quarta-feira, 17 de abril de 2019

Coimbra, 2 de Março de 1903: João de Barros a Teixeira de Queirós

Illmo. e Exmo. Senhor

Permita V. Excia. que eu, agradecendo-lhe muito a sua carta, procure justificar a ideia dos meus versos.

(continua)

nota - resposta a esta carta.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Lisboa, 5 de Fevereiro de 1949: Marcelo Caetano a José Magalhães Godinho

Lisboa, 5 de Fevereiro de 1949

Exm.º Sr. Dr. José de Magalhães Godinho:

Acuso a recepção da carta de V. Ex.ª, datada de ontem, à qual tenho a responder o seguinte:
1.º -- A entrevista a que V. Ex.ª se refere não foi redigida por mim. Na conversa que tive com o representante da ANI pediu-me este que desse um panorama das correntes da oposição; ao tentáculo, quando me referi à cisão do Partido Socialista, pronunciei efectivamente o seu nome e de outras pessoas que, segundo me constava por informações diversas, representavam a tendência da SPIO. Não é minha responsabilidade directa, portanto, a investidura de V. Ex.ª na chefia desse sector socialista ou a sua designação como pessoa mais representativa dele.
2.º -- Em qualquer hipótese nunca me passou pela cabeça que o dizer-se, de mais a mais neste período, que A ou B pertence a uma facção possa ser considerado uma denúncia, tratando-se ainda por cima de quem nunca escondeu as suas, aliás respeitáveis, convicções oposicionistas.
3.º -- Agradeço os esclarecimentos que me dá sobre a sua posição ideológica e de bom grado rectificarei a informação constante da minha entrevista acerca da sua simpatia acerca da sua simpatia pela colaboração com os comunistas.
À semelhança de V. Ex.ª, reservo-me o direito de fazer desta carta o uso que entender conveniente e sou,

de V. Ex.ª, com a devida consideração.




nota - resposta a esta carta. In José Magalhães Godinho, Pela Liberdade, Lisboa, Publicações Alfa, 1990

quinta-feira, 11 de abril de 2019

29 de Maio de 1930: H. Lopes de Mendonça a Ferreira de Castro

Meu Ex.mo e prezado Camarada

Li com imenso interesse o romance A Selva, com que teve a gentileza de me brindar. Confirmaram-se e melhoraram ainda as belas impressões que me tinha deixado Os [sic] Emigrantes. Procuro fugir ao tom pedantesco para francamente, sem ares de pedagogo que seriam descabidos, lhe manifestar o meu sentimento de viva admiração. Sem sombra de lisonja, afirmo a V. Ex.ª que através da sua visão de português vejo melhor o interior do Brasil do que na retina dos escritores brasileiros. Podia atribuir-se isto à afinidade que existe entre as visões de dois europeus. Mas, seja como for, é necessária uma grande energia no descritivo e uma intensidade grande de colorido, para que os quadros se me apresentem tão cheios de vida cinematográfica. Creia V. Ex.ª que é com sincera efusão que o cumprimento e o felicito.
Faltaria a um dever de consciência para com um artista do seu alto valor, se muito de relance não indicasse o principal senão que se me deparou no seu livro. A acção romântica pareceu-me desconexa um pouco, e até às vezes obscura em consequência de certas falhas de narrativa. Este senão é contudo sobejamente resgatado pelas eminentes qualidades que tive o grande prazer de apontar.
Há meses -- não sei se lhe constou -- saí com o peso dos meus 70 e tantos ao escritório da rua do Carmo para ter o prazer, ainda inédito, de apertar a mão que tão belos livros escreve. Senti não o ter conseguido. E agora maior pesar tenho de ainda de não se me deparar ensejo de manifestar verbalmente a V. Ex.ª a minha admiração e a minha simpatia literária, e de desenvolver algumas considerações que a leitura dos seus livros me sugere.
Não o podendo fazer, sirvo-me deste meio para reiterar as minhas felicitações e os meus agradecimentos, subscrevendo-me, com a maior consideração e estima.

De V. Ex.ª
Adm.or e cam.ª obg.mo

H. Lopes de Mendonça

S/C
29-V-30

nota -- Publicado por Ricardo António Alves, Cartas Inéditas a Ferreira de Castro, Sintra, Vária Escrita #1, Câmara municipal, 1994. Lopes de Mendonça (1856-1931), autor dos versos de A Portuguesa, além de erudito historiógrafo da náutica dos Descobrimentos, era um exigentíssimo estilista. A sanção de uma figura deste peso já histórico -- concorrera com Eça de Queirós a um mesmo concurso promovido pela Real Academia das Ciências, tendo o seu Duque de Viseu logrado alcançar o discutido favor do júri em detrimento de A Relíquia --, constituiria para o jovem literato que se fez a si próprio uma distinção de modo algum desprezável. Vinha já longe o tempo das ousadias alardeadas pelo Mas...(1921).


sexta-feira, 5 de abril de 2019

6 de Março de 1927: Raul Proença a Fidelino de Figueiredo

Vamos enviar para os jornais portugueses a resposta às suas miseráveis calúnias. Se a publicarem, intimamo-lo a que nos responda! Se a não publicarem, devo adverti-lo de que não há maior ilusão do que pensar que sempre se negará em Portugal aos acusados o direito de defesa. Um dia há-de chegar em que a minha pena possa infligir-lhe nos principais jornais do país o castigo que merece. Serei implacável. Terá o direito de se defender por sua vez. Isso não impedirá que fique desfeito em lama.
O sr. (tão insignificante, mas ao mesmo tempo tão inconsciente) não faz a menor ideia das responsabilidades trágicas que acaba de assumir. Não é só pela calúnia que terá a responder. Será também pela destruição sistemática da nossa obra, já iniciada pela liquidação da tipografia. O seu ódio pessoal levou-o a tratar como inimigo a Biblioteca. Pagá-lo-á! Um dia saberá como a minha pena e as minhas mãos são duras quando têm a zurzir miseráveis da sua laia.
6 Março 1927
Raul Proença

Nota -- in Raul Proença, O Caso da Biblioteca,  Lisboa, Biblioteca Nacional, 1988; edição de Daniel
Pires e José Carlos Gonzalez. Um caso triste de contenda entre dois dos mais brilhantes intelectuais portugueses da sua geração, na sequência do saneamento de Proença (1884-1941), Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro e outros da direcção da Biblioteca Nacional, assumida de novo por Fidelino (1888-1967), lugar que ocupara no tempo do sidonismo. Nunca chegariam a cruzar-se: quando Proença regressa a Portugal -- depois da participação no 3/7 de Fevereiro de 1927 e consequente expatriação -- será a vez de Fidelino estar exilado, por décadas. 

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Londres, 20 de Abril de 1911: M. Teixeira-Gomes a João Chagas


Londres, 20 de Abril de 1911

Meu caro Amigo:

Respondo à sua carta de 15, a primeira que daí recebo dando-me informações de utilidade.
Como sabe não temos política internacional indicada, de forma que o trabalho dos representantes da República no estrangeiro far-se-á bastante à solta, o que seria um bem, sendo eles sinceros e patriotas, se andassem bem informados. Mas daí não vêm informações oficiais que esclareçam coisa alguma, e os amigos políticos andam demasiado absorvidos com as suas respectivas ocupações para pensarem na necessidade de ter sempre esta Legação -- ou o seu encarregado -- bem a par do que se passa em Portugal. No entanto, agora é que eu constato, toda a nossa vida social, a nossa estabilidade política, a nossa nacionalidade, a conservação das nossas colónias, tudo depende, absolutamente, da Inglaterra, e parece-me que serão precisos dezenas de anos de administração modelar, para nos libertarmos da sua tutela, se é que isso é realizável.
Ora, pense o meu amigo que é aqui que reside a família real portuguesa, conservando relações excelentes com a corte inglesa e tratando por via do Soveral com os Lordes que possuem e dispõem incondicionalmente de quase todos os jornais, e avaliará como a minha missão é fácil. Acresce que não temos vintém para as mínimas despesas essenciais e para as mais simples gratificações ou presentes deve o ministro  buscar recursos da sua própria receita. Você diz-me que cuide na publicidade dos meus actos em Portugal. Do essencial recebe o nosso ministro relatos, pelos cortes dos jornais que se lhe mandam. Veja se algum jornal, dos que lhe pertencem, já se referiu a eles. Para bem tratar desse assunto seria forçoso tomar secretários particulares e redobrar de trabalho: ora, já não é possível dar mais. desde que aqui estou não distraí das minhas obrigações meia dúzia de horas e parece-me que está tudo por fazer. Devo dizer-lhe que estou satisfeito com os meus secretários da Legação. O Câmara Manuel é um solteirão habituado à repartição e que dá muito boa conta do seu recado e o Ferreira de Almeida talvez um pouco socancra, trabalha, no entanto, com muita consciência e posso agora afirmar-lhe que ambos se me têm mostrado colaboradores ideais. Tenho também um rapaz inglês -- que eu pago da minha algibeira -- inteligente e zelosíssimo, que presta muitos bons serviços, e todos nós trabalhamos na medida das nossas forças. É para notar que por lei esta Legação devia ter dois secretários -- além dos adidos -- e somente tem um secretário e um adido que exerce as funções de segundo secretário. E é quando a república procura tomar força que semelhante Legação está tão bem provida de funcionários!
Agora temos, palpitante, a questão de Lourenço Marques. É um caso seriíssimo.
A imprensa, evidentemente assoprada pelos nossos vizinhos africanos, quer fazer na Inglaterra uma atmosfera favorável a qualquer golpe de mão, como seria um raid promovido pela judiaria da União Sul-Africana, e o mais curioso é que o Governo inglês instado pelo cônsul de Lourenço Marques, e intimado pela imprensa inglesa a mandar navios de guerra para aquele porto, ainda não conseguiu pôr nenhum dos couraçados que compõem a esquadra do Cabo em termos de se fazer ao mar. Agora anuncia-se como certa a saída de um cruzador amanhã, do Cabo para Lourenço Marques.
Para fazer ideia do que se passa naquela nossa colónia valeram-me umas conferências que aí tive com o Baltasar Cabral e o Freire de Andrade, e foi assim que, ao anúncio espalhafatoso da revolução em Moçambique, anarquia em Lourenço Marques, proclamação de uma nova república sul-africana, etc., eu pude afirmar nos jornais que tudo se reduzia a uma exaltação, sem consequências, dos elementos republicanos que exigiam do Governo da Metrópole a demissão de alguns empregados que o Governo Provisório conservara. Dois dias estive sem receber daí esclarecimentos, que pedi logo à publicação das primeira notícias, e por fim veio uma coisa a dizer o que eu já anunciara aqui. Mas o caso, repito, é seriíssimo. Olhem bem, para ele.
Já pedi o folheto do Columbano, e pelo menos duas bandeiras: uma para a Legação, e outra para dar à Sociedade Shakespeariana, que arvora ainda a antiga, e a quem é costume as nações presentearem com as suas bandeiras. Espero que atenderão sem demora o meu pedido, tanto mais que o fiz particularmente, e com muita instância, ao próprio Bernardino. -- Pelo que tenho descoberto foi o bispo do Funchal quem se encarregou de arranjar -- de acordo com os Jesuítas, os emissários para a propaganda anti-republicana na Europa, mandando um para aqui e os outros para Paris, Roma e Berlim. O daqui chama-se Mendes -- mas não sei que profissão tem. Sei porém que é muito inteligente, que está informado de quanto se passa em Portugal, e vai receber ordens a Richemond com grande frequência.
Logo que saiba alguma coisa do que está em Paris, informá-lo-ei. O célebre padre Cabral trabalha actualmente na Holanda. Ainda lhe alcançaram no Museu Britânico uma colocação bem remunerada, mas ele recusou-a, para ficar livre. Parece-me que já temos conversado bastante.
Veja você se me pode dar, antes de sair daí, algumas informações mais, sobretudo sobre o que se espera dos resultados das eleições: se há probabilidades de levar à Câmara algumas criaturas de jeito. -- Anuncie a sua chegada a Paris por telegrama.
Do coração

Nota -- Correspondência I -- Cartas para Políticos e Diplomatas, Lisboa, Portugália Editora, 1960. Edição de Castelo Branco Chaves. Manuel Teixeira-Gomes, além de ser um dos grandes escritores portugueses do século XX, foi igualmente um extraordinário diplomata, o rosto da República em Londres, o mais importante posto diplomático do país, então. Dos desafios, a carta é eloquentemente elucidativa. Foi também Presidente da República (1923-25), o único a resignar, enojado com a política de porcaria, com grande vantagem também para a nossa literatura, pois mais de metade da sua obra é publicada após a renúncia ao cargo.  Chagas, embaixador em paris, viria a sobraçar daí a uns meses a pasta do Negócios Estrangeiros.




quarta-feira, 20 de março de 2019

Fontanelas, 6 de Abril de 1966: Vergílio Ferreira a Alberto da Costa e Silva

Fontanelas, 6 de Abril de 1966.

Caríssimo Alberto,
Foi uma grande alegria receber notícias tuas e à falta de uma boa cavaqueira nesta Lisboa que se me vai envelhecendo rapidamente, aqui estou a conversar contigo enquanto a noite não vem de todo. Entretanto espero que tenhas recebido um romance meu -- Alegria Breve -- que te dirá talvez mais de mim do que direi aqui. É uma confissão de cansaço e daí talvez que o estejam aceitando. Porque estamos todos tão cansados. Por mim venho-me habituando de há muito e por isso a fadiga entrou sem fazer mossa. Mas os camaradas da ortodoxia estão aflitos. A famosa História está sempre jovem; eles casaram com ela, mas já estão velhos para lhe darem despacho. Assim se lamentam pelos cantos, enquanto a bela História os vai corneando alegremente.
E assim é que, meu caro Alberto, os meus ensaios os não molestaram muito. Os problemas caseiros correm-lhes mal e quase é um conforto que outros lhos lamentem. Porque isto vai mesmo mal. Na política, mas antes na cultura. Tudo evolui tão rapidamente, que está a gente a chorar uma desgraça e já outra bate à porta. Com as desgraças dos ortodoxos não me importo muito. Mas há as minhas -- há as nossas. Já reflectiste um pouco no que vai pela Arte? O mundo atravessa uma crise da puberdade e, como a natureza nesta quadra da primavera, está pondo a casa em ordem. Mas por ora deita apenas fora os trastes velhos, como a natureza se limpa do que já apodreceu. O pior é que já cá não estarei -- nem talvez tu -- quando tudo for mobilado de novo.»
A Arte é a grande reveladora da vida. E é por isso que ela se despedaça. Mas antes isso que o museu de Grévin. E os bonecos de cera que nos queriam impingir. Tudo isto é fímbria -- dirás tu -- e efeito passageiro desta Semana de Trevas. Não é. Além de que sempre tenho procurado assumir tudo -- mesmo os funerais. Assim os aceito em calma sufocante como os casamentos. Que a sorte me proteja com a mesma calma quando o meu funeral se aproximar.
Pouco contas de ti, da Verinha, dos meninos. Verinha melhor? Vocês fazem muita falta. Sabíeis construir um recanto bem agradável para um refúgio desta estopada que é Lisboa. Tu, por exemplo, deves ter seguido algum curso altamente especializado para fazer amigos. Ou veio-te isso no sangue? Porque os breves anos aqui passados deixaram uma grande saudade em todos os que te conheceram.
E tu, não tens escrito? Deixaste a lira por cá? Ela tinha pelo menos, com efeito, algumas cordas portuguesas.
Um grande abraço da Regina e meu para Verinha e para ti.

Vergílio


Nota - in JL-Jornal de Letras, Artes e Ideias, Lisboa, 6 de Janeiro de 2016, número dedicado ao centenário do nascimento de Vergílio Ferreira. Tanto Alegria Breve como o primeiro volume de Espaço do Invisível são de 1965, enquanto que em 1966, ano desta carta, Neste ano, Alberto da Costa e Silva publicará Livro de Linhagem (1966).


domingo, 10 de março de 2019

Espinho, 4 de Março de 1904: Manuel Laranjeira a Luís Pinto Ribeiro

   Meu caro Luís:

Agradecido pela tua carta e pelos jornais que me enviaste. Vamos indo. A imprensa foi amável. Até o Diário Ilustrado foi bondoso. A única amabilidade que o dito jornaleco me podia fazer a ponto de lisonjear-me foi fazendo o que fez. Tu dizes que aquilo é porco. Não, meu velho! Não!!! não, mil vezes não! Aquilo o que é -- é mas é tolo. Unicamente tolo! Sabes? O Mundo espantou-me pela honestidade. O homem que escreveu a crítica do meu prólogo dramático pode ser um burro, dizer imbecilidades; mas o que ele é -- é um homem honesto., dizendo as coisas como as sente, sem preocupações de coteries. Meu filho! Dou-me por imensamente satisfeito em ter escrito um livro que, mais mágico que a lanterna de Diógenes, me fez topar na vida um homem honesto. Vale a pena ter escrito um livro por tal preço. Porque, meu Luís, mais do que o talento vale a honestidade.
Uma outra coisa para mim significativa resultou dessa récita. E foi o seguinte: ficar eu sabendo dum modo certo que em Portugal existe um público. O que nos falta é um teatro. Público ávido de coisas boas há-o; o que não há é essas coisas boas. Isto é o que ficou nitidamente demonstrado. Já não há dúvidas sobre tal. É qualquer coisa de importante saber-se isto, não achas?
Encontrei teu irmão, falei-lhe, mas ele andava tão distraído que mal me pôde responder. Disse-me que amanhã fazias anos. Parabéns e adeus.
Um abraço deste teu amigo

     Espinho, 4 de Março de 1904.
Manuel Laranjeira.

P.S. -- Se houver por aí mais algum jornal que se refira ao ...Amanhã e que tu saibas, envia-o, sim?

Teu

M. Laranjeira

Nota - Cartas de Manuel Laranjeira, Lisboa, Relógio d'Água, Lisboa, s.d, a partir da edição de 1943, de Ramiro Mourão. Amanhã, prólogo dramático, primeiro título do autor. 

quinta-feira, 7 de março de 2019

4 de Janeiro de 1973: Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano

4/I/73
          Exmo Senhor Prof. Doutor Marcello Caetano,
          Ilustre Presidente do Conselho

     Senhor Presidente,

Como V. Ex.ª sabe, o Prof. Francisco Moura encontra-se detido pela DGS em Caxias desde a noite de 31 de Dezembro. A este respeito permita-me V. Ex.ª que leve ao seu conhecimento o seguinte.
Desde que fui informado da detenção do Prof. Moura, procurei inteirar-me de todos os acontecimentos com ela relacionados, colhendo informações e depoimentos rigorosamente fidedignos. É-me assim possível afirmar ser totalmente infundada qualquer acusação ou suspeita de que o Prof. Moura haja sido organizador ou tenha desempenhado qualquer papel na orientação dos actos levados a cabo na capela do Rato. Aliás, o Prof. Moura esteve ausente do País nos dias que os precederam e não teve deles conhecimento até ao momento em que pessoas já preocupadas com a direcção que os mesmos estariam a seguir lhe pediram para comparecer. Chegou à capela cerca de uma hora e meia antes da intervenção policial e durante esse período limitou-se a assistir em silêncio ao que se estava passando.
Dizem-me que se suspeita de uma ligação entre a iniciativa que conduziu aos actos efectuados na capela e a deflagração de explosivos, acompanhada da difusão de panfletos, ocorrida no dia 31 de Dezembro. Gostaria, porém, de assegurar a V. Ex.ª que, conhecendo de muito perto, como V. Ex.ª sabe, o Prof. Francisco Moura, com quem tenho muito contacto, estou talvez melhor colocado que ninguém para poder considerar completamente absurdo que acerca dele se possa pôr a hipótese de ter qualquer relação  com organizações cujos meios de acção sejam dessa natureza.
De todo o modo e independentemente dos juízos que se formulam a respeito das posições que noutras circunstâncias têm sido assumidas pelo Prof. Francisco Moura, com cujas opiniões e atitudes  eu mesmo me encontra não raras vezes em discordância, estou certo de que V. Ex.ª concordará com que se trata de uma pessoa merecedora do máximo respeito. Ora, é-me doloroso ter de comunicar a V. Ex.ª que, através de informações recebidas da família, que ontem foi autorizada a visitá-lo, tenho de concluir que o Prof. Moura não tem sido efectivamente tratado com a atenção e consideração que lhe são devidas. de facto, além de dar sinais muito visíveis de cansaço físico e moral, o Prof. Moura apresentou-se no parlatório com o cabelo cortado (!) e queixando-se do frio, sono e isolamento. Das suas palavras parece inferir-se que se encontra numa cela onde não entra a luz do sol.
Queira aceitar, Senhor Presidente, com as expressões da minha mais elevada consideração, os melhores cumprimentos do

A. Sedas Nunes

Nota - Publicada por José Freire Antunes, Cartas Particulares a Marcello Caetano, vol. I, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1985. Em apreço está um momento decisivo para a sobrevivência do regime, o da Vigília da Capela do Rato, que conjuga os sectores católicos contrários à guerra colonial, sectores da esquerda armada, como a acção certamente concertada, das Brigadas Revolucionárias, e os efeitos, que no mês seguinte trará à continuidade da chamada 'Ala Liberal' no apoio a Caetano.


terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Paris, 6 de Agosto de 1894: Eça de Queirós a Alberto de Oliveira

Paris, 6 Agosto 1894.


Ex.mo e caro amigo:


Não me queira mal, ou esqueça o mal que me tenha querido por eu só tão tarde ter agradecido o elegante livro.
«O coração põe e a Vida dispõe»: e a minha tão tiranicamente se tem comportado que não me deixa tempo para cumprir uma obrigação logo que a ela se mistura muita devoção.
Foi com alvoroçada simpatia que abri as folhas das Palavras Loucas. Mas Loucas porquê? Através delas só entrevi Razão, e madura, ou na fácil véspera de amadurecer. E nelas próprias só vi precisão, limpidez e ritmo que são qualidades de Razão e das melhores. É por esta linda arte de bem-dizer que eu o quero sobretudo louvar, -- ou antes felicitar, porque a Prosa é um dom, e dos Deuses, como a Beleza. Enquanto às suas ideias -- não lhe parece que o Nativismo e o Tradicionalismo, como fins supremos do esforço intelectual e artístico, são um tanto mesquinhos? A humanidade não está toda metida entre a margem do rio Minho e o cabo de Santa Maria: -- e um ser pensante não pode decentemente passar a existência a murmurar estaticamente que as margens do Mondego são belas! Por outro lado o Tradicionalismo em Literatura já foi largamente experimentado, durante trinta largos anos, de 1830 a 1860 -- e certamente não resultou dele aquela renovação moral que Portugal necessita, e que o meu amigo dele espera. Tivemos xácaras e romanceiros, e lendas e solaus, e moiros, e beguinos, e besteiros, e sujeitos blindados de ferro que gritavam com magnificência -- «Mentes pela gorja, D. Vilão!» -- e uma porção imensa de Novelística popular, e paisagens Afonsinas com torres solarengas sobre os alcantis, e tudo o mais que o meu amigo reclama como factor essencial de educação... E de que serviu tudo isso para o aperfeiçoamento dos caracteres e das inteligências, ou sequer para a sua renacionalização? De resto, o movimento Tradicionalista, cuja ausência o meu amigo lamenta, ainda não cessou, está em torno de si. Tomás Ribeiro, Chagas e toda a sua descendência literária, são tradicionalistas. E esses «Príncipes Perfeitos» e Duques de Viseu, e Pedros Cruz , e D. Sebastiões que frequentam o palco de D. Maria não creio que tivesse chegado aí, de Paris, pelo sud-express. E o resultado?...
Não, caro amigo, não se curam misérias ressuscitando tradições. Se a França, depois de 1870, tivesse resumido o seu esforço em renovar na Literatura as Chansons de Geste , ainda cá estavam os Prussianos. O dever dos homens de inteligência num país abatido, tem de ser mais largo do que reconstruir em papel o Castelo de Lanhoso ou chamar as almas a que venham escutar os rouxinóis do Choupal de Coimbra.
Em todo o caso o grito do Tradicionalismo é um belo grito, sobretudo quando nos chega numa voz tão polida, e culta, e penetrante, e elegante como a sua. E aqui volto ao meu primeiro louvor, o da forma excelente, tão fina e luminosa, que reveste todo o seu livro. Quando se possui um tão belo instrumento, deve-se tocar uma ária mais larga e mais profunda que a do neo-medievalismo e do neo-trovadorismo. E, a propósito, o que é o Neo-Garrettismo? Estou com muita curiosidade de saber a que nova concepção do Universo, a que novo método Científico, ou a que feitio original do espírito crítico, deu o seu grande nome o mestre genial do Frei Luís de Sousa. Se o Neo-Garrettismo é um sistema que nos habilitará, a todos, a fazer Frei Luíses de Sousas e Autos de Gil Vicente, então, por Júpiter! sejamos todos neo-garrettistas com fervente entusiasmo! Para me explicar todas estas coisas e sobretudo para o ver e abraçar é que eu desejo vivamente que se realize a sua vinda a Paris, que há tempos me foi anunciada por um amigo. É para este Outono?
E o António Nobre? Sei que ele está em Paris: mas esse moço encantador, desta vez, nem sequer me quis dar o gosto de saber onde instalara os seus lares. Da sua morada, onde quer que ela seja, à minha, não haverá (dada a extensão de Paris) mais de meia hora de fiacre. Eu, porém, que sou um fiel ledor de Homero, sei quanto custa aos Deuses descerem do Olimpo. Já o dizia Hermeias (vulgo Mercúrio) a Kalipso, que como sabe, morava burguesmente numa ilha do Arquipélago: -- «Cuidas que não é uma grande maçada descer dos sólios estrelados, para vir a estes tristes sítios mortais, onde nunca se respira um bocado de bom incenso nem se bebe um bocado de bom néctar?». -- Mas nisto se engana o meu amigo, porque se eu o desejava ver era justamente para lhe repetir quanto o estimo, e para bebermos juntos um pouco de Médoc, que é o desconsolado néctar destes tempos. Quando lhe escrever ralhe com ele, docemente.
E, enfim, caro amigo, um bom abraço, depois desta tagarelice, e agora, e sempre, me creia, fielmente

Seu muito dedicado

Eça de Queirós
Nota - Publicada por Alberto de Oliveira, Eça de Queiroz -- Paginas de Memorias, Lisboa, Portugal-Brasil Sociedade Editora, 1919. Um prodígio de humor e ironia, a propósito do vezo tradicionalista de Alberto de Oliveira e o neo-garretismo  -- expressão que lhe pertence, que se estende às peculiaridades do seu muito próximo António Nobre. Ao contrário do que alguns pensam, e gostariam, o Eça nem com o aproximar-se do fim foi um reacionário.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

1872: Oliveira Martins a João Lobo de Moura

Meu caro Lobo.

Você que para ser D. João de Castro só lhe falta o ter nascido no século XVI, V. que na índole, no temperamento, no gesto e na fisionomia, tem marcado o carácter guerreiro antigo do Portugal conquistador, V. -- estou certo -- há-de compreender o sentimento deste livro que lhe mando. Se Portugal não pode hoje conquistar Cacilhas, porque -- ai de nós! ela não é moira; é necessário que quando nos voltamos para o passado, possamos sentir a alma, porque ele vivia para o compreendermos; de outra forma a história torna-se ou uma cronologia muda, ou, o que é talvez pior, a justaposição de fonomonalidades animais.
Diga-me francamente, meu caro Lobo, se encontra nos Lusíadas em mundo português antigo, fenómeno histórico que morreu para não ressurgir, em Portugal, para onde V. gosta de voltar-se tanto esses homens cuja vida, cujas crónicas  o entretêm, o impressionam.
Além do sentimento, meu caro Amigo e com ele e por ele, V. é de toda a nossa antiga roda de Lisboa a pessoa que mais conhecia o Portugal descobridor-conquistador, pelos caracteres, pelos ditos, pelos poemas. V. portanto é o melhor juiz para o meu livro.
Senti não poder ler-lho manuscrito: aí vai impresso. Julgue-o e mande-me a sentença.
Entretanto e sempre, creia-me meu caro amigo

Seu do C.

Oliveira Martins

Eu vivo:
Estación de Almadén. Minas de Santa Eufémia -- España.



Nota - Publicado por Francisco d'Assis Oliveira Martins, Correspondência de J. p. Oliveira Martins, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1926.  Os Lusíadas -- Ensaio Sobre Camões e a Sua Obra (1872), refundido em 1891, sob o título Camões, Os Lusíadas e a Renascença em Portugal. Trata-se do segundo livro de OM, depois do romance histórico Febo Moniz (1867), e o seu primeiro ensaio historiográfico; talvez por isso a carta denote uma ansiedade por ouvir a opinião dos pares (pediu também parecer a António Enes e provavelmente a outros.).



sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Lisboa, 9 de Março de 1903: Teixeira de Queirós a João de Barros

Lisboa, 9-3-1903

Meu amigo:

Agradeço-lhe a oferta da sua poesia À Virgem, que acho excelente como composição poética. Porém, não concordo com o seu fundamento filosófico que é dum volterianismo hoje fora de moda. Ou se acredita ou não no que dizem os evangelistas e doutores da Igreja acerca de Maria, o que é ponto secundário. Este belo símbolo que não é somente católico tem um grande interesse poético, considerado na sua pureza. Inúmeros poetas, que se não podem dizer fanáticos pelo espírito religioso o têm respeitado na sua pureza e na sua bela castidade. Antero de Quental é um deles, como sabe. Que belo soneto À Virgem Santíssima!
As ideias religiosas, os símbolos religiosos têm para nós a grandeza de criações do espírito humano e devem ser respeitados como tais. Certamente que não foram inventados para enganar mulheres dementes nem homens sem critério, ainda que as igrejas de todas as religiões se tenham servido deles com esse fim. A lenda da Virgem Maria é encantadora como símbolo poético e é-o para mim principalmente pela sua virgindade, pela sua castidade, que lhe dá um ar elevado e puro, livre das contingências e materialidades. Quanto à adoração das imagens foi o próprio Cristo que o condenou aos fariseus, mas esta materialidade também é uma tendência poética do nosso espírito: -- significar no vivo palpável o que existe no nosso vivo impalpável. Toda a escultura e pintura é isto. De modo que achando inscritos versos felizes na sua poesia, não concordo com as suas antigas ironias volterianas à Virgem, e principalmente à castidade deste símbolo.
Seu amigo



Nota - Publicada por Manuela de Azevedo, Cartas a João de Barros, Lisboa, Livros do Brasil, s.d. Carta interessantíssima Teixeira de Queirós (1849-1919) ao seu futuro genro João de Barros (1881-1960), tanto mais interessante por vir de um veterano escritor naturalista a defesa do valor e beleza simbólicos do dogma da virgindade mariana. Terá resposta.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

4 de Fevereiro de 1949: José Magalhães Godinho a Marcelo Caetano

4 de Fevereiro de 1949

Exm.º Sr. Prof. Dr. Marcelo Caetano:

     Acabo de ler no Diário Popular de ontem passos de uma entrevista concedida por V. Ex.ª ao Jornal do Funchal e, entre eles, leio uma referência directa à minha pessoa. É quando V. Ex.ª, referindo-se aos socialistas portugueses, declara: «Nunca foram, em Portugal, um partido poderoso e acham-se hoje divididos em duas correntes, como na Itália; uma, a do Sr. Dr. Ramada Curto, que não quer entendimentos nem aproximações com os comunistas, e outra, a do Sr. Dr. Magalhães Godinho e outros, favorável à colaboração com o comunismo, não sei mesmo se à fusão com o Partido Comunista.» Confesso que estas declarações de V. Ex.ª me deixaram estupefacto e indignado. Como pode V. Ex.ª assegurar que eu seja dirigente socialista e que eu pense desta ou daquela maneira, se nunca comigo teve qualquer conversação de natureza política, e se nunca eu fiz quaisquer declarações de natureza partidária? Eu sou republicano e, além disso, estou de acordo com a doutrina socialista, mas não sou dirigente de nenhum partido socialista e muito menos orientador de qualquer corrente para que possa afirmar-se a existência de socialistas do Dr. Magalhães Godinho e outros, tal como se os homens que pensam de determinada forma fossem propriedade deste ou daquele homem. Não sei o que o Sr. Dr. Ramada Curto pensa, e como não sou como V. Ex.ª, não me deito a adivinhar. V. Ex.ª, não sabendo o meu pensamento, não tinha o direito de referir o meu nome, em circunstâncias, mais a mais, que até permitem pensar-se na deselegância de uma denúncia. Mais, para que V. Ex.ª não faça mais confusões, sempre lhe direi que, não sendo comunista, não posso advogar fusões com o Partido Comunista, de cujos métodos políticos me acho totalmente afastado. O que por vezes tenho dito, ainda que só em conversas com amigos, é que entendo ter todo e qualquer partido político direito de viver à clara luz do dia, dentro dos preceitos que uma lei, igual para todos eles, estabeleça quanto à sua organização e funcionamento. Entendo, até, que todos os partidos políticos deviam ser constitucionalizados, a todos se consentindo a sua vida e propaganda dentro da mais perfeita legalidade, e desde que nenhum dele enverede pela propaganda da violência e da sublevação. É nesta ordem de ideias que, também, apesar de republicano, admito, em plena república, a existência de um partido monárquico; que, apesar de democrata, admito a existência de um partido que defenda o programa da União Nacional, ou de qualquer outro organismo político que defenda outro programa ou ideologia. E digo mais a V. Ex.ª que tenho para mim como certo que, no dia em que for consentida livremente, em Portugal, a associação em partidos políticos diferenciados, o Partido Comunista deixará de ter aquela importância que só o Estado Novo lhe tem dado e deixará de poder continuar a servir de papão como até agora tem servido na propaganda dos situacionistas. Porque não sou comunista, também eu quero combater a ideologia comunista, não me interessando de nenhum modo combater as pessoas comunistas, porque só as ideias e não os homens eu julgo que merecem ser combatidas ou seguidas. Não sei se há ou não comunistas apoiando a candidatura do Sr. General Norton de Matos, sei, porque nesse sentido houve pública declaração de pessoa responsável, que a Causa Monárquica apoia o candidato da União Nacional, e nem por esse facto eu posso ou devo concluir que a União Nacional queira restaurar a monarquia em Portugal, ou queira a sua fusão com a Causa Monárquica. Aqui tem V. Ex.ª, o que entendo dever, respondendo às afirmações atribuídas a V. Ex.ª, dizer-lhe, em reacção e protesto a essas mesmas afirmações.
     Reservo-me o direito de fazer desta carta o uso que melhor entender.
     Sem mais, sou

De V. Ex.ª com a devida consideração

José Magalhães Godinho, «Correspondência em 1949 com Marcelo Caetano»
Pela Liberdade, Lisboa, Alfa, 1990.



Nota - Primeira de um conjunto de cinco cartas trocadas entre ambos (três de Godinho, duas de
Marcelo), bem revelador, não apenas do ambiente político que se vivia em 1949, estando prestes a fechar-se a abertura empreendida por Salazar na sequência da vitória dos Aliados, que permitiu a constituição do Movimento de Unidade Democrática (MUD) -- que congraçava todas as correntes oposição: republicanos, socialistas, comunistas, anarquistas, monárquicos -- e cujo canto do cisne será a malograda candidatura de Norton de Matos, sem falar nas perseguições movidas aos aderentes ao MUD, cujas listas foras desastradamente parar às mãos do estado. A sequência é muito boa. 


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Póvoa de Varzim, 4 de Março de 1968: José Régio ao sobrinho Ramiro

Diana-Bar da
Póvoa de Varzim, pela manhã
4/3/68

Ramiro:

Já recebi duas cartas tuas, pelo menos, -- a última de há quase um mês. Esta demora não significa que eu te esqueça! Bem pelo contrário, lembro-me constantemente de ti, de vós os três. Significa apenas que atravesso um período de grande trabalho, que a minha correspondência aumenta sempre, etc., etc. A minha casa editora resolveu que este ano seria «o ano de José Régio», e manda-me provas sobre provas de livros a reeditar. Como, nestas provas, me não limito a sublinhar as gralhas, pois sempre corrijo o texto, dá-me isso bastante que fazer. Também retomei colaborações jornalísticas; além de estar escrevendo o sexto volume de A Velha Casa e... vá lá uma novidade!: preparar um novo volume de versos! Supunha que já não publicaria mais livros de poesia; mas a experiência da doença, do sanatório, etc., acumulou no meu subconsciente material que exige expressão mais ou menos poética. Enfim, o artista nem sempre faz o que quer: faz o que de momento pode, aproveita o que lhe vem. Como, portanto, escrevo agora bastante, não tenho desenhado nada. Os desenhos são, de certo modo, um substituto da literatura, um outro modo de expressão, quando a literatura se me torna esquiva. Também me faltas tu, à noite, com a tua calorosa curiosidade pelos desenhos que eu fizera... Não quer isto dizer que eu os deixasse de fazer: apenas estão à espera de novas ocasiões propícias.
     Tens muita razão de, como sobrinho meu, te achares com direito (embora o não digas bem assim) a receber os meus livros. Vou, pois, começar a mandar-tos; aos poucos, e sobretudo os que foram ou vão sendo reeditados nas Obras Completas, pois as edições primeiras ou até simplesmente anteriores rareiam cada vez mais. Algumas até já atingem elevado preço! (1)
     Comecei por falar de mim, e era de vós que eu tencionava começar por falar. Saboreei a breve mas viva evocação que fazes de vossa casa; (e o verbo saborear deve ter surgido aqui por uma subconsciente associação, pois me dizes que cheira a fritos, que a Fátima está fazendo fritos...). Também apreciei e agradeço a fotografia em que estás tu, ela, e o meu boneco na parede. Não se pode dizer que essa máscara faça uma companhia muito gentil, mas enfim... é uma lembrança do «ti Zé». Gosto de saber que estás contente, que vos sentis felizes. Ainda bem, oxalá que assim seja sempre! Claro que o casamento não é um perpétuo idílio (mesmo sem «pieguice») e até a Primavera é atravessada por nuvens e momentos sombrios. Não é de um dia para o outro que as pessoas verdadeiramente se conhecem. Mas também penso que a Fátima é boa rapariga, sei que tu não és mau rapaz, e um amor sólido que a intimidade irá confirmando acaba sempre por desfazer as nuvens... Também estou contente, em suma.
     Agora umas notícias breves:
     -- A «casa da madrinha Libânia», própriamente minha ao presente, está mais arrumada: Fiz nela uma espécie de exposição, embora provisória, de coisas a que depois darei um arrumo definitivo. Espero recomeçar as obras sem grande demora, e para as levar até cabo. Depois te falarei de isso.
     -- «Os habitantes daquela Casa» devem ser estreados brevemente em Lisboa. Entretanto vai à Espanha a um festival de curtas metragens. Tem agradado bastante.
     -- Recebi nova proposta para representação do Jacob e o Anjo, pela companhia que já no ano passado se propusera representá-lo. Fiz um grande esforço... e, embora nos mais lisonjeiros termos com que me foi possível dourar a amarga pílula, recusei autorização. Não me parece que essa Companhia e a sua casa de espectáculos reunissem as condições necessárias para um possível, mesmo relativo agrado junto do público. Principia por que o Rei, a Raínha, o Anjo-Bobo exigem certo aspecto físico (vejo-os em grande!) que não encontro nos actores da dita Companhia. Isto... sem falar no Talento necessário à interpretação desses difíceis papéis. O meu caso (das Três peças em Um Acto) é que parece que será representado em Lourenço Marques. Aqui está proibido, e lá não.
     Bem, basta por hoje. Dá lembranças ao teu pai, e diz-lhe que gosto de o saber convivendo assim com a jovem família. Cá recebi, e gostosamente retribuo, os beijos da Fátima, e para ti o abraço do teu velho
Tio Zé
(1) Não seria razão para eu tas não mandar... se tivesse exemplares!




Nota -In Boletim, #1, Centro de Estudos Regianos, Vila do Conde (direcção de Eugénio Lisboa). Uma bela carta familiar, cheia de informações e conselhos quase paternais, de alguém que trocou a constituição duma vida familiar (teve uma filha que morreu criança fruto, creio, de uma relação pouco mais que fortuita) pela dedicação à obra literária que empreendeu durante quarenta anos -- e que obra... Régio pertence também àquela família de escritores que reflecte profundamente sobre a própria obra ficcional, o que não é de admirar, tratando-se de um dos críticos cimeiros, dos mais agudos e informados, do século XX.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Vale de Lobos, Santarém, 24 de Maio de 1867: Alexandre Herculano a Joaquim Filipe de Soure

Amigo
Vale de Lobos, 24 de Maio [1867]

     Estive em Lisboa poucos dias e disseram-me aí que o am.º fora p.ª Évora. Escrevo pois para Évora, a Deus e à ventura.


     Quisera ter-lhe falado para lhe dizer uma resolução que tomei e que tomei fria e reflectidamente, porque era ao mesmo tempo um preceito da minha consciência, e uma necessidade para este modo de viver que adoptei para os anos, não serão muitos, que me restam de vida.

     Tenho parentes e sou só. Os parentes tratam de si. Não tenho uma irmã, uma sobrinha, uma mulher que olhe por mim e pela casa que, apesar de pequena, tem que governar. Sabe, porque tem sido lavrador. A criada de campo que tenho é incapaz de me olhar por uma camisa ou por umas meias. A antiga criada de minha mãe, que em Belém me tratava dessas coisas, não pode deixar o marido com 84 anos para me seguir aqui. Na doença não tinha quem tratasse de mim; e eu já perdi a esperança de deixar de ser valetudinário. Amancebar-me aos 57 anos publicamente era ridículo e mau, e o resultado pouco seguro.

     Resolvi casar. Tive aos 26 anos uma destas paixões que todos temos naquela idade, mas havia em mim outra mais poderosa, a das ambições literárias. Os meus amores foram com a irmã do Meira, D. Mariana Hermínia. A paixão literária venceu a outra. Tive a coragem de lhe sacrificar esta. Com a minha modesta fortuna não podia fazer filhos e livros ao mesmo tempo. Era necessário ser uma espécie de frade, menos o convento. Falei, pois com franqueza a minha actual mulher, que então era uma cabeça algum tanto romanesca. As mulheres são capazes de actos de abnegação que seriam para nós impossíveis. Já havia rejeitado por minha causa um casamento vantajoso que a família lhe arranjara com um primo, mas à vista das minhas declarações, foi mais longe: aceitou uma posição ambígua, sujeita a comentários e calúnias, sem soltar um queixume, sem a menor quebra durante trinta anos de uma dedicação e amizade ilimitadas. Confesso-lhe que, neste ponto, eu que me parece estar curado de todas as vaidades, ainda tenho vaidade nisto.

     Aqui tem o meu amigo os elementos materiais e morais para avaliar o acto que pratiquei. Conheço-o bastante para saber que o há-de aprovar.


     Estas explicações são apenas para meia dúzia de amigos íntimos. Para o resto do mundo a explicação é mais curta: casei porque tive vontade disso.


     As coisas rústicas por aqui não vão bem. Os trigos são abaixo de medianos, vinho há pouco, e azeite pode-se dizer que nenhum.

     Arranja-me uma pouca de mera, e diz-me aonde ma manda pôr em Lisboa?


     Recomendações ao dr. António Miguel, que é um dos poucos carácteres deste terra que eu admiro.


Amigo


Herculano

Nota - In João Medina, Herculano e a Geração de 70, Lisboa, Terra Livre, 1977; extraído de Luís Silveira, Cartas Inéditas de Alexandre Herculano a Joaquim Filipe de Soure, 1946.  O brônzeo Herculano explicando ao amigo, magistrado e político Joaquim Filipe de Soure (1805-1882) a alteração no seu estado civil, algo que não se está a ver e que só a correspondência tem a desfaçatez de revelar. Conversa para amigo íntimo, previne, pois que para a calhandrice do vulgo, «a explicação é mais curta:» - e que notável explicação.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Belém, 4 de Agosto de 1755: o Marquês de Pombal a seu irmão Francisco Xavier de Mendonça Furtado

     Meu Irmão do meu Coração.

     Uma das grandes utilidades públicas que trazem consigo as Companhias de Comércio é a de regularem as quantidades das mercadorias, que devem introduzir, de sorte que tenham uma respectiva proporção, com o consumo dos Países onde as tais mercadorias devem ser transportadas: Porque da falta desta justa proporção se segue necessariamente a ruína do Comércio dos Mercadores Nacionais, e a do Reino em beneficio dos Mercadores, e dos Países Estrangeiros.

     A razão é porque, comprando os particulares nacionais sem regra nem medida tudo quanto lhe querem fiar os Estrangeiros, introduzem de modo ordinário em um ano Fazendas que necessitam de três anos p.ª se consumirem. Ora como a esta redundância se vão acumulando anualmente as outras fazendas, que transportam as Frotas, e os Navios de Licença: Daqui se segue por que não podem vender com lucro, antes lhe é preciso fazê-lo com perda em tanta redundância: E se segue pela outra parte que os Mercadores Estrangeiros engrossam m.to mais do que deviam engrossar; vendendo de mais aos Particulares todas as fazendas supérfluas, que certamente não compra a Companhia; e exaurindo o cabedal do Reino em forma que se dele haviam de extrair Um milhão em dinheiro para lhe venderem o necessário, extraem mais Dois milhões do que vendem para ficar supérfluo, empachando as Lojas da América Portuguesa.

     Para se regular pois a Companhia que S. Maj.e acaba de estabelecer em forma que evite aqueles graves danos, é o mesmo Senhor servido que mandeis franquear aos Caixas da mesma Companhia nas duas Alfândegas do Grão-Pará, e Maranhão, todos os Livros de Abertura para deles tirarem as relações das Fazendas q. foram para esse Estado pela ultima Frota fazendo tudo o que vos for possível por que nas mesmas relações se incluam por um verosímil arbítrio todas as fazendas, que costumam entrar sem pagarem Direitos com a distinção das suas quantidades, e qualidades debaixo da proporção pouco mais, ou menos.

     Também S. Maj.e manda recomendar-vos q o Aviso que deve levar esta seja reexpedido com toda a brevidade, que couber no possível.

     E Eu torno a oferecer-me para servir-vos com o maior afecto.
     Deus vos G.de m.tos an s
   
Belém a. 4. de Agosto de 1755
Irmão m.to am.te vosso

Seb.m Jozeph

Nota - In Fritz HoppeA África Oriental Portuguesa no Tempo do Marquês de Pombal -- 1750-1777 (1970).  Sebastião José a explicar ao irmão a lei da oferta e da procura e o proteccionismo comercial... dias antes da fundação da Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Coimbra, 29 de Julho de 1858: Antero de Quental a sua mãe, Ana Guilhermina da Maia Quental

Coimbra 29 de Julho 1858.
     Minha querida Mamã.


     Depois de tantos trabalhos e sustos chegou finalmente o dia, em que dando um suspiro de alivo pude descansar sem cuidados; e por isso é que lhe escrevo debaixo da agradável impressão de ter feito os exames e de me achar habilitado com os exames de Instrução Primária, Francês, Latim, Lógica, Retórica, História e Geografia, Geometria, e Introdução aos três Reinos da Natureza, e apto para me matricular em qualquer Faculdade, a qual será a que o Papá e a Mamã escolherem.


     Estou pois muito contente, não só pelo facto em si, como também pela alegria que com isto terão todos os que por mim se interessam; e muito aliviado pois o fim do ano é o maior Cabrion que um pobre Estudante pode ter.

     Agora pois estou em Férias, e espero passá-las descansado, e lendo algum livro que possa instruir-me, sem contudo ter o peso da Ciência: agora que lancei a Ciência nas certidões, posso-me entregar um pouco aos meus passatempos favoritos de Literatura e Poesia: são estes os meus divertimentos nesta terra, e confesso que tem para mim milhares de atractivos, e que os prefiro a todos os outros.


     Agora estou eu fazendo uma pequena tradução em verso, e em estando pronta lha mandarei, visto que a Mamã tem a suma bondade de ler as minhas modestas rabiscas.


     Não sei se passarei aqui as férias: eu desejava ir uns 15 dias à Figueira, tomar banhos e passear, pois esta vida de Estudante não só é monótona e incómoda, mas também pode fazer mal sendo contínua: por isso mesmo é que se fizeram as férias, tempo de descanso: além disso o meu estado de saúde pede esta pequena viagem: não que eu tenha doença alguma grave, mas ando sempre com pequenos achaques tais como dor de cabeça, febre, constipação, etc. Já vê a Mamã que preciso espairecer, e mesmo os ares do mar fazem-me iludir um pouco, e transportam-me pelo pensamento aos belos e saudosos tempos que aí passei. Quem me dera já o ano que vem, para lá ir, como o Papá me prometeu: enfim será quando Deus quiser!


     Também lhe quero pedir um favor -- Daqui até Novembro, tempo em que começam as aulas, precisava ler alguns livros de Literatura filosófica, para não ir para a Universidade com os olhos fechados sobre este ramo das Letras, que é necessário pela relação íntima que tem com todos os outros: precisava pois comprar esses Livros, e é o favor que lhe peço, o pedir ao Papá que me mande dinheiro para eles, que, para os que por ora preciso, não será necessário mais que 5 ou 6 mil réis. Isto devia eu ter pedido directamente ao Papá, mas não sei que acanhamento me deu, que tenho vergonha de lho pedir, enquanto que à Mamã lho peço com mais confiança.

     Peço-lhe me recomende muito a todos; Manas, André, Prima Anica e Beza: a esta última peço lhe dê um abraço da minha parte.
Adeus minha querida Mamã
deite a sua benção ao seu
Filho muito obediente e amigo


Antero

Cartas I - edição de Ana Maria Almeida Martins

Nota - Antero tem dezasseis anos, e prepara a entrada na universidade. Uma carta repassada de ternura e doçura filial, obviamente não incompatíveis com o papel, tão truculento quanto salutar, de demolição -- que empreende a partir de Coimbra -- de um ambiente literário nacional medíocre e pegajoso, a que ninguém pôde ficar indiferente.  É esta pureza, parece-me, um dos alimentos da força quase titânica com que se atira ao reduto do compadrio e do elogio mútuo dos bonzos e pretendentes a tal. Castilho será feito em cacos.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Almeida Garrett à Viscondessa da Luz

Terça-feira

     Que suprema felicidade foi hoje a minha, querida desta alma! Como tu estavas linda, terna, amante, encantadora! Nunca te vi assim, nunca me pareceste tão bela. Que deliciosa variedade há em ti, minha R. adorada! Possuir-te é gozar de um tesouro infinito, inesgotável. Juro-te que já não tenho mérito em te ser fiel, em te protestar e guardar esta lealdade exclusiva que te hei-de consagrar até o último instante da minha vida: não tenho mérito algum nisso. Depois de ti, toda a mulher é impossível para mim, que antes de ti não conheci nenhuma que me pudesse fixar.

     E o que eu te estimo e aprecio além disso! A ternura d'alma verdadeira que tenho por ti! Onde estavam no meu coração estes afectos que nunca senti, que tu só despertaste e que dão à minha alma um bem-estar tão suave! Realmente que te devo muito, que me fizeste melhor, outro do que nunca fui. O que sinto por ti é inexplicável. Bem me dizias tu que em te conhecendo te havia de adorar deveras. É certo, assim foi, e estou agora seguro deste amor, porque repousa em bases tão sólidas que já nada creio que o possa destruir. Deixaste-me hoje num estado de felicidade tal, com tanta serenidade no coração, que não creio em toda a minha vida que ainda tivesse um dia assim. A minha imaginação tão exaltada, tão difícil, nunca foi além das doces realidades que tu me fazes experimentar. Tinha desesperado de encontrar a mulher que Deus formara à minha semelhança -- achei-a em ti, e já não desejo a vida senão para a gozar contigo e para me arrepender a teus pés do mal que fiz, do tempo que perdi, do que te roubei da minha existência para o mal empregar nas misérias de que me tenho querido ocupar. Digo -- que me tenho querido, porque não conseguia nunca: o meu espírito rebelava-se, o meu coração ficava indiferente, e nunca foram de ninguém senão teus.

     Não penses que exagero: por Deus te juro que assim é, e que me podes crer: eu a ninguém amei, a ninguém hei-de amar senão a ti. A ti a virgindade do meu coração, que não puderam desflorar nunca nem os erros dos sentidos. nem as decepções do espírito, ou as ilusões da vaidade. -- E sou tão feliz em o conhecer que não imaginas: teria remorso verdadeiro se tivesse amado a alguém antes de ti; era uma quase infidelidade que me não podia perdoar.  
    
E sabes tu? não sei se me engano, mas creio que não: estou persuadido que o mesmo passou por ti, e que a tua passada ilusão não foi senão ilusão que passou, e que este é o teu verdadeiro primeiro amor, em que alma, sentidos, coração, estima, afecto e entusiasmo estão reunidos, porque sem estas coisas todas bem sabes que não pode haver amor real e verdadeiro. -- Sou secante com este tema, bem o conheço. Mas que queres? Não posso ter outro: estou completamente estúpido para tudo o mais: sou como um instrumento em que todas as cordas se quebraram menos uma -- e que já não dá mais que um som em qualquer parte e por qualquer modo que o firam.


 Sei que não receberás hoje esta carta, que não verei letras tuas tão-pouco, e amanhã passará todo o dia do mesmo modo. Paciência! Hoje tenho de que viver na doce recordação daquelas duas horas (bem escassas!) que me deste, e pelas quais -- quando mais não fosse, te abençoarei até o último instante da minha vida.

Adeus, adeus,
minha vida. Adeus.


Cartas de Amor à Viscondessa da Luz, edição de Sérgio Nazar David, 
Vila Nova de Famalicão, 


Nota - As cartas íntimas produzem sempre um certo mal-estar a quem as lê sem intenções voyeurísticas; é como apanhar o autor em trajes menores. Mas este é um caso em que a publicação mais do que se justifica, pela ligação não apenas com a vida mas com a obra do Garrett dos último anos. E a questão ética acaba por ser ultrapassada, pois é um lugar-comum, e verdadeiro, que os grandes autores deixam de se pertencer, e estão para lá da sua circunstância.

domingo, 20 de janeiro de 2019

Portalegre, 22 de Agosto de 1907: Fernando Pessoa a Armando Teixeira Rebelo

     Hotel Brito, Portalegre


     22 de Agosto de 1907




     Venerável porção de existência terrena!



     Nuns poucos momentos de concatenada actividade mental, não desassistida dos fumos carnais da bebida alcoólica -- nada mais nada menos do que vinho -- não exclusivo a esta localidade, a minha alma sentiu, como um suspiro mental, a necessidade de dar expressão do seu presente estado e tendências a um cérebro amigável como o teu.


     Solitário e silente no meu transitório lugar de existência no hotel mencionado no cabeçalho desta explosiva epístola de uma sobrecarregada alma, sentindo em redor de mim um mundo moralmente frio e materialmente quente -- abaixo de zero quanto à minha alma e não longe dos 40 quanto ao meu corpo -- nestas circunstâncias angustiosas e inspiradoras veio até minha ideia de que talvez o processo desta composição epistolar possa ser subjectivamente conducente a um alívio do meu fardo terreno neste momento, possa ser o «bálsamo em Gilead» sonhado por Poe, para o meu espírito desgarrado.


     Daí esta carta.

     Portalegre é um lugar em que tudo quanto um forasteiro pode fazer é cansar-se de não fazer nada. As suas qualidades componentes parecem-me conter (depois de uma profunda análise), em quantidades relativas e incertas, calor, frio, semiespanholismo e nada. O vinho é bom (embora não daqui, creio), mas é decididamente alcoólico, especialmente quando a jarra de água está na outra extremidade da mesa e tu te esqueces (quer dizer, eu me esqueço) de o pedir. O estilo desta carta é disso uma prova decisiva. Farei dela registo para que uma tão brilhante produção do meus espírito não se perca no correio.


     A desmontagem e embalagem da tipografia está a levar um tempo danado -- poeticamente falando, é claro. Apesar disso, os homens têm trabalhado bastante depressa e tenho-os olhado e observado com a maior das energias.


     Acredito sinceramente que, se tivesse que aqui ficar um mês, teira de ir para Lisboa e depois para o Hotel Bombarda. Mal podes imaginar o hiperaborrecimento, o ultra-estafanço-de-tudo, a absoluta sensação de o-que-há-de-fazer-um-tipo num sítio destes, que reinam no meu espírito! Encontrei um livro para ler. Estou ansioso por voltar a Lisboa; penso contudo que ainda terei de ficar aqui mais três dia.

O Alentejo visto do comboio

                                                            Nada com nada em sua volta
                                                            E algumas árvores no meio,
                                                            Nenhuma das quais claramente verde,
                                                            Onde não há vista de rio ou de flor.
                                                            Se há um inferno, eu encontrei-o,
                                                            Pois se não está aqui, onde Diabo estará?

Passa bem, ó tu

F. Nogueira Pessoa



     P.S. -- Não me escrevas para Portalegre. Poderei já aqui não estar. Espera o meu regresso a Lisboa. Aí falaremos então.

Fernando Pessoa, Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas,
Mem Martins, Publicações Europa-América, 1986
(edição de António Quadros)

     Nota - Pessoa tem 19 anos, e acaba de morrer-lhe a avó Dionísia. Está em Portalegre, para, com a herança recebida, comprar uma máquina tipografia para a projectada editora Íbis.  Calcula-se o deserto. O humor é inexcedível, razão tem a sobrinha. Escrita originalmente em inglês, pois Teixeira Rebelo, seu colega na Faculdade de Letras, criara-se igualmente na África do sul. A versão portuguesa é de António Quadros.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Portalegre, Abril de 1939: José Régio a João Pedro de Andrade

Boavista, Portalegre
Abril de 1939
Prezado camarada:




     Desculpe-me esta demora. Não foi a leitura da suas peças que me tomou todo este tempo: Li-as logo que as recebi. Mas queria escrever-lhe devagar e longamente. Afinal... para quê? Além de que adio sempre demasiado as cartas que me proponho escrever como quem escreve um ensaio, -- o que tenho de principal a dizer-lhe é simples; e pode ser dito ao correr pena, conforme sair: Gostei muito das suas peças... e julgo não me ter enganado gostando. O que nas suas críticas me chamara a atenção não fora tanto a justeza ou a não justeza dos juízos (se alguns seus juízos me pareciam justíssimos, outros, tal o sobre o João Falco, pareciam-me injustos) como, sobretudo, um tom de quem diz as coisas sabendo o que diz, «com um saber de experiência feito». O João Pedro de Andrade afigurou-se-me um daqueles homens -- raros em Portugal -- que têm um conhecimento íntimo, profundo, pelo menos de certos aspectos da vida, e nesse conhecimento se estribam quando escrevem. Esses, são interessantes mesmo quando errem ou se enganem: As suas palavras podem não ter a sonoridade própria a certos talentos brilhantes e ocos... mas claro que é preferível, nesta coisa das letras, o som cheio, surdo, duma pancada num muro denso. Julgo eu que se não pode ser grande escritor sendo pequeno homem, e que é preciso ter coisas em si para poder interessar aos outros. Ora através dos seus artigos e críticas, o João Pedro de Andrade parecera-me um desses homens que têm o direito de escrever por alguma coisa terem, de facto, a dizer aos seus semelhantes. Por isso lhe pedi colaboração para a presença. Não tive grande mérito na minha descoberta, pois já outros tinham descobrido o mesmo. E por isso esperei e li com grande curiosidade as suas peças. Ora no meu entender, as suas peças confirmam dum modo muito superior ao das suas críticas isso que eu pressentira: O João Pedro de Andrade tem coisas a dizer; e isto que parece um mínimo de exigência, exigir dum escritor que tenha coisas a dizer, -- não o é; pelo menos, cá na minha linguagem. Além disso o João Pedro de Andrade é sem dúvida uma vocação de dramaturgo. O seu diálogo logo me surpreendeu (desculpe, eu devia escolher outro verbo...) pela rara qualidade de não ser vulgar nem empolado; isto é: de só ter a estilização necessária a todo o diálogo de teatro, e adequada ao assunto, personagens, meio, etc. Mas não achei menos notável a simplicidade, digamos nudez, depuração, com que a acção caminha, desprezando todo o desnecessário, todo o supérfluo, -- ou a vida que anima os personagens, tão diferentes dos retóricos bonecos que por aí nos apresentam em cena. Perante estas qualidades importantíssimas, nem tenho a mínima vontade de entrar numa análise crítica, miúda e restritiva: Naquela vida própria que adquirem personagens de ficção (em Continuação da Comédia) poder-se-á, talvez, descobrir um eco de Pirandello. E adivinho, pois o não chego a constatar, nem sei quê do Ibsen em certas falas ou no ambiente de Uma só vez na vida. Porém Ibsen é daqueles grandes Mestres com quem todos podem aprender sem sacrificar a sua originalidade própria (isto mesmo é o que caracteriza os mestres autênticos...) e qualquer sugestão que Pirandello lhe tenha dado não diminui a originalidade da sua peça num acto. A verdade nua e crua, muito simplesmente dita, é esta: Eu fiquei entusiasmado com as suas peças. E o que me admira, posto em Portugal não sejam estas coisas muito para admirar, é que o João Pedro de Andrade tenha escrito estas peças, e outras, e seja desconhecido como autor dramático. Não terá o meu prezado camarada alguma culpa nisso? É preciso lutar, teimar, impor-se. Eu quereria poder fazer alguma coisa para o poder ajudar nessa empresa. Mas que posso eu senão escrever? Se consente em publicar na presença A Continuação da Comédia, (e digo esta não porque Uma só vez na vida lhe não seja ainda superior, que o é, mas porque a sua extensão dificulta mais o caso) terei nisso verdadeiro prazer. Tínhamos combinado começar a publicar desde o próximo número uma peça inédita de Alfredo Cortês -- Bâton. Mas não recebemos, até hoje, notícia duma resolução definitiva do autor. A sua peça apareceria já no próximo número, no caso de não vir a dele, que tem primazia por uma simples questão de prioridade de tempo. Uma revista tem as suas exigências de equilíbrio no género da colaboração publicada; e por isso poderia este primeiro número da nova série da presença parecer conter demasiado teatro, no caso de saírem a público as duas peças. Já em outro número se poderia melhor admiti-lo. Conhecendo outras peças suas, (que teria muito gosto em conhecer), e obedecendo a uma das intenções da presença, que é estar ao serviço dos verdadeiros talentos que vierem aparecendo, eu escreveria uma nota crítica um pouco desenvolvida sobre um dramaturgo inédito. Fico esperando uma nota sua, e sou o seu camarada e admirador,

José Régio



     P.S. -- Por já ser hoje tarde, lhe não devolvo o seu original de Uma só vez na vida. Para lhe devolver o outro, espero a sua resposta.
In João Pedro de Andrade, Intenções e Realizações da presença na Prosa de Ficção 
(edição de Julieta Andrade)


Nota: Diálogo entre dois dos maiores críticos do seu tempo, e também dramaturgos: «Não se pode ser grande escritor sendo pequeno homem.» A histórica presença quase no fim.