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domingo, 5 de maio de 2019

Caminha, 1 de Janeiro de 1923: Luciano Pereira da Silva a Joaquim de Carvalho

Meu prezado Amigo:

Recebi a sua carta que lhe agradeço. A respeito do original do Hümmerich, não se lhe pode exigir que o mande dactilografado, pelo menos este primeiro trabalho que ele tem pronto, e está copiado pela senhora dele, com certeza com m.to boa letra para ir para a imprensa. Ele escreve sempre em letra m.to legível, e com certeza o original vem assim. Eu lerei ao compositor a primeira, ou as primeiras páginas, e como eu assistirei à composição, e reverei as primeiras provas, isso caminhará rapidamente.
Para pedir ao Dr. Hümmerich que me mande o original, espero as suas informações sobre os caracteres sânscritos.
Pergunta-me se recebi as Cartas do R. Sanches, que eu m.to lhe agradeço. Mas mandou-mas para Caminha, ou para a minha casa de Coimbra, Palácios Confusos? Se mandou para aqui não recebi. Se mandou para os Palácios Confusos, lá me entregarão o livro, q.do eu regressar a Coimbra, onde tenciono chegar no dia 6.
Os trabalhos do Hümmerich são m.to importantes e para nós m.to interessantes, por serem relativos a coisas portuguesas.
Estive agora com um professor do Liceu de Braga, natural deste concelho, amador e negociador de coisas antigas, e possuidor de livros e pergaminhos. Falou-me de uns manuscritos, que apanhou em Braga, e eu propus-lhe que lhos mandasse (sendo eu o portador, q.do puder ser), para serem publicados, se tiverem valor, sendo-lhe depois restituídos a ele. Não foi fora disso. Eu disse-lhe isto, pensando na sua projectada publicação. Quem sabe se ele terá coisa de valor, inédita, é claro! Será bom ver.
E não lhe tiro mais tempo. Disponha do que é, com especial estima,

Seu amigo certo e m.to grato

Caminha, 1.I.23

Luciano Pereira da Silva

P. S. Agora mesmo recebo da mão do carteiro, as Cartas. M.to e m.to obrigado, pelo seu presente de Ano Novo. tive de rasgar o envelope da carta, para introduzir este grato suplemento.

nota - Correspondência de Luciano Pereira da Silva para Joaquim de Carvalho, introdução e notas por José Barbosa, separata, do Bol. Bibl. Univ. Coimbra, vol. 39 - 1984, Coimbra, 1985. Matemático e historiador da náutica dos Descobrimentos, Luciano Pereira da Silva (1864-1926) faz a ponte entre Franz Hümmerich, autor, entre outros, dum estudo sobre o roteiro da viagem de Vasco da Gama, para a sua publicação na Revista da Universidade de Coimbra, dirigida por Joaquim de Carvalho. A referência bibliográfica a Ribeiro Sanches: Cartas Sobre a Educação da Mocidade (1760), publicadas no ano anterior pela Imprensa da Universidade, com edição de Maximiano de Lemos.




terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Portalegre, Abril de 1939: José Régio a João Pedro de Andrade

Boavista, Portalegre
Abril de 1939
Prezado camarada:




     Desculpe-me esta demora. Não foi a leitura da suas peças que me tomou todo este tempo: Li-as logo que as recebi. Mas queria escrever-lhe devagar e longamente. Afinal... para quê? Além de que adio sempre demasiado as cartas que me proponho escrever como quem escreve um ensaio, -- o que tenho de principal a dizer-lhe é simples; e pode ser dito ao correr pena, conforme sair: Gostei muito das suas peças... e julgo não me ter enganado gostando. O que nas suas críticas me chamara a atenção não fora tanto a justeza ou a não justeza dos juízos (se alguns seus juízos me pareciam justíssimos, outros, tal o sobre o João Falco, pareciam-me injustos) como, sobretudo, um tom de quem diz as coisas sabendo o que diz, «com um saber de experiência feito». O João Pedro de Andrade afigurou-se-me um daqueles homens -- raros em Portugal -- que têm um conhecimento íntimo, profundo, pelo menos de certos aspectos da vida, e nesse conhecimento se estribam quando escrevem. Esses, são interessantes mesmo quando errem ou se enganem: As suas palavras podem não ter a sonoridade própria a certos talentos brilhantes e ocos... mas claro que é preferível, nesta coisa das letras, o som cheio, surdo, duma pancada num muro denso. Julgo eu que se não pode ser grande escritor sendo pequeno homem, e que é preciso ter coisas em si para poder interessar aos outros. Ora através dos seus artigos e críticas, o João Pedro de Andrade parecera-me um desses homens que têm o direito de escrever por alguma coisa terem, de facto, a dizer aos seus semelhantes. Por isso lhe pedi colaboração para a presença. Não tive grande mérito na minha descoberta, pois já outros tinham descobrido o mesmo. E por isso esperei e li com grande curiosidade as suas peças. Ora no meu entender, as suas peças confirmam dum modo muito superior ao das suas críticas isso que eu pressentira: O João Pedro de Andrade tem coisas a dizer; e isto que parece um mínimo de exigência, exigir dum escritor que tenha coisas a dizer, -- não o é; pelo menos, cá na minha linguagem. Além disso o João Pedro de Andrade é sem dúvida uma vocação de dramaturgo. O seu diálogo logo me surpreendeu (desculpe, eu devia escolher outro verbo...) pela rara qualidade de não ser vulgar nem empolado; isto é: de só ter a estilização necessária a todo o diálogo de teatro, e adequada ao assunto, personagens, meio, etc. Mas não achei menos notável a simplicidade, digamos nudez, depuração, com que a acção caminha, desprezando todo o desnecessário, todo o supérfluo, -- ou a vida que anima os personagens, tão diferentes dos retóricos bonecos que por aí nos apresentam em cena. Perante estas qualidades importantíssimas, nem tenho a mínima vontade de entrar numa análise crítica, miúda e restritiva: Naquela vida própria que adquirem personagens de ficção (em Continuação da Comédia) poder-se-á, talvez, descobrir um eco de Pirandello. E adivinho, pois o não chego a constatar, nem sei quê do Ibsen em certas falas ou no ambiente de Uma só vez na vida. Porém Ibsen é daqueles grandes Mestres com quem todos podem aprender sem sacrificar a sua originalidade própria (isto mesmo é o que caracteriza os mestres autênticos...) e qualquer sugestão que Pirandello lhe tenha dado não diminui a originalidade da sua peça num acto. A verdade nua e crua, muito simplesmente dita, é esta: Eu fiquei entusiasmado com as suas peças. E o que me admira, posto em Portugal não sejam estas coisas muito para admirar, é que o João Pedro de Andrade tenha escrito estas peças, e outras, e seja desconhecido como autor dramático. Não terá o meu prezado camarada alguma culpa nisso? É preciso lutar, teimar, impor-se. Eu quereria poder fazer alguma coisa para o poder ajudar nessa empresa. Mas que posso eu senão escrever? Se consente em publicar na presença A Continuação da Comédia, (e digo esta não porque Uma só vez na vida lhe não seja ainda superior, que o é, mas porque a sua extensão dificulta mais o caso) terei nisso verdadeiro prazer. Tínhamos combinado começar a publicar desde o próximo número uma peça inédita de Alfredo Cortês -- Bâton. Mas não recebemos, até hoje, notícia duma resolução definitiva do autor. A sua peça apareceria já no próximo número, no caso de não vir a dele, que tem primazia por uma simples questão de prioridade de tempo. Uma revista tem as suas exigências de equilíbrio no género da colaboração publicada; e por isso poderia este primeiro número da nova série da presença parecer conter demasiado teatro, no caso de saírem a público as duas peças. Já em outro número se poderia melhor admiti-lo. Conhecendo outras peças suas, (que teria muito gosto em conhecer), e obedecendo a uma das intenções da presença, que é estar ao serviço dos verdadeiros talentos que vierem aparecendo, eu escreveria uma nota crítica um pouco desenvolvida sobre um dramaturgo inédito. Fico esperando uma nota sua, e sou o seu camarada e admirador,

José Régio



     P.S. -- Por já ser hoje tarde, lhe não devolvo o seu original de Uma só vez na vida. Para lhe devolver o outro, espero a sua resposta.
In João Pedro de Andrade, Intenções e Realizações da presença na Prosa de Ficção 
(edição de Julieta Andrade)


Nota: Diálogo entre dois dos maiores críticos do seu tempo, e também dramaturgos: «Não se pode ser grande escritor sendo pequeno homem.» A histórica presença quase no fim.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Espinho, 8 de Dezembro de 1904: Manuel Laranjeira a João de Barros

   
  Ex.mo Sr. João de Barros



     Perdoe-me não ter desde logo respondido à sua carta, ao menos para agradecer-lhe a amabilíssima oferta do seu livro.
     Mas foi-me impossível, organicamente impossível. Eu poderia dizer como aquele doutor Rank do drama de Ibsen «que sou o mais miserável dos meus doentes», tanto me sinto vítima dos meus pobres nervos enfermos.
     Há quinze dias quase, que vou atravessando penosamente uma crise de tempestades íntimas que me inutilizam para o trabalho.
     Várias vezes tentei copiar o fragmento do estudo que lhe prometi para a sua revista.* Mas tive de abandoná-lo logo com repugnância invencível -- uma verdadeira fobia. O que me consola é a certeza de que V. Ex.ª nada perde com isso.
      Contudo, numa hora de sobreexcitação, depois duma noite memorável para mim em que vi Mounet-Sully representar o «Édipo-Rei», fiz o artigo que lhe envio e que poderá publicar na sua revista, se merecer a pena disso. Se nada lucra V. Ex.ª com a troca, nada perde com a perca.
     Se lhe não custar, envie-me as provas para eu rever. É um grande favor. No meu desleixo dessas coisas, tenho sido castigado, pois tenho visto mutilados, defeituosos, artigos meus -- lástima que só eu sinto, porque são meus, mas que eu sinto deveras, com uma aflição... paternal.
     E para o próximo número, se este estado delicioso em que estou não continuar, mandar-lhe-ei o fragmento do estudo prometido.
     Ainda não li o seu livro. As próximas horas de boa disposição que eu tenha serão para o ler.
     Contudo, estou antecipadamente certo que as referências que Sílvio Rebelo me fez de V. Ex.ª, não eram lisonjeiras, se não justas.
     Limitando-me por agora a agradecer-lhe muito e muito a sua gentilíssima oferta, subscrevo-me

     Espinho, 8 de Dezembro de 1904.

De V. Ex.ª
com toda a consideração
Cr.º sem préstimo

Manuel Laranjeira


Nota - Um estado depressivo aos 27 anos (só iria viver mais oito).




sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Olhão, 18 de Junho de 1925: Roberto Nobre a Ferreira de Castro

Olhão 18/6/925

Meu Caro Ferreira de Castro

    
Uma gripe infligiu-me três dias de cama, e uma semana de má disposição para o trabalho -- e além de tudo uma magreza e uma fraqueza tal de ter tonturas. Vou arribando. Isto explica a bem pouco comum em mim tardança no envio dos desenhos.
     Na série de «Epopeia» vou entremeando «trabalhos» intelectuais com «trabalhos» físicos. O próximo será ou «escritores» ou os «pintores». No A.B.C. trocaram os desenhos. Gostaria que Mário Domingues soubesse disto e não atribuísse a mim desenhos quase inexplicáveis. «Na mais fabulosa riqueza» veio o que pertencia ao conto anterior e neste o que pertencia àquele. Será porque o nosso amigo Beno[l]iel está sendo operado?
Tenho uma excelente notícia a dar-lhe. É muito provável que que brevemente me terão aí vivendo dos desenhos. O Bernardo Marques, excelente amigo e a camarada, acaba-me de convidar para com ele trabalhar para a Companhia do Estoril. Não sei ainda quanto ganharei mas creio conseguir, com esse ordenado e com o que poderei trabalhar para fora conseguir manter-me até que (passada que for a tremendíssima crise económica que por aqui grassa) eu consiga montar com capital suficiente a Companhia de cinema que tenho em organização e cujas experiências têm dado excelentes resultados.
     Como V. calcula isto é extraordinária alegria para mim, saudoso que estou sempre da nossa excelente camaradagem de há dois anos.
     Meu pai deve chegar aí esta noite e dir-me-á o que resultou da sua entrevista com o Marques. Não sei ainda o que combinaram o que creio é que o resultado deverá ser a minha ida. V. que é homem que anda a corrente destas coisas é capaz de me mandar dizer quanto necessitarei para viver aí? Necessito saber isso por causa dos meus cálculos. Sinto os nervos necessitados de uns meses de luta, de trabalho.
     Um grande abraço para distribuir pelos nossos amigos da «Hora Novelesca» e
                                                                        Um outro para si do seu adm.or e amig.º
                                                                                                                              
                                                                                                                    Roberto Nobre



100 Cartas a Ferreira de Castro, Sintra, Câmara Municipal / Museu Ferreira de Castro, 1992

(edição: Ricardo António Alves)

Nota - Aos 22 anos, Roberto Nobre alimentava ainda os sonhos de realização artística através do recurso exclusivo aos seus maiores interesses: o cinema e a pintura e o desenho. Quanto à 7.ª Arte, realizava por esta altura uma curta-metragem paródica do seu ídolo, Chaplin: «Charlotim & Clarinha», assim intitulado, hoje guardado nos arquivos da Cinemateca; viria a ser o maior crítico de cinema do seu tempo, Horizontes de Cinema (1938) é um clássico). Quanto à pintura, desenhos, cartazes, moda, publicidade, forçado a subsistir, anarquista e opositor (foi dos poucos a recusar o convite de António Ferro para colaborar na Exposição do Mundo Português), enterra-se na Singer, onde coordena  o gabinete de marketing (os reclames...).

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Biarritz, 6 de Março de 1940: Jaime Cortesão a Câmara Reis

6 de Março de 1940.
Villa Angello,
rue Saraspe,
Biarritz (B. P.)


Meu querido Câmara Reis,

     Prometi-lhe há tempos enviar para a revista colaboração que pudesse substituir certa relação de viagem acidentada, que V. desejava dar à publicidade. Só hoje o faço. E não estranhe. Tenho ultimamente tido uma vida de trabalho muito intenso, a que me obrigam as necessidades materiais e compromissos literários de vária espécie.
     Uma circunstância, alheia ao meu alvedrio, permite satisfazer os seus e os meus desejos. É o caso que o meu amigo António Fróis antes de partir para Helsinki, onde foi pôr-se ao lado dos finlandeses (este não se nega a combater na Finlândia...), e na previsão de qualquer desenlace desastroso, deixou nas minhas mãos um grande número dos seus poemas, confiando-me também o encargo de os publicar, se o considerasse oportuno.
     Envio-lhe, pois, duas poesias suas, deixando por minha vez ao seu critério a resolução de as publicar ou não, conforme lhe parecer. O meu Amigo verá se as suas poesias não destoam muito do estilo das novas escolas portuguesas. António Fróis é aquilo a que poderíamos talvez chamar um clássico, um anacrónico dr. António Ferreira, quando referido ao nosso tempo, de tão altas novidades. A mim, cego talvez pela amizade, afigura-se-me, que elas não seria de todo indignas das colunas da Seara. Se o seu parecer não for diferente, o meu Amigo poderia publicar um dos poemas -- «Regresso ao Caos e Ressurreição» -- em quatro ou em dois número da revista -- "Andrómada e o dragão" -- em outro. Se acaso, hipótese que a minha modéstia de amigo dificilmente admite, as poesias que lhe parecessem de interesse, eu poderia enviar-lhe outras mais. E no caso afirmativo permitia sugerir-lhe que o meu querido Câmara Reis fizesse uma pequena tiragem à parte -- que sei eu? -- dalguns cem exemplares que poderia servir de homenagem àquele combatente pela liberdade dos povos oprimidos.
     Uma condição imponho à sua amizade, se aceitar a publicação dessas poesias, a de esconder inteiramente a origem delas, isto é, o nome do intermediário que lhas comunica.
     A par disto envio também um artigo meu, que aliás já foi impresso há alguns meses numa revista do Rio -- "O observador económico" --. Como se trata duma revista estrangeira e de especialidade, esse pequeno estudo, intitulado "Homo", é certamente totalmente desconhecido dos leitores da revista. Repito em relação a ele o que disse para as poesias do Fróis: se lhe parecer dalgum interesse, rogo-lhe que o publique. Como actualmente colaboro bastante em jornais e revistas brasileiras, poderei de quando em quando enviar-lhe alguns desses artigos, ainda que tenha na intenção enviar também artigos originais e inéditos.
     E agora um pedido: como não é prático, nem viável enviar-me as provas dos manuscritos que lhe envio, rogo-lhe o obséquio de as corrigir com o maior cuidado, se acaso publicar alguns deles.
     Os manuscritos seguem em pacote registado. Peço-lhe que acuse a recepção e diga da sua justiça.
     E para terminar novo pedido: VV. editaram aí, entre outras coisas, um livro que me interessaria muito ler: o "Fernão de Magalhães" do V. da Lagoa. Reparo, não obstante que o preço é excessivamente caro para as minhas posses. Não poderia V. arranjar-me uma redução de preço, que me permitisse obtê-lo? Isto sem falar dos volumes do Proença que a Seara igualmente publicou. Rogo-lhe me responda também a isto.
     Um grande abraço do velho amigo, sempre fiel às velhas amizades,
Jaime Cortesão




13 Cartas do Cativeiro e do Exílio (1940), Lisboa, Biblioteca Nacional, 1987
(edição de Alberto Pedroso)

Nota - Cortesão faz-se intermediário dos poemas de António Fróis, que outro não era que não ele mesmo. E, de acordo com Alberto Pedroso, o próprio Câmara Reis, director da Seara Nova pensava tratar-se de alguém de carne e osso, de armas na mão na Guerra Russo-Filandesa. Refira-se que o historiador estava no exílio, tendo integrado o grupo de republicanos em fuga pelos Pirenéus, após a vitória de Franco na Guerra Civil de Espanha.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

1924: António Sérgio a Castelo Branco Chaves


[1924]

Meu caro Amigo:

Pensando no caso, acho que é melhor que seja o meu Amigo quem escreva ao Sardinha. Peço-lhe que enuncie as seguintes verdades:
Primeira. Não quero, não quererei nunca atacar o Sardinha. Pretendo defender o o prestígio da secção crítica da «Lusitânia», que o Sardinha atacou, mandando para a revista um artigo que é um desmentido, de lés a lés, do meu artigo na «Lusitânia» sobre o Múrias. O Sardinha, se fosse discreto, publicava aquilo na «Nação Portuguesa».
(Aqui para nós, e só para nós: o facto é tanto mais estranhável quanto fui eu que concebi e fundei a «Lusitânia». O Afonso e o Sardinha entrariam para o elenco redactorial da revista porque o Afonso mo pediu. Para ver quanto o acto do Sardinha foi pouco generoso, suponha a hipótese de eu sair vencido na polémica. Eis um homem que entra a pedido numa revista criada por mim, para, uma vez lá, minar o prestígio literário de quem gentilmente o recebeu.) Em resumo: o atacante (sem nenhuma necessidade) é o Sardinha. Eu defendo-me, e vou fazê-lo no tom mais amável e amistoso.
Segunda. Não manifestei o desejo, por mim, que o artigo não fosse publicado. Não me obriguem ao ridículo de fazer notar ao Sardinha que não tenho medo da crítica dele. Pelo contrário. Logo disse que, pessoalmente, estimava a publicação do artigo. Para a unidade e prestígio da «Lusitânia», porém, e para evitar os cancans do respeitável público, achei melhor que o artigo do Sardinha fosse publicado na «Nação», e a minha resposta na «Seara». Evitar luta dentro da «Lusitânia». A «Lusitânia» deveria ser reservada para a expressão daquilo que nos é comum; a «Nação» e a «Seara» para a amistosa discussão das divergências. Este meu modo de ver obteve até hoje o assentimento de todas as pessoas que o conhecem, excepto... não sei se realmente há alguma excepção, porque ninguém até hoje, por palavras, mo contestou claramente, depois de eu o explicar com minúcia.
Ora aí está. Não sou inimigo de ninguém, não quero atacar ninguém. Defendo e tenho defendido Ideias que julgo verdadeiras e úteis a Portugal. Posso achar más certas ideias do Sardinha, ou do amigo do Sardinha, o Sr. Múrias, mas sendo e continuando a ser amigo do Sardinha e dos seus amigos. Tenho mostrado bem que não me importo de desagradar e cabe por isso dizer que tenho para com o Sardinha a melhor boa vontade deste mundo, sem que possam duvidar da minha franqueza. Não cuido precisar do Sardinha para coisa nenhuma, não cuido que a inimizade do Sardinha me possa prejudicar, pessoal e literariamente: sou portanto absolutamente sincero quando digo que quero ser amigo do Sardinha, que não tenho o menor desejo de o atacar ou de lhe causar o mais pequenino prejuízo no seu prestígio de historiador. E isto não é virtude; é o reconhecimento intelectual de que há espaço para toda a gente neste mundo, que enfim de contas nos encontramos todos com todos, e não só com os nossos contemporâneos, e que tanta razão tenho para temer que me faça sombra o Sardinha como que me faça sombra o Camões. De mais, não me considero homem de letras: sou um homem que, tendo meia dúzia de convicções, usa da letra redonda como o melhor meio de as divulgar entre os seus compatriotas. Ao próprio Fidelino, que me pretendeu insultar, não me seria, eu só desejo que se emende, e que passe a escrever com mais acerto. Ser inferior a um génio chamado Sardinha, ou chamado Fidelino, não me seria mais doloroso do que ser inferior a um génio chamado Espinosa ou chamado Platão. E por ser verdade o escrevi.
Et nunc et semper

A. Sérgio



Cartas de António Sérgio a Castelo Branco Chaves: 192541955
(edição de Luísa Ducla Soares)


Nota - Os homens da Seara Nova  e do Integralismo Lusitano, convergiram por vezes, em
publicações comuns, apesar da distância política. Esta carta é disso exemplo. Castelo Branco Chaves começou por ser integralista e monárquico, tendo participado na Revolta de Monsanto, em 1919. O primeiro livro, ensaio sobre Fialho de Almeida (1923) fora prefaciado por António Sardinha, que morrerá em 1925. Será um dos mais próximos colaboradores de António Sérgio.


terça-feira, 31 de maio de 2016

Espinho, 12 de Março de 1905: Manuel Laranjeira a João de Barros



Ex.mo Sr. João de Barros:




Um número da sua revista, que me chega agora à mão, veio bruscamente lembrar-me que lhe sou devedor de tanta coisa prometida! e devedor que se está comportando dum modo bem singular.
Peço-lhe que me creia: eu não tive o mais leve intuito em desconsiderá-lo com o meu silêncio e nem sequer tive o intuito a furtar-me a pagar-lhe o que lhe prometi e devo. Isto em mim agora não é alijar uma responsabilidade de mau pagador: é a verdade. Se me conhecesse intimamente estou certo que V. Exª. não só explicaria e perdoaria o meu silêncio amigo (numa significação bem diferente duma cursilería que para aí se chama amizade). Todos nós temos, dormitando no fundo do nosso ser, o nosso demónio (até Antero e Sócrates, que foram integrais como deuses, tinham cada um o seu) a que a psiquiatria de agora chama insultuosamente neurastenia, nevrose, psicastenia... -- e que sei eu? Quando um demónio desperta e reivindica os seus direitos ferocíssimos (ferocíssimos para o nosso pobre ser que tem de sofrê-los) nós esquecemo-nos de tudo -- até de pagar o que devemos. Exponho-lhe estas coisas íntimas e lastimosas, porque estou certo de que me dirijo a um espírito capaz de as compreender. Doutro modo, se, em vez de tratar de si, se tratasse duma criatura vulgar como a abjecção da vida, creia: eu prolongaria indefinidamente o meu silêncio... -- et je m'en foutrais.
Eu desejava dizer-lhe muitas coisas sobre a sua magnífica plaquette dramática (dramática, não; lírica, bela e intensamente lírica); mas teria de ser longo e maçador. Sendo-lhe a si (devendo ser-lhe!) demais a mais indiferente a minha opinião sobre o valor artístico dela. De resto, uma opinião, boa ou má, seja de quem for, sobre uma obra de arte, não a desnivelará uma linha sequer do lugar justo que o seu valor real lhe marcou. Ninguém, nem Deus (refiro-me a Deus num sentido metafórico!), seria capaz de anular um átomo ao valor da obra shakespeariana, ou de pôr um átomo de génio nos medíocres furtos do Sr. J. D. Uma obra é o que é -- diga-se dela o que se disser. A crítica é apenas um comentário que traduz uma impressão ou uma análise: pode explicar a obra de arte, mas nunca validá-la ou invalidá-la. Nestes termos, a crítica, para o autor da obra de arte, não é lisonjeira, nem agressiva: é indiferente (deve sê-lo!). Por isso não estou a massacrá-lo com a minha admiração.
E quando solverei eu a grande dívida de enviar-lhe o artigo prometido?
Quando o meu demónio deixar.

Espinho, 12 de Março de 1905.
Criado sem préstimo
M.to Ob.do e Admirador

Manuel Laranjeira






Cartas (edição de Ramiro Mourão, 1943)

Nota - Carta extraordinária de um espírito brilhante e torturado. Por um lado, pela forma como se expõe a João de Barros na sua assustadora (sabêmo-lo suicida) vulnerabilidade; por outro, no seu agudíssimo conceito sobre a recepção literária e as suas óbvias fragilidades. A revista referida é Arte e Vida, dirigida pelo destinatário; "J. D." -- trata-se, evidentemente, de Júlio Dantas.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Rio de Janeiro, 10 de Setembro de 1934: Jorge Amado a Ferreira de Castro

Rio de Janeiro, 10 de Setembro de 1934.


Meu caro Ferreira de Castro.

Acabo de voltar ao Rio e encontrei na Ariel a sua última carta. Agradeço os seus conceitos sobre Cacau Suor.
Venho de passar quatro meses na Baía, recolhendo um resto de material para um romance sobre negros. Chamar-se-á Jubiabá, nome de um macumbeiro de lá e espero fazer um livro forte, fixando nas duas primeiras partes -- Baía de Todos os Santos e --Grande Circo Internacional -- todo o pitoresco do negro baiano -- música, religião, candomblé e macumba, farras, canções, conceitos, carnaval místico -- e toda a paradoxal alma do negro -- raça liberta, raça das grandes gargalhadas, das grandes mentiras e raça ainda escrava do branco, fiel como cão, trazendo nas costas e na alma as marcas do chicote do Sinhó Branco. A terceira parte --A greve -- será a visão da libertação integral do negro pela sua proletarização integral. Que acha v. do plano?
Lhe envio um Boletim de Ariel onde falo em V. Aliás a nota está besta. Mas vale a intenção. V. recebeu meu artigo sobre Terra Fria? Acuse o recebimento.
Mande dizer o que v. está fazendo. Qual o livro que o preocupa no momento? V. tem um grande público aqui no Brasil. Aliás porque v. não envia pro Ariel uma nota sobre a nova literatura de Portugal? Aqui há um certo movimento intelectual que está fazendo alguma coisa. O público nos apoia intensamente. Compra nossos livros. A crítica, é natural, se divide em descomposturas e elogios. Mande o artigo. Porque v. não aparece aqui de novo? Pelo que depreendo dos seus livros v. esteve por aqui em 24. Gostaria de ser seu cicerone numa viagem longa através do Brasil. Vendo as casas coloniais da Baía. Material que em suas mãos daria romances como A Selva.
Me escreva. Agora não saio do Rio tão cedo. O Lins do Rego está em Maceió onde reside. Mandei em carta suas lembranças para ele.
Abrace o seu amigo e admirador
Jorge Amado
Boletim de Ariel
R. Senador Dantas -- 40 -- 5.º
Rio.








Publicada por Ricardo António Alves, Anarquismo e Neo-Realismo -- Ferreira de Castro nas Encruzilhadas do Século (2002) e na 2.ª edição, refundida, de 100 Cartas a Ferreira de Castro (2006).

Nota - Grande documento, não apenas pela evidência do programa literário de Jorge Amado, como pelo que revela da influência que Ferreira de Castro tinha junto dos jovens escritores nordestinos brasileiros, cuja repercussão na geração neo-realista portuguesa é consabida. Castro e Amado começaram a
corresponder-se neste anos de 1934, mas só travariam conhecimento pessoal em 1948, em Paris, quando o autor brasileiro, então um activo militante comunista. teve de exilar-se. Essa amizade manteve-se e fortaleceu-se ao longo das décadas, tendo, por várias vezes e em diversas situações Jorge Amado evocado Ferreira de Castro, comovidamente. Das evidências dessa forte relação, basta lembrar que o o autor de A Selva é o autor português mais referido em Navegação de Cabotagem, as memórias de Jorge Amado.
Ferreira de Castro viria a ser um dos dedicatários de Jubiabá (1935), um dos romances mais marcantes de Amado.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Coimbra, 18 de Fevereiro de 1927: José Régio a João Gaspar Simões

Coimbra, 18 de Fevereiro de 1927

Meu caro Simões:

Recebi  a sua carta, justamente quando pensava em lhe escrever. Muito lhe agradeço o ter pensado tanto no jornal e em mim que se me antecipou. As notícias são: O Branquinho partiu há 8 dias para Lisboa, de modo que fiquei sozinho em Coimbra a preocupar-me com a saída do primeiro número da Presença. Escrevi a alguns presuntivos colaboradores da dita, e recebi: Versos do António Navarro (de que Você gostará mais que do Soneto da Contemporânea); informação do Mário Saa de me mandar brevemente qualquer coisa; informação do Martins de Carvalho de mandar também brevemente um trecho da sua dissertação; esperanças do meu irmão de também brevemente mandar um desenho com algumas palavras sobre arte. Logo que todos estes «brevemente» sejam «presente» -- o número sairá. Além desta colaboração, o primeiro número terá: Versos do Branquinho, do Bettencourt e do Fausto; prosa sua, do Almada e minha. Como vê, já a dificuldade de encher espaço vai sendo substituída pelo do espaço para conter... No entanto tudo se arranjará, e creio que o primeiro número da «Presença» gritará de facto: Presente! Peço-lhe para mandar o seu artigo logo, mesmo logo, que esteja pronto. Queria escrever-lhe mais, mas escrevo-lhe da Central, e com uma pena de tinta permanente... Quer isto dizer que a tinta me falta a cada palavra que escrevo, porque nunca me afiz a semelhantes viadutos de tinta. Escreva, sim? e, uma pergunta: Quando vem dar uma fugida cá?
Saudades dos amigos, e um abraço do
José Maria dos Reis Pereira


in João Gaspar, José Régio e a História do Movimento da «presença» , Porto, 1977


Nota - Tem essencialmente interesse documental, porque trata do início da presença, uma das mais importantes, talvez a mais importante e interessante revista literária portuguesa do século XX, cujo n.º 1 sairia a 10 de Março seguinte. 

O irmão de Régio era, obviamente, o pintor Júlio [Maria dos Reis Pereira], que foi também o grande poeta Saul Dias.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Lisboa, 29 de Junho de 1884: Cesário Verde a Mariano Pina



Mariano Pina, meu caro Director


    A sua «Ilustração» impressa neste tumultuoso Paris, em grande formato, composta por tipógrafos franceses que devem achar muito drôle a abundância do «til» e a falta do «acento grave», anunciada com réclames estonteantes e um taraze ensurdecedor nesta pacífica Lisboa tão morna e tão dorminhoca, a sua «Ilustração» duma tiragem muitíssimo reparável, fez-me nascer o desejo de lhe oferecer a Você a minha colaboração. Conquanto V. não me enviasse o seu cartão de convite, o meu ideal de luxo e a minha pretensão de ver os meus versos numa elegante toilette parisiense, instigam-me a recomendar-lhe um pequeno poema que fiz com todo o esmero de que sou capaz, e cujas provas eu quereria ver pessoalmente no caso de ser publicado. Compõe-se de heróicos e alexandrinos, numas 130 quadras que no tipo miúdo (como é mais distinto e mais discreto para a poesia) encherão essas colunas de Hércules durante pouco mais de 2 páginas.

     Mas a direcção literária ou administrativa duma publicação como a sua tem dificuldades. Você tem de consultar os grossos apetites dos seus leitores e os fastios nevrálgicos das suas leitoras, e realmente eu não sei se o devia embaraçar com esta exigência.

      Em todo o caso sempre lhe direi que é um trabalho réussi, correcto, honesto e dum sentimento simples e bom. Chama-se «Nós», e é talvez a minha produção última, final. Trato de mim, dos meus, descrevo a propriedade no campo em que nos criámos, a fartura na vida de província, as alegrias do labor de todos os dias, as mortes que tem havido na nossa família e enfim os contratempos da existência. Para animar tudo isso, para dar a tudo isso a vibração vital, eu empreguei todo o colorido, todo o pitoresco, todo o amor que senti, que me foi possível acumular.

     Ora como esta obra começa com a descrição da Febre-amarela e do Cholera-morbus quando nós fugimos em crianças, lá para fora, e depois continua com as descrições do nosso verão adusto e forte; e como nós agora estamos com a ameaça da epidemia e Julho e Agosto vão começar, eu pretendia que estas coincidências convergissem, publicando imediatamente.

     É uma paixão pela arte que me faz pensar assim, não julgue V. crueldade. A famosa ciência de Pasteur e dos outros há-de atalhar o mal e o pavor será a maior dor que se sentirá.

     Outra coisa: Sabe V. que tenho saudades desse aborrecido mês que vivi em Paris tão contrariado e esmagado, e que hoje fiz volte-face, e agora digo constantemente bem dessa França, desses Franceses e dessas Francesas, como um doido ou um apaixonado?

     Bem, escreva-me Você sem demora com a sua decisão.

     Seu confrade amigo e obrigado

Cesário Verde


Rua dos Fanqueiros, 2 -- Lisboa

in Elza Miné, Mariano Pina, a Gazeta de Notícias e A Ilustração: Histórias de Bastidores Contadas por Seu Espólio, separata da Revista da Biblioteca Nacional, s.2, vol. 7 (2), Lisboa, 1992. 

Nota - Do sentido da oportunidade. (Pina era director da Ilustração, que se
publicava em Paris.) Carta emocionante do enorme e pobre Cesário (1855-1886) sobre um dos seus grandes poemas. Emocionante, porque vê-loouvi-lo falar da sua obra resgatada por Silva Pinto à dispersão, é, de algum modo, trazê-lo de além-túmulo ao nosso convívio. Bendito Mariano Pina, autor menor, porém influente da universo literário português de oitocentos.