terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Almeida Garrett à Viscondessa da Luz

Terça-feira

     Que suprema felicidade foi hoje a minha, querida desta alma! Como tu estavas linda, terna, amante, encantadora! Nunca te vi assim, nunca me pareceste tão bela. Que deliciosa variedade há em ti, minha R. adorada! Possuir-te é gozar de um tesouro infinito, inesgotável. Juro-te que já não tenho mérito em te ser fiel, em te protestar e guardar esta lealdade exclusiva que te hei-de consagrar até o último instante da minha vida: não tenho mérito algum nisso. Depois de ti, toda a mulher é impossível para mim, que antes de ti não conheci nenhuma que me pudesse fixar.

     E o que eu te estimo e aprecio além disso! A ternura d'alma verdadeira que tenho por ti! Onde estavam no meu coração estes afectos que nunca senti, que tu só despertaste e que dão à minha alma um bem-estar tão suave! Realmente que te devo muito, que me fizeste melhor, outro do que nunca fui. O que sinto por ti é inexplicável. Bem me dizias tu que em te conhecendo te havia de adorar deveras. É certo, assim foi, e estou agora seguro deste amor, porque repousa em bases tão sólidas que já nada creio que o possa destruir. Deixaste-me hoje num estado de felicidade tal, com tanta serenidade no coração, que não creio em toda a minha vida que ainda tivesse um dia assim. A minha imaginação tão exaltada, tão difícil, nunca foi além das doces realidades que tu me fazes experimentar. Tinha desesperado de encontrar a mulher que Deus formara à minha semelhança -- achei-a em ti, e já não desejo a vida senão para a gozar contigo e para me arrepender a teus pés do mal que fiz, do tempo que perdi, do que te roubei da minha existência para o mal empregar nas misérias de que me tenho querido ocupar. Digo -- que me tenho querido, porque não conseguia nunca: o meu espírito rebelava-se, o meu coração ficava indiferente, e nunca foram de ninguém senão teus.

     Não penses que exagero: por Deus te juro que assim é, e que me podes crer: eu a ninguém amei, a ninguém hei-de amar senão a ti. A ti a virgindade do meu coração, que não puderam desflorar nunca nem os erros dos sentidos. nem as decepções do espírito, ou as ilusões da vaidade. -- E sou tão feliz em o conhecer que não imaginas: teria remorso verdadeiro se tivesse amado a alguém antes de ti; era uma quase infidelidade que me não podia perdoar.  
    
E sabes tu? não sei se me engano, mas creio que não: estou persuadido que o mesmo passou por ti, e que a tua passada ilusão não foi senão ilusão que passou, e que este é o teu verdadeiro primeiro amor, em que alma, sentidos, coração, estima, afecto e entusiasmo estão reunidos, porque sem estas coisas todas bem sabes que não pode haver amor real e verdadeiro. -- Sou secante com este tema, bem o conheço. Mas que queres? Não posso ter outro: estou completamente estúpido para tudo o mais: sou como um instrumento em que todas as cordas se quebraram menos uma -- e que já não dá mais que um som em qualquer parte e por qualquer modo que o firam.


 Sei que não receberás hoje esta carta, que não verei letras tuas tão-pouco, e amanhã passará todo o dia do mesmo modo. Paciência! Hoje tenho de que viver na doce recordação daquelas duas horas (bem escassas!) que me deste, e pelas quais -- quando mais não fosse, te abençoarei até o último instante da minha vida.

Adeus, adeus,
minha vida. Adeus.


Cartas de Amor à Viscondessa da Luz, edição de Sérgio Nazar David, 
Vila Nova de Famalicão, 


Nota - As cartas íntimas produzem sempre um certo mal-estar a quem as lê sem intenções voyeurísticas; é como apanhar o autor em trajes menores. Mas este é um caso em que a publicação mais do que se justifica, pela ligação não apenas com a vida mas com a obra do Garrett dos último anos. E a questão ética acaba por ser ultrapassada, pois é um lugar-comum, e verdadeiro, que os grandes autores deixam de se pertencer, e estão para lá da sua circunstância.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Portalegre, 22 de Agosto de 1907: Fernando Pessoa a Armando Teixeira Rebelo

     Hotel Brito, Portalegre


     22 de Agosto de 1907




     Venerável porção de existência terrena!



     Nuns poucos momentos de concatenada actividade mental, não desassistida dos fumos carnais da bebida alcoólica -- nada mais nada menos do que vinho -- não exclusivo a esta localidade, a minha alma sentiu, como um suspiro mental, a necessidade de dar expressão do seu presente estado e tendências a um cérebro amigável como o teu.


     Solitário e silente no meu transitório lugar de existência no hotel mencionado no cabeçalho desta explosiva epístola de uma sobrecarregada alma, sentindo em redor de mim um mundo moralmente frio e materialmente quente -- abaixo de zero quanto à minha alma e não longe dos 40 quanto ao meu corpo -- nestas circunstâncias angustiosas e inspiradoras veio até minha ideia de que talvez o processo desta composição epistolar possa ser subjectivamente conducente a um alívio do meu fardo terreno neste momento, possa ser o «bálsamo em Gilead» sonhado por Poe, para o meu espírito desgarrado.


     Daí esta carta.

     Portalegre é um lugar em que tudo quanto um forasteiro pode fazer é cansar-se de não fazer nada. As suas qualidades componentes parecem-me conter (depois de uma profunda análise), em quantidades relativas e incertas, calor, frio, semiespanholismo e nada. O vinho é bom (embora não daqui, creio), mas é decididamente alcoólico, especialmente quando a jarra de água está na outra extremidade da mesa e tu te esqueces (quer dizer, eu me esqueço) de o pedir. O estilo desta carta é disso uma prova decisiva. Farei dela registo para que uma tão brilhante produção do meus espírito não se perca no correio.


     A desmontagem e embalagem da tipografia está a levar um tempo danado -- poeticamente falando, é claro. Apesar disso, os homens têm trabalhado bastante depressa e tenho-os olhado e observado com a maior das energias.


     Acredito sinceramente que, se tivesse que aqui ficar um mês, teira de ir para Lisboa e depois para o Hotel Bombarda. Mal podes imaginar o hiperaborrecimento, o ultra-estafanço-de-tudo, a absoluta sensação de o-que-há-de-fazer-um-tipo num sítio destes, que reinam no meu espírito! Encontrei um livro para ler. Estou ansioso por voltar a Lisboa; penso contudo que ainda terei de ficar aqui mais três dia.

O Alentejo visto do comboio

                                                            Nada com nada em sua volta
                                                            E algumas árvores no meio,
                                                            Nenhuma das quais claramente verde,
                                                            Onde não há vista de rio ou de flor.
                                                            Se há um inferno, eu encontrei-o,
                                                            Pois se não está aqui, onde Diabo estará?

Passa bem, ó tu

F. Nogueira Pessoa



     P.S. -- Não me escrevas para Portalegre. Poderei já aqui não estar. Espera o meu regresso a Lisboa. Aí falaremos então.

Fernando Pessoa, Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas,
Mem Martins, Publicações Europa-América, 1986
(edição de António Quadros)

     Nota - Pessoa tem 19 anos, e acaba de morrer-lhe a avó Dionísia. Está em Portalegre, para, com a herança recebida, comprar uma máquina tipografia para a projectada editora Íbis.  Calcula-se o deserto. O humor é inexcedível, razão tem a sobrinha. Escrita originalmente em inglês, pois Teixeira Rebelo, seu colega na Faculdade de Letras, criara-se igualmente na África do sul. A versão portuguesa é de António Quadros.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Portalegre, Abril de 1939: José Régio a João Pedro de Andrade

Boavista, Portalegre
Abril de 1939
Prezado camarada:




     Desculpe-me esta demora. Não foi a leitura da suas peças que me tomou todo este tempo: Li-as logo que as recebi. Mas queria escrever-lhe devagar e longamente. Afinal... para quê? Além de que adio sempre demasiado as cartas que me proponho escrever como quem escreve um ensaio, -- o que tenho de principal a dizer-lhe é simples; e pode ser dito ao correr pena, conforme sair: Gostei muito das suas peças... e julgo não me ter enganado gostando. O que nas suas críticas me chamara a atenção não fora tanto a justeza ou a não justeza dos juízos (se alguns seus juízos me pareciam justíssimos, outros, tal o sobre o João Falco, pareciam-me injustos) como, sobretudo, um tom de quem diz as coisas sabendo o que diz, «com um saber de experiência feito». O João Pedro de Andrade afigurou-se-me um daqueles homens -- raros em Portugal -- que têm um conhecimento íntimo, profundo, pelo menos de certos aspectos da vida, e nesse conhecimento se estribam quando escrevem. Esses, são interessantes mesmo quando errem ou se enganem: As suas palavras podem não ter a sonoridade própria a certos talentos brilhantes e ocos... mas claro que é preferível, nesta coisa das letras, o som cheio, surdo, duma pancada num muro denso. Julgo eu que se não pode ser grande escritor sendo pequeno homem, e que é preciso ter coisas em si para poder interessar aos outros. Ora através dos seus artigos e críticas, o João Pedro de Andrade parecera-me um desses homens que têm o direito de escrever por alguma coisa terem, de facto, a dizer aos seus semelhantes. Por isso lhe pedi colaboração para a presença. Não tive grande mérito na minha descoberta, pois já outros tinham descobrido o mesmo. E por isso esperei e li com grande curiosidade as suas peças. Ora no meu entender, as suas peças confirmam dum modo muito superior ao das suas críticas isso que eu pressentira: O João Pedro de Andrade tem coisas a dizer; e isto que parece um mínimo de exigência, exigir dum escritor que tenha coisas a dizer, -- não o é; pelo menos, cá na minha linguagem. Além disso o João Pedro de Andrade é sem dúvida uma vocação de dramaturgo. O seu diálogo logo me surpreendeu (desculpe, eu devia escolher outro verbo...) pela rara qualidade de não ser vulgar nem empolado; isto é: de só ter a estilização necessária a todo o diálogo de teatro, e adequada ao assunto, personagens, meio, etc. Mas não achei menos notável a simplicidade, digamos nudez, depuração, com que a acção caminha, desprezando todo o desnecessário, todo o supérfluo, -- ou a vida que anima os personagens, tão diferentes dos retóricos bonecos que por aí nos apresentam em cena. Perante estas qualidades importantíssimas, nem tenho a mínima vontade de entrar numa análise crítica, miúda e restritiva: Naquela vida própria que adquirem personagens de ficção (em Continuação da Comédia) poder-se-á, talvez, descobrir um eco de Pirandello. E adivinho, pois o não chego a constatar, nem sei quê do Ibsen em certas falas ou no ambiente de Uma só vez na vida. Porém Ibsen é daqueles grandes Mestres com quem todos podem aprender sem sacrificar a sua originalidade própria (isto mesmo é o que caracteriza os mestres autênticos...) e qualquer sugestão que Pirandello lhe tenha dado não diminui a originalidade da sua peça num acto. A verdade nua e crua, muito simplesmente dita, é esta: Eu fiquei entusiasmado com as suas peças. E o que me admira, posto em Portugal não sejam estas coisas muito para admirar, é que o João Pedro de Andrade tenha escrito estas peças, e outras, e seja desconhecido como autor dramático. Não terá o meu prezado camarada alguma culpa nisso? É preciso lutar, teimar, impor-se. Eu quereria poder fazer alguma coisa para o poder ajudar nessa empresa. Mas que posso eu senão escrever? Se consente em publicar na presença A Continuação da Comédia, (e digo esta não porque Uma só vez na vida lhe não seja ainda superior, que o é, mas porque a sua extensão dificulta mais o caso) terei nisso verdadeiro prazer. Tínhamos combinado começar a publicar desde o próximo número uma peça inédita de Alfredo Cortês -- Bâton. Mas não recebemos, até hoje, notícia duma resolução definitiva do autor. A sua peça apareceria já no próximo número, no caso de não vir a dele, que tem primazia por uma simples questão de prioridade de tempo. Uma revista tem as suas exigências de equilíbrio no género da colaboração publicada; e por isso poderia este primeiro número da nova série da presença parecer conter demasiado teatro, no caso de saírem a público as duas peças. Já em outro número se poderia melhor admiti-lo. Conhecendo outras peças suas, (que teria muito gosto em conhecer), e obedecendo a uma das intenções da presença, que é estar ao serviço dos verdadeiros talentos que vierem aparecendo, eu escreveria uma nota crítica um pouco desenvolvida sobre um dramaturgo inédito. Fico esperando uma nota sua, e sou o seu camarada e admirador,

José Régio



     P.S. -- Por já ser hoje tarde, lhe não devolvo o seu original de Uma só vez na vida. Para lhe devolver o outro, espero a sua resposta.
In João Pedro de Andrade, Intenções e Realizações da presença na Prosa de Ficção 
(edição de Julieta Andrade)


Nota: Diálogo entre dois dos maiores críticos do seu tempo, e também dramaturgos: «Não se pode ser grande escritor sendo pequeno homem.» A histórica presença quase no fim.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Espinho, 8 de Dezembro de 1904: Manuel Laranjeira a João de Barros

   
  Ex.mo Sr. João de Barros



     Perdoe-me não ter desde logo respondido à sua carta, ao menos para agradecer-lhe a amabilíssima oferta do seu livro.
     Mas foi-me impossível, organicamente impossível. Eu poderia dizer como aquele doutor Rank do drama de Ibsen «que sou o mais miserável dos meus doentes», tanto me sinto vítima dos meus pobres nervos enfermos.
     Há quinze dias quase, que vou atravessando penosamente uma crise de tempestades íntimas que me inutilizam para o trabalho.
     Várias vezes tentei copiar o fragmento do estudo que lhe prometi para a sua revista.* Mas tive de abandoná-lo logo com repugnância invencível -- uma verdadeira fobia. O que me consola é a certeza de que V. Ex.ª nada perde com isso.
      Contudo, numa hora de sobreexcitação, depois duma noite memorável para mim em que vi Mounet-Sully representar o «Édipo-Rei», fiz o artigo que lhe envio e que poderá publicar na sua revista, se merecer a pena disso. Se nada lucra V. Ex.ª com a troca, nada perde com a perca.
     Se lhe não custar, envie-me as provas para eu rever. É um grande favor. No meu desleixo dessas coisas, tenho sido castigado, pois tenho visto mutilados, defeituosos, artigos meus -- lástima que só eu sinto, porque são meus, mas que eu sinto deveras, com uma aflição... paternal.
     E para o próximo número, se este estado delicioso em que estou não continuar, mandar-lhe-ei o fragmento do estudo prometido.
     Ainda não li o seu livro. As próximas horas de boa disposição que eu tenha serão para o ler.
     Contudo, estou antecipadamente certo que as referências que Sílvio Rebelo me fez de V. Ex.ª, não eram lisonjeiras, se não justas.
     Limitando-me por agora a agradecer-lhe muito e muito a sua gentilíssima oferta, subscrevo-me

     Espinho, 8 de Dezembro de 1904.

De V. Ex.ª
com toda a consideração
Cr.º sem préstimo

Manuel Laranjeira


Nota - Um estado depressivo aos 27 anos (só iria viver mais oito).




quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Santa Eufémia, Córdova, 16 de Novembro de 1870: Oliveira Martins a António Enes


S.ta Eufémia, 16 de Novembro.


Meu caro Enes


     Há já bastante tempo que recebi a tua boa mas desalentada carta. Compreendo o que sentes, porque o senti já, enquanto não tomei a resolução heróica de viver só para comer, e sentir alguma coisa semelhante, á vita della bestia do Maquiavel. O trabalhar e elevar o espírito no convívio humano e existir dentro da Sociedade Culta (?) é, quer-me parecer, impossível. Nós formamos hoje, em Portugal, principalmente, aquilo que a ex-França chamou os declassés. Deita-te ao bispo ou ao Fontes ou ao Ávila, e verás como és homem! Mas tu não podes e dou-te os parabéns por isso. Que vives e reages, vejo eu também, porque além do teu opúsculo, que peço desculpa de não te ter agradecido ainda, tenho seguido a tua polémica com o Testa no J. do C.  -- Dum e doutro dos teus trabalhos, que além da atenção que em si merecem, me mereciam a mim, aquela que se deve a um amigo, te direi o que penso.
     Parece-me que o teu ataque ao Testa, que bem escrito, erudito, sério e elevado, era fraco num ponto essencial, fundamental, direi mesmo, a filosofia do direito. Em virtude de quê entraram os italianos em Roma? Em virtude do direito revolucionário, liberal, etc. E o Testa nesta parte responde-te bem. Meu amigo é necessário dizer as cousas pelos seus nomes e romper com certas banalidades, que não têm razão de ser. Tu não querias impugnar a grande banalidade -- a força não dá direito: uma conquista é um facto, não é um direito. Eu tratando essa questão, diria abertamente: a força é direito a conquista é um direito. É só neste terreno que quanto a mim se pode (e deve) defender a entrada dos italianos em Roma. Quanto ao mais, pouco se me dá que a oligarquia burguesa do governo italiano substitua a oligarquia clerical do governo romano. Duvido que os romanos ganhem muito com a mudança. O plebiscito tem para mim valor igual, ao da recepção de Garibaldi em Nápoles. Já se queixam os napolitanos.
     Lembra-te de que o orçamento da despesa do governo italiano, é o quíntuplo da soma do de todos os estados anexados, antes de 59. Não, os governos constitucionais e liberais, não querem, nem a justiça, nem a liberdade, nem são o caminho para ela. Sobre a ruína de instituições caducas, assentam uma casta que vive dum erro económico da sociedade contemporânea -- a burguesia capitalista. Quanto mais sociedades constituto-liberais se formem mais sangrenta será a luta pela revolução e pela justiça. Quanto *a reformação do non possumus papal, seriamente crês nela? Não digas isso, homem; pois não vês que no momento em que Roma dissesse o possumus, tinha morrido e vergonhosamente? Assim ao menos cai no seu posto. Sobre o teu folheto prusso-francês, que li e reli, te direi que me parece muito mais bem pensado e o abraço convictamente. A França era com efeito o país donde nos devia vir a tocsin regeneradora; Mas a França morreu. Poderá substituí-la a Alemanha? Não tenho ideia feita sobre isso. Não conheço e do pouco que sei, tremo muito da Alemanha. Não falo de Bismark e Comp.ª, porque a esses creio eu que foi a guerra um passo agigantado para a ruína. No momento em que a Alemanha se encontrar constituída, há-de varrê-los de casa para fora, e se o não fizer cairá mais depressa, do que caiu a França.
     Desculpa-me tu meu caro Enes esta maçada; o deserto obriga a meditar, e estas noites longas de inverno a conversar com os bons amigos como tu, por esta forma, já que por outra não pode ser. se não fazes nada aí, vem até cá. Asseguro-te que por um mês hás-de distrair-te. A indústria em si tem uma verdadeira poesia, nunca a senti como agora, a serra, os caracteres primitivos do povo e o sabor arabesco das povoações, valem a pena de serem vistos. Economicamente se faz a jornada.
     Minha mulher te pede para te ser recomendada, e eu que, lembrando-me a todos os que de mim se lembrarem, aceites o cordial aperto de mão


                                                                                Do teu amigo


                                                                                                               J. P. Oliveira Martins


Correspondência de J. P. Oliveira Martins, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1926.

(edição: Francisco d'Assis Oliveira Martins)

Nota - A propósito do trabalho de António Enes, A Guerra e a Democracia. Considerações sobre a Situação Política da Europa (1870), Martins expõe o seu conceito antiliberal, que virá a tomar a forma de cesarismo, comenta a entrada das tropas de Vítor Manuel II em Roma, liquidando os Estados Pontifícios e culminando a reunificação de Itália, bem como a delicada Guerra Franco-Prussiana -- cujos efeitos ainda hoje são sentidos.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Pedras Salgadas, 6 de Agosto de 1906: D. Carlos I a João Franco

Pedras Salgadas
6-VIII-906

Meu querido João

    
Quando tive notícia dos acontecimentos de Alcântara e te telegrafei, estive para te escrever, mas preferi fazê-lo só depois de ler os jornais e agora só depois de ler a tua carta. Com a leitura da tua carta tão simples e desapaixonada, tão... tu mesmo, não mudei em nada a opinião que já formara.
 Desde que felizmente tu nada sofreste pessoalmente, e nenhum ferimento houve de gravidade, a minha opinião é que coisa alguma de maior sorte poderia ter sucedido ao governo em prol das ideias que desejamos levar avante, e que cada vez me convenço mais que são as únicas que conseguirão fazer alguma cousa deste nosso tão bom, mas até hoje (poenitet me) tão maltratado país. Pelo meu telegrama, tu que me conheces percebeste o que eu entendia. Deram um óptimo pretexto ao governo para acabar de vez com histórias nas ruas, e tiveram a habilidade de pôr contra si toda a gente honesta, e esta felizmente para nós ainda é a maioria. Quanto a eleições, sou da tua opinião por completo. Tudo depende da gente séria  e pacata se querer incomodar, se assim for, terá o governo uma manifestação que bem útil será ao nosso bom prosseguir; mas, seja como for e suceda o que suceder, temos que caminhar para diante, ainda que a luta seja rude e áspera (e espero-a) porque aqui mais do que nunca parar é morrer, e eu não quero morrer assim, nem tu!
     Como só chegarei na segunda às 9 da manhã a Sintra, a nossa assinatura pode ser na terça-feira em Lisboa, à hora do costume, para eu poder descansar segunda um poucochinho.
     De saúde felizmente óptimo. Teu amigo verdadeiro.

Carlos R.


     O J. Saraiva tem feito óptimo serviço; dar-lhe-ei a Gr. Cruz da Conceição pois já se tem dado a outros Gov.es Civis com menos razão.


Cartas d'El-rei D. Carlos I a João Franco Castello-Branco Seu Ultimo Presidente do Conselho, Lisboa, 1924.

Nota - Interessante em vários domínios. Por um lado,  o raciocínio da vitimização política -- que normalmente costuma pagar -- avançado pelo monarca, na sequência de um atentado a João Franco num comício do seu Partido Regenerado Liberal, por parte de outras facções monárquicas; facções essas, sabe-se hoje, que estarão activamente envolvidas na conspiração regicida, ano e meio depois de escrita esta carta; por outro lado, a consciência do rei dos perigos que enfrentava.

domingo, 17 de dezembro de 2017

Bruxelas, 22 de Agosto de 1933: Alberto de Oliveira aos organizadores do «In Memoriam» de Delfim Guimarães



    Ex.mos Srs.


     Com muito prazer me associo à justa homenagem, que VV. tomaram a iniciativa de promover, à memória do nosso ilustre confrade Delfim Guimarães.
     Apesar de sermos conterrâneos, só tive ocasião de o conhecer pessoalmente há poucos meses; e realizou-se esse encontro em circunstâncias que não esqueci e que bem assinalam os raros dotes de coração e de carácter que, não menos que os da inteligência, caracterizavam a figura de Delfim Guimarães. Por isso as vou narrar aqui ràpidamente.
     Em Outubro do ano passado foram convidados alguns amigos e admiradores de António Feijó a reunir-se no gabinete do Dr. Júlio Dantas, na Biblioteca Nacional, para deliberarem sobre a realização do monumento que se projectava erigir ao insigne poeta minhoto na sua tão amada vila natal de Ponte do Lima. Estava eu então em Lisboa e, correspondendo ao apelo que me foi dirigido, compareci à reunião. Quase ao mesmo tempo que eu chegava também, pelo braço do nosso comum amigo Dr. Araujo Lima, um homem de fisionomia atraente, mas parecendo muito doente e exausto de forças, que logo depois soube ser Delfim Guimarães. Vinha arquejante de ter subido a longa escadaria do velho convento fransciscano e mal podia falar quando entabolámos conversa.
     Referiu-se ao seu estado de saúde com a tristeza de quem lhe conhecia a gravidade: e com efeito, de vê-lo e ouvi-lo. fiquei comovidamente certo de que ele já não tinha senão um fio de vida. Meses depois êsse fio partia-se sem nenhuma surpreza minha.
     Mas o que aumentou nesse momento a minha comoção foi ver Delfim Guimarães, que me parecia agonizante, tomar parte tão efectiva e dedicada naquela reunião dos amigos de um poeta morto e valorizar essa adesão não só com a sua presença num lugar de acesso tão penoso e até perigoso para a sua saúde, como pelo oferecimento, que se apressou a fazer com calor, dos seus serviços e préstimos, para que o projecto em discussão não tardasse a converter-se em realidade.
     Esse homem tão vizinho da morte, e sabendo-o, que se esquecia completamente de si para se votar tão afanosa e desinteressadamente ao culto de outro poeta, que já só existia na memória dos que o amaram e admiravam, não era certamente do número daqueles para quem se fez o moto: «Les morts vont vite». Mas, e ainda melhor, também não era daquelas numerosas almas a quem o egoísmo, se as não dominou sempre, acaba por vencer, de tal modo o instinto de conservação é preponderante e quase legítimo no homem. Aquele poeta sofria de grave doença do coração: mas o seu coração, quase sem corda, estava moralmente intacto e vigoroso e continuava a bater com a mesma pontualidade e carinho pelos seus amigos vivos ou mortos.
     VV. acharão talvez, como eu, que este singelo facto que lhes ofereço retrata com justeza as feições morais de Delfim Guimarães. Se assim é, queiram incluí-lo no seu In Memoriam e aceitem os mais atenciosos cumprimentos do

                                                De VV. confrade muito de dicado e obrigado

                                                                    
 Alberto d'Oliveira
Bruxelas, 22 de Agosto de 1933.


In Memoriam de Delfim Guimarães -- 1872-1933, organizado por Galino Marques, Lisboa, Guimarães & C.ª, 1934.

Nota - Bela carta evocativa de Delfim Guimarães, recém-falecido. Pelo tom, parece que Oliveira fala de alguém muito mais velho, quando apenas um ano os separava. Missiva de homenagem, ao velho poeta e editor, e de exaltação do dever de memória.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Porto, 6 de Abril de 1873: Camilo Castelo Branco a Tomás Ribeiro


Meu Tomás.

     Peço-te com instância a favor do homem por quem te pede o outro teu am.º. Esse Caldas é filho de um poeta da escola de Bocage. Não o conheço, mas tenho boas informações dele. Se puderes, coloca-o; se não puderes, lamenta-o e abraça o teu
am.º grato

     P.S. -- Afectos de todos os meus.

Camilo C. Br.º
     Porto, 6 de Abril
            1873


Cartas de Camilo Castelo Branco a Tomás Ribeiro, Lisboa, Portugália Editora, 1922.
(edição de Branca de Gonta Colaço)

Nota - Uma cunha despachadamente metida por Camilo ao grande amigo, que, além de poeta festejado, era um homem do Poder, governante de muitas e variadas pastas, decisivo para a obtenção do título de visconde para o romancista.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

6 de Janeiro de 1909: Maria Amália Vaz de Carvalho a João de Barros

6-I-1909

     Meu bom amigo

     Venho agradecer-lhe mt.º e mt.º o seu belo livro que li com imenso interesse. Sem concordar inteiramente com as doutrinas ali expostas achei um grande prazer intelectual em ver o modo como as expunha.
     O seu sonho de educação integral tem para nós um defeito... o de ser mt.º caro!
     Uma amiga minha que deixou agora o filho no colégio Des Roches pagou 900$000 adiantados por um ano!
     Imagine o belo pai de família português, burocrata (em Portugal não há senão burocratas) e tendo 12 filhos (em Portugal ninguém que se preza tem menos de 12 filhos) e suponha-o educando os seus filhos num colégio assim, e triando-os de lá sabendo de tudo um pouco, mas não tendo capacidade de entrar na gloriosa carreira do Pai por falta de diplomas legais! Que horrível desastre!
     Nós temos de criar uma educação nossa. Não a sonha pelos utopistas da Grécia, não a imaginada pela fantasia humanitária de Rousseau, nem pelo amoralismo implacável do seu Nietzsche mas adaptada ao triste meio que só um século de trabalho incessante poderá ir lentamente modificando.
     Que haja mt.os professores como o meu caro João de Barros e com certeza essa modificação para melhor será mais rápida.
     Mas onde é que eles estão?
     Muitos parabéns, apesar destas divergências que desculpará a uma velha amiga que já leva em tarefa de educar filhos sem pai, pelo seu livro que é mais uma luminosa afirmação de tranbalho, de talento e de devoção ao seu duro ofício de ensinar.
     Sua amiga mt.º grata
e sincera adora

M.ª Amália
     Um abraço à Raquel


Cartas a João de Barros, Lisboa, Livros do Brasil, s.d.
(edição: Manuel de Azevedo)
    
     Nota - Debate breve entre dois pedagogos, cujas idades se distanciavam em 34 anos (Maria Amália era de 1847; Barros, de 1881), a propósito do livro deste, A Escola e o Futuro (1908)

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Olhão, 18 de Junho de 1925: Roberto Nobre a Ferreira de Castro

Olhão 18/6/925

Meu Caro Ferreira de Castro

    
Uma gripe infligiu-me três dias de cama, e uma semana de má disposição para o trabalho -- e além de tudo uma magreza e uma fraqueza tal de ter tonturas. Vou arribando. Isto explica a bem pouco comum em mim tardança no envio dos desenhos.
     Na série de «Epopeia» vou entremeando «trabalhos» intelectuais com «trabalhos» físicos. O próximo será ou «escritores» ou os «pintores». No A.B.C. trocaram os desenhos. Gostaria que Mário Domingues soubesse disto e não atribuísse a mim desenhos quase inexplicáveis. «Na mais fabulosa riqueza» veio o que pertencia ao conto anterior e neste o que pertencia àquele. Será porque o nosso amigo Beno[l]iel está sendo operado?
Tenho uma excelente notícia a dar-lhe. É muito provável que que brevemente me terão aí vivendo dos desenhos. O Bernardo Marques, excelente amigo e a camarada, acaba-me de convidar para com ele trabalhar para a Companhia do Estoril. Não sei ainda quanto ganharei mas creio conseguir, com esse ordenado e com o que poderei trabalhar para fora conseguir manter-me até que (passada que for a tremendíssima crise económica que por aqui grassa) eu consiga montar com capital suficiente a Companhia de cinema que tenho em organização e cujas experiências têm dado excelentes resultados.
     Como V. calcula isto é extraordinária alegria para mim, saudoso que estou sempre da nossa excelente camaradagem de há dois anos.
     Meu pai deve chegar aí esta noite e dir-me-á o que resultou da sua entrevista com o Marques. Não sei ainda o que combinaram o que creio é que o resultado deverá ser a minha ida. V. que é homem que anda a corrente destas coisas é capaz de me mandar dizer quanto necessitarei para viver aí? Necessito saber isso por causa dos meus cálculos. Sinto os nervos necessitados de uns meses de luta, de trabalho.
     Um grande abraço para distribuir pelos nossos amigos da «Hora Novelesca» e
                                                                        Um outro para si do seu adm.or e amig.º
                                                                                                                              
                                                                                                                    Roberto Nobre



100 Cartas a Ferreira de Castro, Sintra, Câmara Municipal / Museu Ferreira de Castro, 1992

(edição: Ricardo António Alves)

Nota - Aos 22 anos, Roberto Nobre alimentava ainda os sonhos de realização artística através do recurso exclusivo aos seus maiores interesses: o cinema e a pintura e o desenho. Quanto à 7.ª Arte, realizava por esta altura uma curta-metragem paródica do seu ídolo, Chaplin: «Charlotim & Clarinha», assim intitulado, hoje guardado nos arquivos da Cinemateca; viria a ser o maior crítico de cinema do seu tempo, Horizontes de Cinema (1938) é um clássico). Quanto à pintura, desenhos, cartazes, moda, publicidade, forçado a subsistir, anarquista e opositor (foi dos poucos a recusar o convite de António Ferro para colaborar na Exposição do Mundo Português), enterra-se na Singer, onde coordena  o gabinete de marketing (os reclames...).