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domingo, 20 de janeiro de 2019

Portalegre, 22 de Agosto de 1907: Fernando Pessoa a Armando Teixeira Rebelo

     Hotel Brito, Portalegre


     22 de Agosto de 1907




     Venerável porção de existência terrena!



     Nuns poucos momentos de concatenada actividade mental, não desassistida dos fumos carnais da bebida alcoólica -- nada mais nada menos do que vinho -- não exclusivo a esta localidade, a minha alma sentiu, como um suspiro mental, a necessidade de dar expressão do seu presente estado e tendências a um cérebro amigável como o teu.


     Solitário e silente no meu transitório lugar de existência no hotel mencionado no cabeçalho desta explosiva epístola de uma sobrecarregada alma, sentindo em redor de mim um mundo moralmente frio e materialmente quente -- abaixo de zero quanto à minha alma e não longe dos 40 quanto ao meu corpo -- nestas circunstâncias angustiosas e inspiradoras veio até minha ideia de que talvez o processo desta composição epistolar possa ser subjectivamente conducente a um alívio do meu fardo terreno neste momento, possa ser o «bálsamo em Gilead» sonhado por Poe, para o meu espírito desgarrado.


     Daí esta carta.

     Portalegre é um lugar em que tudo quanto um forasteiro pode fazer é cansar-se de não fazer nada. As suas qualidades componentes parecem-me conter (depois de uma profunda análise), em quantidades relativas e incertas, calor, frio, semiespanholismo e nada. O vinho é bom (embora não daqui, creio), mas é decididamente alcoólico, especialmente quando a jarra de água está na outra extremidade da mesa e tu te esqueces (quer dizer, eu me esqueço) de o pedir. O estilo desta carta é disso uma prova decisiva. Farei dela registo para que uma tão brilhante produção do meus espírito não se perca no correio.


     A desmontagem e embalagem da tipografia está a levar um tempo danado -- poeticamente falando, é claro. Apesar disso, os homens têm trabalhado bastante depressa e tenho-os olhado e observado com a maior das energias.


     Acredito sinceramente que, se tivesse que aqui ficar um mês, teira de ir para Lisboa e depois para o Hotel Bombarda. Mal podes imaginar o hiperaborrecimento, o ultra-estafanço-de-tudo, a absoluta sensação de o-que-há-de-fazer-um-tipo num sítio destes, que reinam no meu espírito! Encontrei um livro para ler. Estou ansioso por voltar a Lisboa; penso contudo que ainda terei de ficar aqui mais três dia.

O Alentejo visto do comboio

                                                            Nada com nada em sua volta
                                                            E algumas árvores no meio,
                                                            Nenhuma das quais claramente verde,
                                                            Onde não há vista de rio ou de flor.
                                                            Se há um inferno, eu encontrei-o,
                                                            Pois se não está aqui, onde Diabo estará?

Passa bem, ó tu

F. Nogueira Pessoa



     P.S. -- Não me escrevas para Portalegre. Poderei já aqui não estar. Espera o meu regresso a Lisboa. Aí falaremos então.

Fernando Pessoa, Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas,
Mem Martins, Publicações Europa-América, 1986
(edição de António Quadros)

     Nota - Pessoa tem 19 anos, e acaba de morrer-lhe a avó Dionísia. Está em Portalegre, para, com a herança recebida, comprar uma máquina tipografia para a projectada editora Íbis.  Calcula-se o deserto. O humor é inexcedível, razão tem a sobrinha. Escrita originalmente em inglês, pois Teixeira Rebelo, seu colega na Faculdade de Letras, criara-se igualmente na África do sul. A versão portuguesa é de António Quadros.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

S. Miguel de Seide, 17 de Abril de 1870: Camilo Castelo Branco a destinatário não-identificado

Ex.mo Snr.

Se vê que a minha carta não tem muito descuidos gramaticais, pode publicá-la. Não me lembro se há lá coisa que moleste o próximo; se vê que há trace. V. Ex.ª não deve ignorar que eu acato o próximo e só por descuido lhe tenho assacado aleives que me trazem assaz penitenciado.
Agradeço-lhe a estimação que dá ao futilíssimo livro dos Brilhantes do Brasileiro. Parece-me que só tem uma dúzia de paginas sofríeis, são as últimas que me saíram da alma com lágrimas. As outras são pura chalaça -- o espírito português, único a meu ver, que pode sair das nossas oficinas de caricaturista.
A nossa sociedade não dá para mais. Se tirarem a Portugal, o brasileiro e ao Jardim das Plantas, de Paris, os ursos, não há aí que ver. (Esta carta faça-me o favor de a não publicar. Isto entre nós é maledicência muito à puridade).
Dê-me as suas ordens.
De V. Ex.ª
adm.or afectivo e ob.do

Camilo Castelo Branco
S. M. de Seide, 17 de Abril 70.






Publicada por António Cabral, camiliano e queirosiano de mérito (pertence-lhe a primeira biografia de Eça de Queirós publicada em Portugal, datada de 1916), em Homens e Episódios Inolvidáveis (1947).

Nota -  Carta cujo destinatário não está identificado, muito divertida, pelos conceitos de autoapreciação de Camilo e pela forma desprendida com que se refere à narrativa publicada no ano anterior.