sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Amesterdão, 24 de Agosto de 1530: Damião de Góis a D. João III

Senhor:

     Per um correio que chegou a Anvers a 22 dias deste mês, recebi uma carta de V. A., na qual manda que somente se façam os panos dos doze meses, porque dos outros já não tem necessidade. Eu como lhe, Senhor, escrevo pola frota, recebidas suas cartas, logo mandei fazer assi os doze meses, como os doze panos grandes e reposteiros e coxins, e sobre tudo tenho dado quase cem escudos (?) de grossos de sinal, pelo que não será bem faisable se deixarem de fazer; eu creio que depois que V. A. os vir feitos folgará de nisso ter despeso dinheiro, porque os patrões per que se fazem eu os vi são muito bons. Pela frota mando as cousas que me V. A. mandou pedir, e assi uma folha que cá estava a iluminar, que é o começo do livro, e assim um dos livros iluminados. E o outro não vai por a escritura não ser ainda acabada, que a iluminura já a tenho em minha mão.
     De João Carlos tenho recebidos os quatrocentos cruzados que me per sua letra mandou, e assi recebi mais de Jorge Lopes pela conta dos trezentos mil-réis que me nele manda dar Luís Ribeiro, seu tesoureiro, outros quatrocentos cruzados de que lhe tenho dado três conhecimentos. Pela armada escrevo a V. A. como pera se acabar de fazer toda a tapeçaria haverá mister ainda de mil cruzados, além de tudo o que me cá manda dar, porque os quatrocentos cruzados de João Carlos se desprenderam quasi todos nas cousas per sua guarda-roupa, como verá per a conta que mando disso a Charles Anriques pela frota, e somente me ficam pera tudo os trezentos mil-réis. Nosso Senhor lhe acrescente os dias de vida em real estado. De Amsterdam, aos 24 dias de Agosto de Agosto de 1530.

Damião de Góis



in Andrée Rocha, A Epistolografia em Portugal, 2.ª ed., Lx, 1985

Nota - Dos encargos & apertos dum funcionário no estrangeiro. Com 28 anos, Damião de Góis, futuro cronista e guarda-mor da Torre do tombo, amigo de Erasmo e de Dürer, que o retratou, era secretário da feitoria portuguesa na Flandres.


quarta-feira, 8 de novembro de 2017

7 de Fevereiro de 1886: Camilo Castelo Branco a Tomás Mendes Norton

7/2/86

Exmº Amigo

     Parecem-me excelente e logicamente derivadas as suas conjecturas sobre a influência de Cardeal D. Jorge nas obras do seu mosteiro. pouco importa que ele haja morrido alguns anos antes da ornamentação interna do edifício.
     Noto que V. Exª esgaravata tudo que possa ter peso na balança das probabilidades. Ainda m'mo que não vingue levar a convicção aos que duvidam por um pirronismo sistemático, decerto nos dará um livro recheado de conhecim'tos da arte e da erudição histórica.
     Estou padecendo m'to, e escrevendo sempre, a ver se desequilibro as dores, concentrando o fluido nervoso na cabeça.

De V Exª.
Obrig'mo Amº

Camilo Castelo Branco

Nota - Dadas à estampa por um seu neto, Luís Norton, as cartas de Tomás Mendes Norton a Camilo versam sobre uma hipotética fantasia de o mosteiro medieval de Refojos do Lima dever o traço do seu restauro e as linhas de alguns azulejos respectivamente a Bramante e a Rafael, por intermediação do Cardeal Alpedrinha, D. Jorge da Costa, grande figura da Igreja Católica. Essa atribuição, contestada pelo organizador deste voluminho de uma dúzia de missivas de Camilo, não obteve acolhimento posterior, sendo atribuídas as ousadas propostas pelo descendente a um espírito peculiar composto por romantismo tornado obsessão, que levaria o proprietário à ruína, não se ocupando de qualquer outra coisa que não fosse a comprovação dessa sua teoria, publicando, em 1888, uma obra, vertida para o francês: Études sur les Oeuvres d'Art de Raphael Sanzio d'Urbino au Monastère de Refojos do Lima. A esta ideia, ao que parece mirabolante, dará Camilo, amigo do pai do correspondente, todo o lastro.

domingo, 5 de novembro de 2017

1972: Ferreira de Castro ao director do «Notícias de Chaves»


Senhor Director:

     Chamaram a minha atenção para um artigo publicado no «Notícias de Chaves», onde Aquilino Ribeiro e eu somos acusados de termos agredido, em romances nossos, o concelho de Montalegre.
     Creio que se trata de dois fortes equívocos. Que eu saiba, o grande Aquilino nunca escreveu livro algum sobre aquela região e, no meu romance «Terra Fria», pratiquei um acto de solidariedade humana com o povo de Barroso, então completamente abandonado ao seu destino. Uma solidariedade que me exigiu alguns sacrifícios, diga-se sobriamente de passagem.
     E assim me parece que só quem não souber ler ou não souber compreender a intencionalidade do que lê poderá tomar como agressão uma obra de profundo amor pelo nosso semelhante.
     Como este não é o caso do articulista*, penso que as suas palavras são consequência duma leitura apressada. De todas as maneiras, considero-as injustas e se ele tiver ainda alguma dúvida, que leia o prefácio da edição especial da «Terra Fria», publicada em 1966.
     Julgo, aliás, e outras pessoas julgam também, inclusive categorizados transmontanos,, que o meu romance, sobretudo por haver sido publicado com ilustrações em rodapés de «O Século», antes de sair em livros, contribuiu para algum progresso que se tenha dado desde essa época, numa terra de tão belos aspectos e num povo boníssimo, que bem mereciam melhor sorte e que os detentores do poder pareciam ignorar inteiramente.
     Com antecipados agradecimentos pela publicação desta carta, envio-lhe, sr. director, as minhas saudações corsiais.

Ferreira de Castro 





in Barroso da Fonte, Diálogo com Ferreira de Castro -- A Propósito do Romance Terra Fria, Braga, Editora Pax, 1973.

Nota - Parece que causou controvérsia a questão do adultério da protagonista de Terra Fria (1934) na então longínqua Padornelos. Ao contrário do que pode parecer, a paciência de Castro foi infinita, em face dos pundonores (provincianos) desgravados.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Espinho, 3 de Maio de 1903. Manuel Laranjeira a João de Barros

Ex.mº Sr. João de Barros:

     Só agora posso responder à sua segunda carta. Perdoe-me. Não foi por desmazelo meu. Razões de família apenas. Creia-me e perdoe-me.
     Deixe-me dizer-lhe: eu compreendo os íntimos motivos que o levaram a dar-me esclarecimentos sobre a tal carta. Bem que desnecessária para mim, que me prezo de nunca alicerçar opiniões sobre areia, essa explicação compreendo-a. Eu teria procedido igualmente, presumo.
     É que nós vamos atravessando tempos difíceis, em que cada um que preze a sua honestidade sente precisão de definir a sua atitude, para não ser confundido com as biltres trivialidades que para aí fervilham. Só as nulidades morais se não estimam -- ...ou estimam-se no seu valor real, que é nenhum. Eu teria feito o mesmo, repito. Porque V. Ex.ª não é meu amigo, como eu não sou de V. Ex.ª -- para que qualquer de nós tivesse uma fé desabalada na lealdade de carácter do outro. Nós conhecemo-nos apenas. Sabemos um do outro só aquilo que um outro amigo nos fez saber. Comigo, pelo menos, o facto dá-se assim. E apesar de as melhores informações que tivéssemos um do outro, apesar até de alguma simpatia que espontaneamente pudéssemos ter um pelo outro -- um resíduo de dúvida era permitido sempre, sem que nela houvesse ofensa. Por isso a sua carta não foi importuna. Antes foi....................... -- Mas não acha V. Ex.ª que não vale a pena estar a perder tempo com uma tão insignificante insignificância? Para mim, a tal carta não significou mais do que um espirituoso xeque-mate, espirituosamente dado na erudição vaidosamente paleográfica do meu amigo. Olhe: peço-lhe que faça como eu: não pense mais nela.
     E para findar: dá-me V. Ex.ª um sumo prazer em continuar a importunar-me.
     Pelo que me subscrevo de V. Ex.ª inútil criado

Espinho, 3 de Maio de 1903.

Manuel Laranjeira






Cartas de Manuel Laranjeira, Lisboa, Relógio d'Água, s.d.
editor: Ramiro Mourão (19439

Nota - Desconheço o motivo da carta (a edição é nula a este respeito), porém percebe-se a chã frontalidade de Laranjeira, essencial para prevenir futuros quiproquós, e nesse aspecto a limpidez da missiva é evidente.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

1924: António Sérgio a Castelo Branco Chaves


[1924]

Meu caro Amigo:

Pensando no caso, acho que é melhor que seja o meu Amigo quem escreva ao Sardinha. Peço-lhe que enuncie as seguintes verdades:
Primeira. Não quero, não quererei nunca atacar o Sardinha. Pretendo defender o o prestígio da secção crítica da «Lusitânia», que o Sardinha atacou, mandando para a revista um artigo que é um desmentido, de lés a lés, do meu artigo na «Lusitânia» sobre o Múrias. O Sardinha, se fosse discreto, publicava aquilo na «Nação Portuguesa».
(Aqui para nós, e só para nós: o facto é tanto mais estranhável quanto fui eu que concebi e fundei a «Lusitânia». O Afonso e o Sardinha entrariam para o elenco redactorial da revista porque o Afonso mo pediu. Para ver quanto o acto do Sardinha foi pouco generoso, suponha a hipótese de eu sair vencido na polémica. Eis um homem que entra a pedido numa revista criada por mim, para, uma vez lá, minar o prestígio literário de quem gentilmente o recebeu.) Em resumo: o atacante (sem nenhuma necessidade) é o Sardinha. Eu defendo-me, e vou fazê-lo no tom mais amável e amistoso.
Segunda. Não manifestei o desejo, por mim, que o artigo não fosse publicado. Não me obriguem ao ridículo de fazer notar ao Sardinha que não tenho medo da crítica dele. Pelo contrário. Logo disse que, pessoalmente, estimava a publicação do artigo. Para a unidade e prestígio da «Lusitânia», porém, e para evitar os cancans do respeitável público, achei melhor que o artigo do Sardinha fosse publicado na «Nação», e a minha resposta na «Seara». Evitar luta dentro da «Lusitânia». A «Lusitânia» deveria ser reservada para a expressão daquilo que nos é comum; a «Nação» e a «Seara» para a amistosa discussão das divergências. Este meu modo de ver obteve até hoje o assentimento de todas as pessoas que o conhecem, excepto... não sei se realmente há alguma excepção, porque ninguém até hoje, por palavras, mo contestou claramente, depois de eu o explicar com minúcia.
Ora aí está. Não sou inimigo de ninguém, não quero atacar ninguém. Defendo e tenho defendido Ideias que julgo verdadeiras e úteis a Portugal. Posso achar más certas ideias do Sardinha, ou do amigo do Sardinha, o Sr. Múrias, mas sendo e continuando a ser amigo do Sardinha e dos seus amigos. Tenho mostrado bem que não me importo de desagradar e cabe por isso dizer que tenho para com o Sardinha a melhor boa vontade deste mundo, sem que possam duvidar da minha franqueza. Não cuido precisar do Sardinha para coisa nenhuma, não cuido que a inimizade do Sardinha me possa prejudicar, pessoal e literariamente: sou portanto absolutamente sincero quando digo que quero ser amigo do Sardinha, que não tenho o menor desejo de o atacar ou de lhe causar o mais pequenino prejuízo no seu prestígio de historiador. E isto não é virtude; é o reconhecimento intelectual de que há espaço para toda a gente neste mundo, que enfim de contas nos encontramos todos com todos, e não só com os nossos contemporâneos, e que tanta razão tenho para temer que me faça sombra o Sardinha como que me faça sombra o Camões. De mais, não me considero homem de letras: sou um homem que, tendo meia dúzia de convicções, usa da letra redonda como o melhor meio de as divulgar entre os seus compatriotas. Ao próprio Fidelino, que me pretendeu insultar, não me seria, eu só desejo que se emende, e que passe a escrever com mais acerto. Ser inferior a um génio chamado Sardinha, ou chamado Fidelino, não me seria mais doloroso do que ser inferior a um génio chamado Espinosa ou chamado Platão. E por ser verdade o escrevi.
Et nunc et semper

A. Sérgio



Cartas de António Sérgio a Castelo Branco Chaves: 192541955
(edição de Luísa Ducla Soares)


Nota - Os homens da Seara Nova  e do Integralismo Lusitano, convergiram por vezes, em
publicações comuns, apesar da distância política. Esta carta é disso exemplo. Castelo Branco Chaves começou por ser integralista e monárquico, tendo participado na Revolta de Monsanto, em 1919. O primeiro livro, ensaio sobre Fialho de Almeida (1923) fora prefaciado por António Sardinha, que morrerá em 1925. Será um dos mais próximos colaboradores de António Sérgio.


segunda-feira, 30 de outubro de 2017

10 de Julho de 1849: Camilo Castelo Branco a José Barbosa e Silva

Ill.mº Amigo


O abraço, que se dignou transmitir-me, por via do nosso Carneiro, devo retribuir-lho, acompanhado destas quatro linhas fluentes e sem presunção, se tantas são bastantes para afiançar a V. S.ª o muito apreço em que tenho os seus favores.
Vai esse jovem enamorado mendigar-lhe as suas distracções: eu creio que lhe serão de grande proveito, e, porventura, de instrução, que ele parece desejar. Espero um dia para cumprir uma promessa. Os banhos de mar, que a Medicina empiricamente me aconselha, estorvam-me o maior número de outras ocupações: -- verdade é, que das mais gratas ao coração, já tenho cedido a beneplácito de uma espécie de sezão moral que me apoquenta.
Agradeço o empréstimo do livro.


Disponha do
De V. S.ª amigo verdadeiro
Camilo Castelo Branco

10 de Julho de 1849

Correspondência de Camilo Castelo Branco com os Irmãos Barbosa e Silva, vol. I, Lisboa, Livros Horizonte, 1984.
editor: Alexandre Cabral

Nota - Radicado em Viana do Castelo, José Barbosa e Silva, tal como o resto da família, foi um amigo dilecto de Camilo: amigo, confidente e auxiliador em momentos de aperto, como revelou o incansável Alexandre Cabral. Em baixo, uma carta inicial, ainda distante do aprofundamento dessa amizade. 

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Pará, 6 de Dezembro de 1655: o Padre António Vieira a D. João IV


 Senhor:

     Com esta remeto a Vossa Majestade a relação do que se tem obrado na execução da lei de Vossa Majestade sobre a liberdade dos índios. Muitos ficam sentenciados ao cativeiro por prevalecer o número dos votos mais que o peso das razões. Vossa Majestade, sendo servido, as poderá mandar pesar em balanças mais fiéis que as deste Estado, onde tudo nadou sempre em sangue dos pobres índios, e ainda folgam de se afogar nele os que desejam tirar perigo aos demais. Contudo se puseram em liberdade muitos, cuja justiça por notória se escapou das unhas aos julgadores. Tudo o que neste particular, e nos demais se tem obrado a favor das cristandades, e em obediência da lei e regimento de Vossa Majestade, se deve ao governador André Vidal, que em recebendo as ordens de Vossa Majestade, se embarcou logo para esta capitania do Pará, a dar à execução muitas coisas, que sem a sua presença se não podiam conseguir. Se o braço eclesiástico ajudara ao secular, tudo se pusera facilmente em ordem e justiça; mas, como as cabeças das Religiões têm opiniões contrárias às que Vossa Majestade manda praticar, estão as consciências como dantes, e o que não nasce destas raízes dura só enquanto dura o temor. Já dizem que virá outro governador, e então tudo será como dantes era; e eu em parte assim o temo, porque todos os que cá costumaram vir até agora traziam os olhos só no interesse, e todos os interesses desta terra consistem só no sangue e suor dos índios.
     De André Vidal direi a Vossa Majestade o que me não atrevi atègora, por me não apressar; e, porque tenho conhecido tantos homens, sei que há mister muito tempo para se conhecer um homem. Tem Vossa Majestade mui poucos no seu reino que sejam como André Vidal; eu o conhecia pouco mais que de vista e fama: é tanto para tudo o demais, como para soldado: muito cristão, muito executivo, muito amigo da justiça e da razão, muito zeloso do serviço de Vossa Majestade, e observador das suas reais ordens, e sobretudo muito desinteressado, e que entende mui bem todas as matérias, posto que não fale em verso, que é falta que lhe achava certo ministro grande da corte de Vossa Majestade. Pelo que tem ajudado a estas cristandades lhe tenho obrigação; mas pelo que toca ao serviço de Vossa majestade (de que nem ainda cá me posso esquecer) digo a Vossa Majestade que está André Vidal perdido no Maranhão, e que não estivera a Índia perdida se Vossa Majestade lha entregara. Digo isto porque o digo neste papel, que não há-de passar das mãos de Vossa Majestade, e assim o espero do conhecimento que Vossa Majestade tem da verdade e desinteresse com que sempre falei a Vossa Majestade, e do real e católico zelo, com que Vossa Majestade deseja que em todos os reinos de Vossa Majestade se faça justiça e se adiante a fé. A muito alta e muito poderosa pessoa de Vossa Majestade guarde Deus como a Cristandade e os vassalos de Vossa Majestade havemos mister. Pará, 6 de Dezembro de 1655.
António Vieira




Cartas
(edição de Mário Gonçalves Viana)


Nota -  Missiva que faz jus à grandeza do Padre António Vieira, como homem, sacerdote, retórico e diplomata. Apóstolo dos índios, assim lhe chamam, não logrou, infelizmente, a mesma diligência relativamente aos escravos africanos. Referência a André Vidal de Negreiros (1606-1680), figura-chave do Brasil colonial.
Nota (10/XII/2017) A ler, no último JL-Jornal de Letras, Artes e Ideias, #1231,, 6-XII-2017, um pertinente artigo sobre a questão,  de José Eduardo Franco, Pedro Calafate e Ricardo Ventura, «Negros, ameríndios e a questão esclavagista em Vieira».

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Estocolmo, 30 de Julho de 1641: Cristina da Suécia a D. João IV

Nós Cristina por graça de Deos Rainha eleita, e Princeza herdeira dos Suecos, Godos e Vandalos: Grande Princeza de Finlândia, Duqueza de Ethonia, e de Carelia, Senhora de Ingria, &c. Ao Serenissimo Princepe, Irmaõ, parente e amigo nosso muito amado D. Joaõ, o quarto do nome, Rey de Portugal, dos Algarves, daquem e dalem mar em Africa, Senhor de Guiné, e das Conquistas, navegaçaõ, e Comercio em Ethiopia, Arabia, Persia, e India, &c. Saude, e prosperos sucessos.
Serenissimo Princepe, Irmaõ, parente, e amigo muito amado, o Embaixador do Conselho de V. Magestade, o Illustre, Magnifico, e generoso, de nós sinceramente amado, D. Francisco de Souza Coutinho, ha pouco, que chegou, pera nos manifestar alguns negocios, que lhe foraõ cometidos. Nós pello grande parentesco, e amizade, que por muito seculos ouve entre nossos predecessores gloriosissimos, os Reys de Suecia, e de Portugal, e entre huma, e outra naçaõ, conhecendo o divino beneficio da restituiçaõ feita a V. Magestade de seu hereditario Reyno, retido por alguns annos injustamente dos Reys de Castella, recebemos de boa vontade, o dito Embaixador, e delle ouvimos com muito gosto, o que pareceo a V. Magestade cometerlhe, assi pera nos declarar a rezaõ, e pera explicar o modo de restituiçaõ na dita Coroa, como também pera que acabada toda a antiga inimizade, por cuja culpa até agora esteve suspensa a amizade, e o comercio, se restituisse de ambas as partes, a sincera confiança, e firme amizade, e tornassem à antiga liberdade, o trato, e comercio antigo. [...] nós pella amizade restaurada, e pello trato do comercio restituido entre os subditos, e vassallos de huma, e outra naçaõ, avemos de fazer por amor de V. Magestade quanto nos for possivel por consolidar, e augmentar toda a boa correspondência. No maes com muito affecto encomendamos à divina protecçaõ a V. Magestade. Feita em nosso Paço Real Hocholmense, aos 30 de Julho de 1641.

Os Tutores, e Administradores da Sacra, e Real Magestade, e do Reyno de Suecia.

Petrus. Cõde em Jacobo de la Guardie Carolo Gylde 'hielm
Wissingsborg. R. S. Manichus. R. S. Ammirantins.

R. S. Drotzetus.

Aurelius Erenstierna
R. S. Cancelario

Gabriel Exenstiern. L. B. in
Marebij, & Lindholm
R. S. Thesaurario.

ILuís de Freitas Branco, D. João IV, Músico, Vila Viçosa, Fundação da Casa de Bragança, 1956.


Nota - Reconhecimento  da restauração da independência de Portugal, com troca de embaixadores, um dos muitos sucessos diplomáticos da Restauração, que teve em D. Francisco de Sousa Coutinho um dos principais protagonistas, em missões muito arriscadas. Basta lembrar que todos tinham a cabeça a prémio, e que a diplomacia e o poderio espanhol não estavam de braços cruzados. Cristina da Suécia, última representante da dinastia Vasa (abdicou na década seguinte, para converter-se formalmente ao catolicismo) seria especialmente sensível à luta de D. João IV,  uma vez que a sua casa fora forjada na luta contra o domínio dinamarquês, no século anterior).













terça-feira, 12 de julho de 2016

Cascais, 4 de Dezembro de 1941: Branquinho da Fonseca a Carlos Queirós

Rua Avelar, 1 - Cascais


Meu Caro Carlos Queirós

Retrato em que esteja só com o Régio, não encontrei. É verdade que tenho mais, mas não sei agora aonde. Verei se os encontro. Mas creio que em todas estaremos com outros amigos. Se não tiver muita pressa, em tendo as coisas mais arrumadas lhe direi.
Quanto à biobibliografia: nasci em Mortágua, no dia 4 de Maio de 1905, estudei em Lisboa os primeiros anos do liceu e o resto em Coimbra, onde me formei em direito (4 de Julho de 1930). Fui sócio fundador e director do Triptico e da Presença. Livros, tenho publicados os seguintes: Poemas (1926) -- Posição de Guerra (1928) -- Mar Coalhado (1931) -- Zonas (1932) -- Caminhos Magnéticos (1938) Teatro I (1940).
Está no prelo «O Barão» (novela); na forja «A Porta Férrea» (romance) e na gaveta: o «Vento de Longe» (poemas) e «Arredores do Mundo» (poemas em prosa).
Aqui tem tudo o que quer e mais alguma coisa, pois creio que só lhe interessa o que já foi publicado.

Disponha sempre
do seu amigo e admirador
Branquinho da Fonseca
Cascais
4-XII-41


Fac-símile publicado por David Mourão-Ferreira in Boletim Cultural, n.º1, Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas, Fundação Calouste Gulbenkian.

Nota - Em Janeiro do ano seguinte, Branquinho da Fonseca, um dos fundadores da mítica revista presença e também responsável pelo seu entusiasmante grafismo, tomaria posse do lugar de conservador  do então designado Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães, lugar que desempenhou com grande competência e brilho, ensaiando no concelho de Cascais o sistema das bibliotecas itinerantes, que, na década seguinte, já na Fundação Gulbenkian, espalharia por todo o país, configurando um dos grandes serviços jamais prestados à ilustração dos portugueses.
Desconheço a que fins se destinava esta carta dirigida ao "presencista lisboeta" Carlos Queirós. 
Já agora, uma nota pessoal: nascido em Mortágua, como se lê, Branquinho casar-se-ia com uma senhora de Cascais, por cá tendo ficado a residir, tendo falecido em casa, na Malveira da Serra, em 1974. Está enterrado no Cemitério da Guia, numa campa ao lado da dos meus bisavós.



terça-feira, 5 de julho de 2016

Lisboa, 26 de Abril de 1929: Ferreira de Castro a Jaime Franco



Meu ilustre camarada.


Muito e muito obrigado pela sua carta. É a primeira voz amiga que o Brasil me fez ouvir, depois da publicação dos meus «Emigrantes». Confesso que me magoou o que certos jornais daí escreveram sobre o meu livro, que pode não ter relevo literário, mas que é honesto e realizado à margem de sentimentos mesquinhos ou estreitos. E magooei-me, sobretudo, porque me atacaram sem ler o livro, excepto a «Notícia», do Rio, que, para encontrar matéria condenável... teve de falsificar os textos! Os outros periódicos, guiando-se pela «Notícia», tomaram a nuvem por Juno e vá de me acusarem sem terem visto o corpo de delito. A um deles -- «A Gazeta», de São Paulo -- ainda escrevi uma carta pondo as coisas nos seu lugar. Não sei se a publicou, se não. O que sei é que, tempos depois, mostraram-me um exemplar desse periódico, onde reincidia na acusação. Vi que estava de má fé e renunciei a escrever aos outros jornais que me atacavam. Por isso mesmo, a sua carta fraternal sensibilizou-me imenso. Se eu não fosse internacionalista, se eu tivesse preconceitos de raças, se eu não amasse o Brasil como a melhor recordação da minha adolescência, não me importunariam as calúnias que me atribuíram. Mas assim, não. Desgosta-me, sobretudo, a ideia de que as pessoas que aí me conheceram com sentimentos de fraternidade universal, possam supor que, dum instante para o outro, me tornei jacobino, patriota, adepto de todos os gestos comuns... Eu bato-me pela Humanidade, quer seja branca, preta ou amarela, europeia ou americana, asiática ou africana. Eu sou pelos humildes contra os poderosos, pelos explorados contra os exploradores, quer estes sejam portugueses ou brasileiros, espanhóis ou chineses. Para mim há uma questão social, não há uma questão de raças. Veja o meu ilustre camarada como o «Zé do Aido» que foi para os Estados Unidos, põe este país em pé de igualdade com o Brasil, onde esteve o «Manuel da Bouça». Porque descrevo o Brasil? Porque é o país americano que melhor conheço. E não revelo eu as manhas dos portugueses que traficam com a emigração? O que é o Nunes, agente de passagens e passaportes? Contudo, essas más interpretações deixam sempre alguma coisa desagradável no nosso espírito. Agora mesmo hesito em escrever sobre a selva amazonenese, onde estive cerca de quatro anos, e que tinha planeado há muito. Era a epopeia desse heróico e ingénuo cearense, a quem se deve o desbravamento da selva virgem, que, todavia, é lá explorado e escravizado por uns senhores que vivem nababescamente do trabalho desse sertanejo humilde. Mas encontro-me indeciso em realizar a obra, não vão supor os brasileiros que eu quero ferir-lhes o patriotismo. E mesmo que venha a escrever esse romance, já não estarei à vontade. E é lamentável que isto suceda, devido às más interpretações que alguns jornais do Brasil deram ao meu livro, sem o lerem! Por isso repito, você, que é uma excepção, comoveu-me enormemente. A última vez que estive em Santos, foi em 1919 e é natural, portanto, que me tenha esquecido de alguns pormenores. E se a paisagem do porto de Santos «desiludiu» os imigrantes, é porque a da Guanabara é mais imponente e teatral. Mas lá estão o meu entusiasmo e os meus fortes e quentes adjectivos para os panoramas que se vislumbram da Serra e do Mar, a compensar o seu justo bairrismo. E creia que tenho saudades daí, sobretudo das praias José Menino e Guarujá...


(a) Ferreira de Castro -- Lisboa, abril, 26, de 1929.


In Jaime Franco, Gente Lusa, Instituto D. Escolástica Rosa, Santos, 1945.


Nota - Carta muito significativa de Ferreira de Castro, na sequência dos ataques que os sectores nativistas brasileiros haviam desferido contra Emigrantes, romance publicado no ano anterior. Ataques, apesar de tudo, de menor dimensão do que os que sofreria A Selva (1930), por parte do "verdeamarelismo cretino", assim classificados por José Lins do Rego, um muito jovem escritor que, com Jorge Amado, Jorge de Lima e outros viriam à liça, em alguns casos de forma muito contundente, verberar o nacionalismo pateta dos plumitivos de serviço.