quinta-feira, 13 de junho de 2019

Sintra, 2 de Agosto de 1983: Francisco Costa a João Bigotte Chorão

Sintra, 2 de Agosto de 1983.

Meu caro João Bigotte Chorão,

Recebi o seu ensaio sobre "a literatura portuguesa nos próximos 25 anos", e li-o com uma surpresa correspondente à perplexidade que o esfíngico tema lhe causou, quando lhe foi proposto. Sinto nessas páginas um localismo pessimista, impróprio de si, que me fez lembrar os anos 40/50, quando, a propósito dos meus romances, os críticos episódicos (permanente, havia apenas um e era o menos desdenhoso) repisavam o tema do mísero epigonismo dos autores contemporâneos. Nessa altura, abstive-me de replicar: medice, cura te ipsum, aos que também eram autores, mas aludia algures, se bem me lembro, ao "acendrado patriotismo" daqueles que só ficariam satisfeitos se os portugueses fossem pioneiros em tudo: nos caminhos literários como outrora nos caminhos marítimos.
Claro que havia excepções isoladas, entre as quais se distinguiam o António Quadros, o Luís Trigueiros, o Amândio César; mas os críticos mais persistentes, adversários da autocracia reinante, vingavam-se indirectamente nos autores não subversivos, pisando-os como degraus inferiores, a fim de eles próprios parecerem mais altos, aos olhos do público, sempre crédulo. Hoje suponho que se faz o contrário: aumenta-se artificialmente a estatura dos autores afectos à ideologia dominante; e quanto aos desafectos, nega-se-lhes, pura e simplesmente, a existência literária, presente ou passada.

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Mas voltemos ao que é sério. Sei muito bem, querido amigo, que a Província é que alimenta os nossos tradicionais centros de cultura, em Coimbra e Lisboa. Eu próprio, na esteira do "pobre homem de Póvoa do Varzim", me intitulo "pobre homem da serra de Sintra"; mas o facto de esta ser "uma quinta com porta para o Chiado", como dizia o Eça, é segundo parece o que me torna um citadino incapaz de trabalhar a bem da língua portuguesa. Sim: a julgarmos por estas suas páginas, só Tomás de Figueiredo e João de Araújo Correia foram, em rigor, notáveis obreiros do nosso idioma na primeira metade deste século, pois só eles são a tal ponto camilianos que há trechos deles -- transcritos no seu CAMILO, A OBRA E O HOMEM -- que parecem mesmo escritos pelo autor de A BRASILEIRA DE PRAZINS; além desses dois cultores do vernáculo, o seu texto refere apenas, de relance, alguns grandes nomes que pareceria mal omitir. Quanto a este seu amigo, a omissão compreende-se, pois sempre considerei a língua, com toda a sua riqueza conceptual e metafórica, simples matéria instrumental daquilo que mais interessa: a forma, sensível e inteligível, de obra literária.
É evidente que se as raízes da nossa cultura se encontrassem, quanto ao século XIX, somente no fecundíssimo escritor de S. Miguel de Ceide (que por si só constitui uma secção da Biblioteca Municipal de Sintra), os dois obreiros, agora elogiados, seriam de facto os mais notáveis. Nesse caso, porém, a geração de 1870, antinacional nos temas e atitudes, teria sido também perniciosa ao depurar a nossa língua literária, banindo os arcaísmos e modismos obsoletos, rebuscados e divulgados pelo autor de MEMÓRIAS DO CÁRCERE.
Ao queixar-se de que Eça de Queirós e os seus amigos "implicavam" com ele, sempre que isso vinha a "talho de foice", Camilo provocou a célebre carta que o autor de O PRIMO BASÍLIO escreveu ao autor de O ESQUELETO, texto que, bem relido e meditado, muito útil seria a quem defende o nosso idioma somente no plano da filologia e da linguística. se essa carta, naquela altura, não chegou ao destinatário, foi talvez porque este brandiria logo o formidável cacete minhoto contra o frágil florete citadino do seu jovem rival, e a polémica alastraria imediatamente em rixa, na feira das letras: à paulada e sem proveito para ninguém. Felizmente, o português depurado foi o que vingou, no final do século XIX, e hoje o "camilismo idiomático (não o escritor Camilo, evidentemente) é raridade museográfica para colecionadores e eruditos apenas.

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Alargando o tema do epigonismo literário, duvido muito de que esse conceito se aplique somente a autores portugueses; melhor: creio que o epigonismo é inevitável no mundo das letras e das artes, estando longe de ser um defeito. Já no começo deste século o anglo-americano T. S. Eliot o defendia ao advertir que o talento individual não pode nem deve renegar a tradição, seja nacional seja internacional. Desde esse ensaio, que ficou célebre, acusar de epigonismo os inúmeros continuadores de Jane Austen e Balzac, pioneiros do "roman anti-romanesque", tão apropriadamente definido por Taine, na sua HISTOIRE DE LA LITTÉRATURE ANGLAISEAo que parece, só a crítica portuguesa descobriu neste país um epigonismo congénito, muito embora o próprio Camilo, ao dizer-se um dia humilde discípulo de Balzac, se atribuísse desse modo uma qualidade e não um defeito. Não sei, aliás, se o grande escritor sabia ver-se como era, no plano da novelística; e só estranho que em Portugal, a propósito dele e de Eça de Queirós, ainda não se tenha estudado a fundo o que distingue narradores e ficcionistas. O tema, abordado por Paulo Dantas, no Brasil, a propósito de José Lins do Rego, mereceria bem ser aprofundado a nível universitário, pois -- insisto -- não é na prática da língua, matéria instrumental da obra literária, mas sim no tratamento da forma, constituída pelas personagens e suas circunstâncias, que as duas famílias de escritores se distinguem, cabendo a designação de ficcionistas aos que se empenham sobretudo em criar pessoas fictícias (são, afinal, "poetas fingidores", diria aqui o Fernando Pessoa) e a designação de narradores, aos que preferem alargar-se na descrição das circunstâncias e ambientes sociais. Em nossos dias, não será isso, precisamente, o que distingue um Paço d'Arcos de um Ferreira de Castro, e -- vamos lá -- um Francisco Costa de uma Agustina Bessa Luís?

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Muito mais justo do que os críticos dos anos 40/50, o João Bigotte Chorão observa que a literatura portuguesa só é epigonal na medida em que, "não assumindo a nossa identidade, copia figurinos estranhos ao nosso corpo": os galicismos e modismos realistas de Eça de Queirós são o exemplo mais ilustre desse defeito. Mas, amigo, nós portugueses, para além do corpo nacional, temos alma universal; e é por isso que o Eça, inferior ao Camilo quanto à extensão e portuguesismo do vocabulário, vale mais do quele na criação de personagens, fazendo o estudo psicológico delas, não em colóquio com o leitor, mas por meio da acção e das falas: no estilo próprio dos falantes e não nos estilo próprio do escritor, como fazia o autor de AMOR DE PERDIÇÃO, cujos heróis e heroínas falavam todos em português camiliano. Concordo plenamente consigo, quando nos diz achar monótono "o inventário notarial do passado", e ver "na vocação necrófila uma das taras da nossa cultura", mas precisamente porque ama a cultura "como qualquer coisa de vivo e vital", não o sinto à vontade entre os futurologistas (ou apenas futuristas), mais ou menos afectado por aquela "baixa preocupação de actualidade" que Fidelino de Figueiredo já denunciava em 1925, na mesma linha do tão citado ensaio de T. S. Eliot, que é de 1917 -- ano que foi, em Portugal, o da insurreição literária do ORPHEU e da contra-revolução política de Sidónio Pais, precursor do salazarismo subsequente. E também não terá sido por acaso que ambos esses movimentos de 1917 se inseriram, logo de início, na acção do meu primeiro tríptico de romances.
Quando o P. Manuel Antunes, a propósito do meu caso e de outros contemporâneos, tentou "elevar-se a cima do momento e do local", apreciando os autores recentes em perspectiva intemporal, os críticos de então -- os tais que se empoleiravam sobre os autores, para não parecerem anões -- troçaram a tal ponto dessa tentativa, que até ele passou a ferir a tecla do epigonismo nacional, acentuando o queirozismo ou camilismo dos romancistas actuais... falhos de actualidade internacional. Abriu então uma tímida excepção para o "brotar fontal"  de Agustina Bessa Luís, enquanto João Gaspar Simões, aludindo aos "aracnídeos romances" da autora minhota e desconhecendo totalmente a obra do lisboeta Paço d'Arcos, tratava o sintrense Francisco Costa, apesar de católico, em perspectiva universal e em termos tão generosos que o inolvidável P. João Mendes espontaneamente se arrependeu (em carta, não em público) da parcimónia da sua apreciação a meu respeito. A verdade tem de se dizer: foi o agnóstico, não o católico, quem se atreveu a apreciar os meus romances no plano das grandes obras do género, para justificar, como ele próprio observou, os seus reparos antimoralísticos... nem sempre justos. Na Brotéria, confinaram-me aos limites da aldeia portuguesa, talvez por eu não lhes ter dado um romance integralmente católico, segundo o modelo mauriaciano, definido e até preceituado pelo autor de MONTE PARNASO MONTE CARMELO.


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E afinal vou dando alguns trechos de memórias (quase sempre egocêntrico e egotistas) nas cartas que escrevo neste meu final de vida literária. Junto lhe envio cópia daquela que dirigi ao Gilberto Moura, pois ao escrevê-la pensai constantemente em si e nos seus generosos escritos a meu respeito. Há quarenta anos, sempre que a perspectiva literária se alargou para além do nosso burgo, foi ainda o João Gaspar Simões quem me defendeu por várias vezes, indignando-se, numa delas, contra a miopia dos meus correligionários, que não sabiam ver esta "glórias das letras católicas portuguesas". Triste glória a minha: a de um autor que nunca se decidiu a promover "son personnage", como me dizia o meu querido Paço d'Arcos. Vi-o pela última vez nesta casa, quando ele, já muito doente, persistiu em aceitar aquela reunião de amigos, com que se festejou, depois da missa, meio século de matrimónio feliz. Também ele, depois do António Júdice, muito estimava a "colaboradora invisível dos meus romances": a grande senhora sem a qual eu não seria quem sou. Agora, viúvo, encontrei-me tristemente com a viúva dele, noutra merenda (assim se dizia em Sintra no tempo do Marialva), oferecida pelo Domingos Oliveira Martins ao Embaixador do Brasil, que brevemente será transferido para Washington.
Coincidência curiosa: dias antes, o Dr. Dário Castro Alves encontrara-se com o Amândio César, e tais coisas este lhe disse a respeito dos meus romances e outros escritos, que o cultíssimo diplomata brasileiro andava desde então à minha procura pelo telefone, sem conseguir ligação. O Oliveira Martins nos ligou inesperadamente, sem saber que bom serviço me prestava ao convidar-me.
E pronto! Esta sua carta vai tão extensa como a do Gilberto Moura: a bem do correio, cujas tarifas subiram verticalmente.

Abraça-o, como sempre, o seu amigo muito grato

Francisco Costa

PS. Leio em LÍNGUA PORTUGUESA (Junho, 1983), a propósito do recente CONGRESSO SOBRE A SITUAÇÃO ACTUAL DA LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO, estas palavras do director da revista: "Não sei de mais alto serviço prestado à língua portuguesa".
Então os autores que escreveram em português, desde o século de Camões ao de Fernando Pessoa, não prestaram serviços relevante à língua pátria?

nota - João Bigotte Chorão, Diálogo com Francisco Costa, Sintra, Santa Casa da Misericórdia [1994]. Conferência. Uma carta que é um documento notável sobre as tensões ideológicas que a literatura portuguesa conheceu no século XX, com as suas vítimas e os seus triunfadores.




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