentário que traduz uma impressão ou uma análise: pode explicar a obra de arte, mas nunca validá-la ou invalidá-la. Nestes termos, a crítica, para o autor da obra de arte, não é lisonjeira, nem agressiva: é indiferente (deve sê-lo!). Por isso não estou a massacrá-lo com a minha admiração.
E quando solverei eu a grande dívida de enviar-lhe o artigo prometido?
Quando o meu demónio deixar.

Espinho, 12 de Março de 1905.
Criado sem préstimo
M.to Ob.do e Admirador

Manuel Laranjeira






Cartas (edição de Ramiro Mourão, 1943)

Nota - Carta extraordinária de um espírito brilhante e torturado. Por um lado, pela forma como se expõe a João de Barros na sua assustadora (sabêmo-lo suicida) vulnerabilidade; por outro, no seu agudíssimo conceito sobre a recepção literária e as suas óbvias fragilidades. A revista referida é Arte e Vida, dirigida pelo destinatário; "J. D." -- trata-se, evidentemente, de Júlio Dantas.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

S. Miguel de Seide, 17 de Abril de 1870: Camilo Castelo Branco a destinatário não-identificado

Ex.mo Snr.

Se vê que a minha carta não tem muito descuidos gramaticais, pode publicá-la. Não me lembro se há lá coisa que moleste o próximo; se vê que há trace. V. Ex.ª não deve ignorar que eu acato o próximo e só por descuido lhe tenho assacado aleives que me trazem assaz penitenciado.
Agradeço-lhe a estimação que dá ao futilíssimo livro dos Brilhantes do Brasileiro. Parece-me que só tem uma dúzia de paginas sofríeis, são as últimas que me saíram da alma com lágrimas. As outras são pura chalaça -- o espírito português, único a meu ver, que pode sair das nossas oficinas de caricaturista.
A nossa sociedade não dá para mais. Se tirarem a Portugal, o brasileiro e ao Jardim das Plantas, de Paris, os ursos, não há aí que ver. (Esta carta faça-me o favor de a não publicar. Isto entre nós é maledicência muito à puridade).
Dê-me as suas ordens.
De V. Ex.ª
adm.or afectivo e ob.do

Camilo Castelo Branco
S. M. de Seide, 17 de Abril 70.






Publicada por António Cabral, camiliano e queirosiano de mérito (pertence-lhe a primeira biografia de Eça de Queirós publicada em Portugal, datada de 1916), em Homens e Episódios Inolvidáveis (1947).

Nota -  Carta cujo destinatário não está identificado, muito divertida, pelos conceitos de autoapreciação de Camilo e pela forma desprendida com que se refere à narrativa publicada no ano anterior.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Rio de Janeiro, 10 de Setembro de 1934: Jorge Amado a Ferreira de Castro

Rio de Janeiro, 10 de Setembro de 1934.


Meu caro Ferreira de Castro.

Acabo de voltar ao Rio e encontrei na Ariel a sua última carta. Agradeço os seus conceitos sobre Cacau Suor.
Venho de passar quatro meses na Baía, recolhendo um resto de material para um romance sobre negros. Chamar-se-á Jubiabá, nome de um macumbeiro de lá e espero fazer um livro forte, fixando nas duas primeiras partes -- Baía de Todos os Santos e --Grande Circo Internacional -- todo o pitoresco do negro baiano -- música, religião, candomblé e macumba, farras, canções, conceitos, carnaval místico -- e toda a paradoxal alma do negro -- raça liberta, raça das grandes gargalhadas, das grandes mentiras e raça ainda escrava do branco, fiel como cão, trazendo nas costas e na alma as marcas do chicote do Sinhó Branco. A terceira parte --A greve -- será a visão da libertação integral do negro pela sua proletarização integral. Que acha v. do plano?
Lhe envio um Boletim de Ariel onde falo em V. Aliás a nota está besta. Mas vale a intenção. V. recebeu meu artigo sobre Terra Fria? Acuse o recebimento.
Mande dizer o que v. está fazendo. Qual o livro que o preocupa no momento? V. tem um grande público aqui no Brasil. Aliás porque v. não envia pro Ariel uma nota sobre a nova literatura de Portugal? Aqui há um certo movimento intelectual que está fazendo alguma coisa. O público nos apoia intensamente. Compra nossos livros. A crítica, é natural, se divide em descomposturas e elogios. Mande o artigo. Porque v. não aparece aqui de novo? Pelo que depreendo dos seus livros v. esteve por aqui em 24. Gostaria de ser seu cicerone numa viagem longa através do Brasil. Vendo as casas coloniais da Baía. Material que em suas mãos daria romances como A Selva.
Me escreva. Agora não saio do Rio tão cedo. O Lins do Rego está em Maceió onde reside. Mandei em carta suas lembranças para ele.
Abrace o seu amigo e admirador
Jorge Amado
Boletim de Ariel
R. Senador Dantas -- 40 -- 5.º
Rio.








Publicada por Ricardo António Alves, Anarquismo e Neo-Realismo -- Ferreira de Castro nas Encruzilhadas do Século (2002) e na 2.ª edição, refundida, de 100 Cartas a Ferreira de Castro (2006).

Nota - Grande documento, não apenas pela evidência do programa literário de Jorge Amado, como pelo que revela da influência que Ferreira de Castro tinha junto dos jovens escritores nordestinos brasileiros, cuja repercussão na geração neo-realista portuguesa é consabida. Castro e Amado começaram a
corresponder-se neste anos de 1934, mas só travariam conhecimento pessoal em 1948, em Paris, quando o autor brasileiro, então um activo militante comunista. teve de exilar-se. Essa amizade manteve-se e fortaleceu-se ao longo das décadas, tendo, por várias vezes e em diversas situações Jorge Amado evocado Ferreira de Castro, comovidamente. Das evidências dessa forte relação, basta lembrar que o o autor de A Selva é o autor português mais referido em Navegação de Cabotagem, as memórias de Jorge Amado.
Ferreira de Castro viria a ser um dos dedicatários de Jubiabá (1935), um dos romances mais marcantes de Amado.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Lisboa, 3 de Abril de 1936: Viana da Mota a Fernando Lopes-Graça


Lisboa 3 de Abril 1936

Meu caro Senhor Graça

O Prado demorou imenso tempo a entrega das suas composições, depois levou ainda bastante tempo a encontrar o Sassetti, por isso só hoje lhe venho participar o que consegui do Sassetti.
Está pronto a editar as suas Variações, pelo gosto de ter nas suas edições uma obra sua, mas diz que o retraimento crescente do público não lhe dá esperança de cobrir as despesas de impressão. E que para obras vocais ainda a venda é mais resumida do que para o piano. Apesar da obrigação que incluímos no Conservatório de se apresentar uma peça portuguesa nos cursos superiores de piano e de canto a venda é limitadíssima porque os alunos emprestam uns aos outros os exemplares.
Sei que este resultado não corresponde ao seu desejo, entretanto aconselho-o a aceitar a proposta do Sassetti, pois, embora as Variações não dêem, no seu entender, o aspecto exacto da sua personalidade actual, não fica por elas mal representado, visto serem m.º características e pessoais.
Infelizmente o Sassetti não pode, atendendo às despesas de impressão e pouca probabilidade de venda suficiente, oferecer-lhe nenhuma comissão.
Diga-me para onde quer que lhe mande as peças de canto e a Cena e dança.
Com os melhores cump.os
            seu ded.º
J. VIANNA DA MOTTA

Não vi ainda a sua nota sobre os Nocturnos. Pode dizer-me em que n.º do Diabo ela saiu? M.º lho agradeceria.

in Fernando Lopes-Graça, Opúsculos (3). 



Nota - Viana da Mota (1869-1948) fora professor de Lopes-Graça (1906-1994) no Conservatório. O tema em apreço é o seu Opus 1, o extraordinário Variações Sobre um Tema Popular Português (1927). Eloquentíssima carta sobra as dificuldades da edição de partituras. Pedro do Prado (1808-1990), compositor, que com Lopes-Graça, Armando José Fernandes e Jorge Croner de Vasconcelos integrou o «Grupo dos Quatro».

quarta-feira, 13 de abril de 2016

[Porto, 1884]: Eça de Queirós a Oliveira Martins

Meu querido Oliveira Martins

A minha sublevação intestinal tem resistido à repressão conservadora do Bismuto. Preciso por isso um desses sujeitos que no tempo de Molière, frequentavam a alta sociedade com uma seringa debaixo do braço, e que nós hoje chamamos um príncipe da ciência. Conheces tu algum bom -- tão bom que distinga realmente o intestino grosso da aorta? O que vem aqui regularmente ao hotel parece-me um mendigo da ignorância.
Se não estiveres em casa, ao receber desta, manda-me pelo correio, num bilhete postal, o nome e adresse do sábio, -- para que eu o mande chamar amanhã.
Excelente o Friedlaender!* Já tenho a minha estradinha romana, com a sua estalagem a sua tabuleta À Grande Cegonha, a sua inscrição convidativa invocando Apolo; e já tenho o aspecto da estrada, com as carroças de viagem, os arrieiros númidas, e os pajens favoritos com o rosto coberto duma máscara de miga seca de pão, para não sofrerem no acetinado da tez, com a humidade ou com o pó! Grande gente!
Manda o nome do sábio.
Teu do C
Queiroz



Correspondência, edição de Beatriz Berrini, Campinas, 1995.

Nota - Um perfeito exemplo do humour queirosiano, a propósito do crónico desarranjo intestinal, vírus provavelmente contraído em Cuba ou no Egipto e que tanto o moerá até à morte. sendo eventualmente a causa dela. (Creio que a doença que vitimou Eça ainda não terá sido desvendada.) Outro aspecto interessante é a menção ao livro do historiador alemão Ludwig Heinrich Friedländer, Quadros dos Costumes Romanos desde Augusto até à Época dos Antoninos (3 vols., 1862-1871), que certamente terá servido como bibliografia para A Relíquia.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Diu, 25 de Dezembro de 1546: D. João de Castro a seu filho D. Álvaro de Castro

D. Álvaro filho:



O filho del-Rei de Capem me deu uma carta vossa por que soube que estáveis de saúde, com que muito folguei, porque me tardavam já tanto novas de vós que não sabia a que o pusesse. E pois me Deus faz tanta mercê que vos dê saúde, rogo-vos muito que a saibais conservar e vos leixês estar comendo e bebendo e levando muito boa vida.
Dizês-me que vos importunam lá muito religiosos: não é maravilha, porque seu ofício é esse. Se vos muito apertarem, dai convosco em uma quinta com um par de bêbados e em chocarreiro que estê dizendo graças, e leixai-vos estar. Faço-vos saber que o bispo vosso amigo mandou agora cá o velhaco do vigairo a servir a sua vigairaria; e escreve-lhe uma carta que vos lá mostrará Rui Gonçalves das grandes virtudes que havia nelas, a qual eu tenho pera mandar a el-Rei nosso Senhor por grande jóia.
Olhai que cousa é tomar peitas e dádivas. Eu vos prometo que eu jogue um jogo ao bispo com que ele arrenegue e mande por Miguel Vaz vigário-geral e o tenha comigo e faça muitas cousas que el-Rei nosso Senhor manda. Quanto é ao negócio que me tocais em vossa carta, eu vos escreverei depois mais largamente sobre isso.
A benção de Deus e a minha vos envio de Diu, a xxb de Dezembro de 1546.

D. João de Castro

Publicada primeiramente por Elaine Sanceau, cartas de D. João de Castro (1955), foi recolhida por Andrée Rocha nA Epistolografia em Portugal.


Nota - Apesar dos contornos pouco nítidos da carta, pelo menos para um não-especialista na figura e/ou período, os sentimentos de preocupação paternal -- até porque perdera já um filho em campanha militar -- e a cumplicidade maliciosa na estúrdia são suficientemente atemporais para que não leiamos esta missiva regalados pela verdade que encerra.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Lisboa, 10 de Fevereiro de 1926: Reinaldo Ferreira (Repórter X a Ferreira de Castro

ABC 

REVISTA PORTUGUEZA
RUA DO ALECRIM, 65
LISBOA


Lisboa 10 de Fevereiro de 1926.

Meu Caro Ferreira de Castro

sabes o que certa bela camaradagem urdiu, embora sem ousar fincar dente, porque lhes faltam os queixais da verdade -- sobre a minha viagem à Rússia. Estou ensopando uma esponja nas provas e documentos para esfregar o rosto aos mal-intencionados. Para isso falta-me o teu testemunho.
Toda a gente sabe que a polícia de Espanha é das melhores informadas do mundo. A sua espionagem muito se assemelha à de Guepeau, de Moscow. Ela seguiu esta minha viagem. Tu sabes tão bem como eu, porque tiveste uma desagradável ocasião para isso. Peço-te que por carta contes o que leste na ficha que mostraram no comissariado de Madrid.
Teu camarada que muito te estima e admira
Reinaldo Ferreira




100 Cartas a Ferreira de Castro (2.ª edição), Sintra 2006).
(editor: Ricardo António Alves)


Nota - Em 1925, a revista ABC publicava, em números sucessivos que se esgotavam e reimprimiam, uma reportagem do Repórter X à Rússia dos sovietes. Reinaldo era um repórter de mão cheia, ávido de furos de sensação. Muitos puseram em causa a veracidade desse trabalho, mas ninguém conseguiu provar que ele não esteve lá. 

Ainda hoje as opiniões se dividem. Eu, que devo ser das poucas pessoas que neste tempo a leu, inclino-me a dizer que sim, ele foi a essa Rússia, tão misteriosa quanto subversiva. Um dos
argumentos mais convincentes  é o do salvo-conduto que ele invocou ter-lhe sido dado por José Carlos Rates, então secretário-geral do PCP; e que se saiba, não foi por este desmentido. Sobre este facto, do detractores do Repórter X disseram nada.
Se apesar da verosimilhança dos depoimentos, das impressões, da iconografia, a reportagem foi uma fraude, o talento de Reinaldo Ferreira, era e foi enorme, pela cópia de informações, pelo interesse que conseguiu suscitar durante meses na opinião pública portuguesa.
Dos seus contemporâneos, Mário Domingues defendeu a veracidade da mesma, ao contrário de Roberto Nobre. Ferreira de Castro nunca se pronunciou, pelo menos directamente.
O episódio a que alude com a polícia espanhola foi o da detenção de Ferreira de Castro em Madrid, confundido com aquele, por usarem o mesmo apelido, pedindo-lhe que dê testemunho.