quinta-feira, 13 de junho de 2019

Sintra, 2 de Agosto de 1983: Francisco Costa a João Bigotte Chorão

Sintra, 2 de Agosto de 1983.

Meu caro João Bigotte Chorão,

Recebi o seu ensaio sobre "a literatura portuguesa nos próximos 25 anos", e li-o com uma surpresa correspondente à perplexidade que o esfíngico tema lhe causou, quando lhe foi proposto. Sinto nessas páginas um localismo pessimista, impróprio de si, que me fez lembrar os anos 40/50, quando, a propósito dos meus romances, os críticos episódicos (permanente, havia apenas um e era o menos desdenhoso) repisavam o tema do mísero epigonismo dos autores contemporâneos. Nessa altura, abstive-me de replicar: medice, cura te ipsum, aos que também eram autores, mas aludia algures, se bem me lembro, ao "acendrado patriotismo" daqueles que só ficariam satisfeitos se os portugueses fossem pioneiros em tudo: nos caminhos literários como outrora nos caminhos marítimos.
Claro que havia excepções isoladas, entre as quais se distinguiam o António Quadros, o Luís Trigueiros, o Amândio César; mas os críticos mais persistentes, adversários da autocracia reinante, vingavam-se indirectamente nos autores não subversivos, pisando-os como degraus inferiores, a fim de eles próprios parecerem mais altos, aos olhos do público, sempre crédulo. Hoje suponho que se faz o contrário: aumenta-se artificialmente a estatura dos autores afectos à ideologia dominante; e quanto aos desafectos, nega-se-lhes, pura e simplesmente, a existência literária, presente ou passada.

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Mas voltemos ao que é sério. Sei muito bem, querido amigo, que a Província é que alimenta os nossos tradicionais centros de cultura, em Coimbra e Lisboa. Eu próprio, na esteira do "pobre homem de Póvoa do Varzim", me intitulo "pobre homem da serra de Sintra"; mas o facto de esta ser "uma quinta com porta para o Chiado", como dizia o Eça, é segundo parece o que me torna um citadino incapaz de trabalhar a bem da língua portuguesa. Sim: a julgarmos por estas suas páginas, só Tomás de Figueiredo e João de Araújo Correia foram, em rigor, notáveis obreiros do nosso idioma na primeira metade deste século, pois só eles são a tal ponto camilianos que há trechos deles -- transcritos no seu CAMILO, A OBRA E O HOMEM -- que parecem mesmo escritos pelo autor de A BRASILEIRA DE PRAZINS; além desses dois cultores do vernáculo, o seu texto refere apenas, de relance, alguns grandes nomes que pareceria mal omitir. Quanto a este seu amigo, a omissão compreende-se, pois sempre considerei a língua, com toda a sua riqueza conceptual e metafórica, simples matéria instrumental daquilo que mais interessa: a forma, sensível e inteligível, de obra literária.
É evidente que se as raízes da nossa cultura se encontrassem, quanto ao século XIX, somente no fecundíssimo escritor de S. Miguel de Ceide (que por si só constitui uma secção da Biblioteca Municipal de Sintra), os dois obreiros, agora elogiados, seriam de facto os mais notáveis. Nesse caso, porém, a geração de 1870, antinacional nos temas e atitudes, teria sido também perniciosa ao depurar a nossa língua literária, banindo os arcaísmos e modismos obsoletos, rebuscados e divulgados pelo autor de MEMÓRIAS DO CÁRCERE.
Ao queixar-se de que Eça de Queirós e os seus amigos "implicavam" com ele, sempre que isso vinha a "talho de foice", Camilo provocou a célebre carta que o autor de O PRIMO BASÍLIO escreveu ao autor de O ESQUELETO, texto que, bem relido e meditado, muito útil seria a quem defende o nosso idioma somente no plano da filologia e da linguística. se essa carta, naquela altura, não chegou ao destinatário, foi talvez porque este brandiria logo o formidável cacete minhoto contra o frágil florete citadino do seu jovem rival, e a polémica alastraria imediatamente em rixa, na feira das letras: à paulada e sem proveito para ninguém. Felizmente, o português depurado foi o que vingou, no final do século XIX, e hoje o "camilismo idiomático (não o escritor Camilo, evidentemente) é raridade museográfica para colecionadores e eruditos apenas.

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Alargando o tema do epigonismo literário, duvido muito de que esse conceito se aplique somente a autores portugueses; melhor: creio que o epigonismo é inevitável no mundo das letras e das artes, estando longe de ser um defeito. Já no começo deste século o anglo-americano T. S. Eliot o defendia ao advertir que o talento individual não pode nem deve renegar a tradição, seja nacional seja internacional. Desde esse ensaio, que ficou célebre, acusar de epigonismo os inúmeros continuadores de Jane Austen e Balzac, pioneiros do "roman anti-romanesque", tão apropriadamente definido por Taine, na sua HISTOIRE DE LA LITTÉRATURE ANGLAISEAo que parece, só a crítica portuguesa descobriu neste país um epigonismo congénito, muito embora o próprio Camilo, ao dizer-se um dia humilde discípulo de Balzac, se atribuísse desse modo uma qualidade e não um defeito. Não sei, aliás, se o grande escritor sabia ver-se como era, no plano da novelística; e só estranho que em Portugal, a propósito dele e de Eça de Queirós, ainda não se tenha estudado a fundo o que distingue narradores e ficcionistas. O tema, abordado por Paulo Dantas, no Brasil, a propósito de José Lins do Rego, mereceria bem ser aprofundado a nível universitário, pois -- insisto -- não é na prática da língua, matéria instrumental da obra literária, mas sim no tratamento da forma, constituída pelas personagens e suas circunstâncias, que as duas famílias de escritores se distinguem, cabendo a designação de ficcionistas aos que se empenham sobretudo em criar pessoas fictícias (são, afinal, "poetas fingidores", diria aqui o Fernando Pessoa) e a designação de narradores, aos que preferem alargar-se na descrição das circunstâncias e ambientes sociais. Em nossos dias, não será isso, precisamente, o que distingue um Paço d'Arcos de um Ferreira de Castro, e -- vamos lá -- um Francisco Costa de uma Agustina Bessa Luís?

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Muito mais justo do que os críticos dos anos 40/50, o João Bigotte Chorão observa que a literatura portuguesa só é epigonal na medida em que, "não assumindo a nossa identidade, copia figurinos estranhos ao nosso corpo": os galicismos e modismos realistas de Eça de Queirós são o exemplo mais ilustre desse defeito. Mas, amigo, nós portugueses, para além do corpo nacional, temos alma universal; e é por isso que o Eça, inferior ao Camilo quanto à extensão e portuguesismo do vocabulário, vale mais do quele na criação de personagens, fazendo o estudo psicológico delas, não em colóquio com o leitor, mas por meio da acção e das falas: no estilo próprio dos falantes e não nos estilo próprio do escritor, como fazia o autor de AMOR DE PERDIÇÃO, cujos heróis e heroínas falavam todos em português camiliano. Concordo plenamente consigo, quando nos diz achar monótono "o inventário notarial do passado", e ver "na vocação necrófila uma das taras da nossa cultura", mas precisamente porque ama a cultura "como qualquer coisa de vivo e vital", não o sinto à vontade entre os futurologistas (ou apenas futuristas), mais ou menos afectado por aquela "baixa preocupação de actualidade" que Fidelino de Figueiredo já denunciava em 1925, na mesma linha do tão citado ensaio de T. S. Eliot, que é de 1917 -- ano que foi, em Portugal, o da insurreição literária do ORPHEU e da contra-revolução política de Sidónio Pais, precursor do salazarismo subsequente. E também não terá sido por acaso que ambos esses movimentos de 1917 se inseriram, logo de início, na acção do meu primeiro tríptico de romances.
Quando o P. Manuel Antunes, a propósito do meu caso e de outros contemporâneos, tentou "elevar-se a cima do momento e do local", apreciando os autores recentes em perspectiva intemporal, os críticos de então -- os tais que se empoleiravam sobre os autores, para não parecerem anões -- troçaram a tal ponto dessa tentativa, que até ele passou a ferir a tecla do epigonismo nacional, acentuando o queirozismo ou camilismo dos romancistas actuais... falhos de actualidade internacional. Abriu então uma tímida excepção para o "brotar fontal"  de Agustina Bessa Luís, enquanto João Gaspar Simões, aludindo aos "aracnídeos romances" da autora minhota e desconhecendo totalmente a obra do lisboeta Paço d'Arcos, tratava o sintrense Francisco Costa, apesar de católico, em perspectiva universal e em termos tão generosos que o inolvidável P. João Mendes espontaneamente se arrependeu (em carta, não em público) da parcimónia da sua apreciação a meu respeito. A verdade tem de se dizer: foi o agnóstico, não o católico, quem se atreveu a apreciar os meus romances no plano das grandes obras do género, para justificar, como ele próprio observou, os seus reparos antimoralísticos... nem sempre justos. Na Brotéria, confinaram-me aos limites da aldeia portuguesa, talvez por eu não lhes ter dado um romance integralmente católico, segundo o modelo mauriaciano, definido e até preceituado pelo autor de MONTE PARNASO MONTE CARMELO.


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E afinal vou dando alguns trechos de memórias (quase sempre egocêntrico e egotistas) nas cartas que escrevo neste meu final de vida literária. Junto lhe envio cópia daquela que dirigi ao Gilberto Moura, pois ao escrevê-la pensai constantemente em si e nos seus generosos escritos a meu respeito. Há quarenta anos, sempre que a perspectiva literária se alargou para além do nosso burgo, foi ainda o João Gaspar Simões quem me defendeu por várias vezes, indignando-se, numa delas, contra a miopia dos meus correligionários, que não sabiam ver esta "glórias das letras católicas portuguesas". Triste glória a minha: a de um autor que nunca se decidiu a promover "son personnage", como me dizia o meu querido Paço d'Arcos. Vi-o pela última vez nesta casa, quando ele, já muito doente, persistiu em aceitar aquela reunião de amigos, com que se festejou, depois da missa, meio século de matrimónio feliz. Também ele, depois do António Júdice, muito estimava a "colaboradora invisível dos meus romances": a grande senhora sem a qual eu não seria quem sou. Agora, viúvo, encontrei-me tristemente com a viúva dele, noutra merenda (assim se dizia em Sintra no tempo do Marialva), oferecida pelo Domingos Oliveira Martins ao Embaixador do Brasil, que brevemente será transferido para Washington.
Coincidência curiosa: dias antes, o Dr. Dário Castro Alves encontrara-se com o Amândio César, e tais coisas este lhe disse a respeito dos meus romances e outros escritos, que o cultíssimo diplomata brasileiro andava desde então à minha procura pelo telefone, sem conseguir ligação. O Oliveira Martins nos ligou inesperadamente, sem saber que bom serviço me prestava ao convidar-me.
E pronto! Esta sua carta vai tão extensa como a do Gilberto Moura: a bem do correio, cujas tarifas subiram verticalmente.

Abraça-o, como sempre, o seu amigo muito grato

Francisco Costa

PS. Leio em LÍNGUA PORTUGUESA (Junho, 1983), a propósito do recente CONGRESSO SOBRE A SITUAÇÃO ACTUAL DA LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO, estas palavras do director da revista: "Não sei de mais alto serviço prestado à língua portuguesa".
Então os autores que escreveram em português, desde o século de Camões ao de Fernando Pessoa, não prestaram serviços relevante à língua pátria?

nota - João Bigotte Chorão, Diálogo com Francisco Costa, Sintra, Santa Casa da Misericórdia [1994]. Conferência. Uma carta que é um documento notável sobre as tensões ideológicas que a literatura portuguesa conheceu no século XX, com as suas vítimas e os seus triunfadores.




sexta-feira, 24 de maio de 2019

Lisboa, 23 de Outubro de 1915: Fernando Pessoa a John Lane

Lisboa, 23rd. October 1915

Sir,

I am sending you with this letter copies of sixteen poems of mine, fifteen of which are representative of the work contained in a book of English poems which I find myself to have written.
Putting aside for the moment the opinion I myself may form from these poems, the fact remains that I cannont, of course, have any idea, not of the objective, but of the (so to speak) temporal, value of these poems. Hence I cannot rightly measure what probabilities attach to a publication of them.
You will be the best judge of this, and, seeing that you have extensively published modern English poetry, I send you these poems as a sort of inquiry whether you would be disposed to publish a book the substance of which is precisely on the lines which these poems represent.
The book would cover about 200 pages, taking as typical page that of, say, your edition of Ernest Dowson's poems. It would include no long compositions -- none longer, I believe, than the Fiat Lux sent you. I have indeed longer poems written in English, but these could not be printed in a country there is na active public morality; so I do not think of mentioning them in this respect -- that is to say, in respect of a possibility of their being published in England.
The circumstances attending first-hand criticism have in all times been so uncertain, that I hope you will no be offended if I ask you to read the poems more than once, or so to have them read. Their chieg merit, if they have one, is precisely in that they do no enter into the stream of any current poetical movement -- except, perhaps, the Portuguese «sensationist» movement, of which I am the leader --; so that, the more cultured and educated the critic of them is,  the more likely he is to find a pitfall for is judgement, for the less improbable is it that his mind is already herdened in a definite mould.»
These poems contain, here and there, certain eccentricities and peculiarities of expression; do not atribute these to the circumstance of my being a foreigner, nor indeed consider me a foreigner in your judgement of these poems. I pratice the same thing, to a far higher degree, in Portuguese. If, however, you prefer to consider these modes or strangeness as the wild cats of the imagination, I hope you will let me lay claim to sowing them consciously.
The fact is that these are forms of expression necessarily created by na extreme pantheistic attitude, which, as it breaks the limits of definite thought, so must violate the rules of logical meaning. The poems I am sending (and the others I have referred to) are, however, the mildest in this sense; I spare you all special reference to the poems which properly represente what I cal the «sensationist attitude», save that, to give you some idea of the thing meant, I add to the fifteen poems a sensationist poem in English. This, as stated, does not belong to the book.
Please adress your reply to: Fernando Pessoa -- Director de «Orpheu» -- Rua do Ouro, 196 -- Lisboa.
Awaiting with much interest your opinion, and thanking you for it in advance, I am, Sir,
Yours faithfuly,

Mr. John Lane,
Publisher,
London.

nota - Fernando Pessoa, Correspondência Inédita, edição de Manuela Parreira da Silva (Lisboa, Livros Horizonte, 1996). A carta a Lane (1854-1925) insere-se no propósito de Pessoa em levar o seu «sensacionismo» a cruzar a fronteira (ver). ).

 

sexta-feira, 10 de maio de 2019

30 de Julho de 1867: Camilo Castelo Branco a Eduardo Costa Santos

Meu amigo:

D. Ana e eu lhe agradecemos mui cordialmente a oferta de um laborioso e utilíssimo trabalho. Na 2.ª edição do «Cavar em Ruínas», se se fizer em minha vida, farei menção da nota do meu amigo.
A maior parte dos livros que me propõe em troca, a tenho nas Memórias da Academia. Outros, afora aqueles, já os possuo, e alguns não interessam ao género dos meus estudos. Relativamente aos abatimentos, que o meu amigo faz aos livros que por aí tenho, são eles tamanhos que não os aceitaria eu. É certo que autorizei o Eduardo a abater, mas com abatimento também da percentagem que lhe designei. Sem isso não terão eles tão desgraçado fim. Prefiro recolhê-los porque merecem mais alguma estima. Do seu muito amigo

30 de Julho 67.

Camilo Castelo Branco






nota - publicado por António Cabral, Homens e Episódios Inolvidáveis (1947), que identifica o destinatário, um dos editores de Camilo, embora com reservas. É possível que a carta tenha que ver com um dos leilões da sua livraria.

domingo, 5 de maio de 2019

Caminha, 1 de Janeiro de 1923: Luciano Pereira da Silva a Joaquim de Carvalho

Meu prezado Amigo:

Recebi a sua carta que lhe agradeço. A respeito do original do Hümmerich, não se lhe pode exigir que o mande dactilografado, pelo menos este primeiro trabalho que ele tem pronto, e está copiado pela senhora dele, com certeza com m.to boa letra para ir para a imprensa. Ele escreve sempre em letra m.to legível, e com certeza o original vem assim. Eu lerei ao compositor a primeira, ou as primeiras páginas, e como eu assistirei à composição, e reverei as primeiras provas, isso caminhará rapidamente.
Para pedir ao Dr. Hümmerich que me mande o original, espero as suas informações sobre os caracteres sânscritos.
Pergunta-me se recebi as Cartas do R. Sanches, que eu m.to lhe agradeço. Mas mandou-mas para Caminha, ou para a minha casa de Coimbra, Palácios Confusos? Se mandou para aqui não recebi. Se mandou para os Palácios Confusos, lá me entregarão o livro, q.do eu regressar a Coimbra, onde tenciono chegar no dia 6.
Os trabalhos do Hümmerich são m.to importantes e para nós m.to interessantes, por serem relativos a coisas portuguesas.
Estive agora com um professor do Liceu de Braga, natural deste concelho, amador e negociador de coisas antigas, e possuidor de livros e pergaminhos. Falou-me de uns manuscritos, que apanhou em Braga, e eu propus-lhe que lhos mandasse (sendo eu o portador, q.do puder ser), para serem publicados, se tiverem valor, sendo-lhe depois restituídos a ele. Não foi fora disso. Eu disse-lhe isto, pensando na sua projectada publicação. Quem sabe se ele terá coisa de valor, inédita, é claro! Será bom ver.
E não lhe tiro mais tempo. Disponha do que é, com especial estima,

Seu amigo certo e m.to grato

Caminha, 1.I.23

Luciano Pereira da Silva

P. S. Agora mesmo recebo da mão do carteiro, as Cartas. M.to e m.to obrigado, pelo seu presente de Ano Novo. tive de rasgar o envelope da carta, para introduzir este grato suplemento.

nota - Correspondência de Luciano Pereira da Silva para Joaquim de Carvalho, introdução e notas por José Barbosa, separata, do Bol. Bibl. Univ. Coimbra, vol. 39 - 1984, Coimbra, 1985. Matemático e historiador da náutica dos Descobrimentos, Luciano Pereira da Silva (1864-1926) faz a ponte entre Franz Hümmerich, autor, entre outros, dum estudo sobre o roteiro da viagem de Vasco da Gama, para a sua publicação na Revista da Universidade de Coimbra, dirigida por Joaquim de Carvalho. A referência bibliográfica a Ribeiro Sanches: Cartas Sobre a Educação da Mocidade (1760), publicadas no ano anterior pela Imprensa da Universidade, com edição de Maximiano de Lemos.




domingo, 28 de abril de 2019

Coimbra, 2 de Março de 1903: João de Barros a Teixeira de Queirós

Illmo. e Exmo. Senhor

Permita V. Excia. que eu, agradecendo-lhe muito a sua carta, procure justificar a ideia dos meus versos.
O que V. Excia. chama ironias volterianas são apenas argumentos -- os argumentos de que eu, poeticamente, podia e sabia usar e que não têm a mais leve intenção irónica. Não encontrei outro modo de provar a humanidade  da Virgem Maria, isto é, de destruir o fundamento evangélico do símbolo, que é, na verdade, mt.º belo, mas que me parece não representar já, não resumir uma aspiração dos homens; e que, por isso mesmo, é falso. Penso que a Vida, cuja concepção é cada vez mais larga e menos mística, requer novos símbolos. E que ajudar a destruir os antigos é ajudar o progresso, ou antes, é ser levado por ele.
Efectivamente a tendência para significar no vivo palpável o que existe no nosso vivo impalpável, como V. Ex.ª diz, ou para a materialização dos símbolos, é inseparável e natural do espírito humano; mas é preciso que desapareçam as antigas imagens para dar lugar às novas, às que merecem a adoração dos homens de hoje, às que representem os novos símbolos -- a não se acreditar num futuro em que elas se tronem inúteis pela maior perfeição moral da humanidade.
Não falo das desastrosas consequências práticas que tem dado a crença na Virgindade de Maria. Foram elas, no entanto, que inspiraram os meus versos.
Enquanto à poesia deste símbolo, o meu espírito -- por incompleto, certamente -- não a reconhece como actual, como tema que ainda possa dar vida a composições poéticas. O Soneto de Antero é muito bom; mas parece-me mais dirigido à Mãe dos Pecadores, à Senhora dos Aflitos, que propriamente à Virgem.
Perdoe V. Excia. a minha franqueza. É possível, é natural até, que me engane; mas disse a opinião a que cheguei pelo que tenho lido e pensado; opinião que, se não tem valor nenhum ou é errada, teve no entanto o merecimento de me valer a sua boa carta.
Subscrevo-me, com todo o respeito.

1903-III-II
Coimbra

De V. Excia.
Admirador e Amigo Mtº Reconhecido
João de Barros


nota - resposta a esta carta. Publicada por Manuela de AzevedoCartas a João de Barros, Lisboa, Livros do Brasil, s.d. Segundo a editora, o poema em apreço terá sido publicado em Caminho do Amor (1904).

terça-feira, 16 de abril de 2019

Lisboa, 5 de Fevereiro de 1949: Marcelo Caetano a José Magalhães Godinho

Lisboa, 5 de Fevereiro de 1949

Exm.º Sr. Dr. José de Magalhães Godinho:

Acuso a recepção da carta de V. Ex.ª, datada de ontem, à qual tenho a responder o seguinte:
1.º -- A entrevista a que V. Ex.ª se refere não foi redigida por mim. Na conversa que tive com o representante da ANI pediu-me este que desse um panorama das correntes da oposição; ao tentáculo, quando me referi à cisão do Partido Socialista, pronunciei efectivamente o seu nome e de outras pessoas que, segundo me constava por informações diversas, representavam a tendência da SPIO. Não é minha responsabilidade directa, portanto, a investidura de V. Ex.ª na chefia desse sector socialista ou a sua designação como pessoa mais representativa dele.
2.º -- Em qualquer hipótese nunca me passou pela cabeça que o dizer-se, de mais a mais neste período, que A ou B pertence a uma facção possa ser considerado uma denúncia, tratando-se ainda por cima de quem nunca escondeu as suas, aliás respeitáveis, convicções oposicionistas.
3.º -- Agradeço os esclarecimentos que me dá sobre a sua posição ideológica e de bom grado rectificarei a informação constante da minha entrevista acerca da sua simpatia acerca da sua simpatia pela colaboração com os comunistas.
À semelhança de V. Ex.ª, reservo-me o direito de fazer desta carta o uso que entender conveniente e sou,

de V. Ex.ª, com a devida consideração.




nota - resposta a esta carta. In José Magalhães Godinho, Pela Liberdade, Lisboa, Publicações Alfa, 1990

quinta-feira, 11 de abril de 2019

29 de Maio de 1930: H. Lopes de Mendonça a Ferreira de Castro

Meu Ex.mo e prezado Camarada

Li com imenso interesse o romance A Selva, com que teve a gentileza de me brindar. Confirmaram-se e melhoraram ainda as belas impressões que me tinha deixado Os [sic] Emigrantes. Procuro fugir ao tom pedantesco para francamente, sem ares de pedagogo que seriam descabidos, lhe manifestar o meu sentimento de viva admiração. Sem sombra de lisonja, afirmo a V. Ex.ª que através da sua visão de português vejo melhor o interior do Brasil do que na retina dos escritores brasileiros. Podia atribuir-se isto à afinidade que existe entre as visões de dois europeus. Mas, seja como for, é necessária uma grande energia no descritivo e uma intensidade grande de colorido, para que os quadros se me apresentem tão cheios de vida cinematográfica. Creia V. Ex.ª que é com sincera efusão que o cumprimento e o felicito.
Faltaria a um dever de consciência para com um artista do seu alto valor, se muito de relance não indicasse o principal senão que se me deparou no seu livro. A acção romântica pareceu-me desconexa um pouco, e até às vezes obscura em consequência de certas falhas de narrativa. Este senão é contudo sobejamente resgatado pelas eminentes qualidades que tive o grande prazer de apontar.
Há meses -- não sei se lhe constou -- saí com o peso dos meus 70 e tantos ao escritório da rua do Carmo para ter o prazer, ainda inédito, de apertar a mão que tão belos livros escreve. Senti não o ter conseguido. E agora maior pesar tenho de ainda de não se me deparar ensejo de manifestar verbalmente a V. Ex.ª a minha admiração e a minha simpatia literária, e de desenvolver algumas considerações que a leitura dos seus livros me sugere.
Não o podendo fazer, sirvo-me deste meio para reiterar as minhas felicitações e os meus agradecimentos, subscrevendo-me, com a maior consideração e estima.

De V. Ex.ª
Adm.or e cam.ª obg.mo

H. Lopes de Mendonça

S/C
29-V-30

nota -- Publicado por Ricardo António Alves, Cartas Inéditas a Ferreira de Castro, Sintra, Vária Escrita #1, Câmara municipal, 1994. Lopes de Mendonça (1856-1931), autor dos versos de A Portuguesa, além de erudito historiógrafo da náutica dos Descobrimentos, era um exigentíssimo estilista. A sanção de uma figura deste peso já histórico -- concorrera com Eça de Queirós a um mesmo concurso promovido pela Real Academia das Ciências, tendo o seu Duque de Viseu logrado alcançar o discutido favor do júri em detrimento de A Relíquia --, constituiria para o jovem literato que se fez a si próprio uma distinção de modo algum desprezável. Vinha já longe o tempo das ousadias alardeadas pelo Mas...(1921).


sexta-feira, 5 de abril de 2019

6 de Março de 1927: Raul Proença a Fidelino de Figueiredo

Vamos enviar para os jornais portugueses a resposta às suas miseráveis calúnias. Se a publicarem, intimamo-lo a que nos responda! Se a não publicarem, devo adverti-lo de que não há maior ilusão do que pensar que sempre se negará em Portugal aos acusados o direito de defesa. Um dia há-de chegar em que a minha pena possa infligir-lhe nos principais jornais do país o castigo que merece. Serei implacável. Terá o direito de se defender por sua vez. Isso não impedirá que fique desfeito em lama.
O sr. (tão insignificante, mas ao mesmo tempo tão inconsciente) não faz a menor ideia das responsabilidades trágicas que acaba de assumir. Não é só pela calúnia que terá a responder. Será também pela destruição sistemática da nossa obra, já iniciada pela liquidação da tipografia. O seu ódio pessoal levou-o a tratar como inimigo a Biblioteca. Pagá-lo-á! Um dia saberá como a minha pena e as minhas mãos são duras quando têm a zurzir miseráveis da sua laia.
6 Março 1927
Raul Proença

Nota -- in Raul Proença, O Caso da Biblioteca,  Lisboa, Biblioteca Nacional, 1988; edição de Daniel
Pires e José Carlos Gonzalez. Um caso triste de contenda entre dois dos mais brilhantes intelectuais portugueses da sua geração, na sequência do saneamento de Proença (1884-1941), Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro e outros da direcção da Biblioteca Nacional, assumida de novo por Fidelino (1888-1967), lugar que ocupara no tempo do sidonismo. Nunca chegariam a cruzar-se: quando Proença regressa a Portugal -- depois da participação no 3/7 de Fevereiro de 1927 e consequente expatriação -- será a vez de Fidelino estar exilado, por décadas. 

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Londres, 20 de Abril de 1911: M. Teixeira-Gomes a João Chagas


Londres, 20 de Abril de 1911

Meu caro Amigo:

Respondo à sua carta de 15, a primeira que daí recebo dando-me informações de utilidade.
Como sabe não temos política internacional indicada, de forma que o trabalho dos representantes da República no estrangeiro far-se-á bastante à solta, o que seria um bem, sendo eles sinceros e patriotas, se andassem bem informados. Mas daí não vêm informações oficiais que esclareçam coisa alguma, e os amigos políticos andam demasiado absorvidos com as suas respectivas ocupações para pensarem na necessidade de ter sempre esta Legação -- ou o seu encarregado -- bem a par do que se passa em Portugal. No entanto, agora é que eu constato, toda a nossa vida social, a nossa estabilidade política, a nossa nacionalidade, a conservação das nossas colónias, tudo depende, absolutamente, da Inglaterra, e parece-me que serão precisos dezenas de anos de administração modelar, para nos libertarmos da sua tutela, se é que isso é realizável.
Ora, pense o meu amigo que é aqui que reside a família real portuguesa, conservando relações excelentes com a corte inglesa e tratando por via do Soveral com os Lordes que possuem e dispõem incondicionalmente de quase todos os jornais, e avaliará como a minha missão é fácil. Acresce que não temos vintém para as mínimas despesas essenciais e para as mais simples gratificações ou presentes deve o ministro  buscar recursos da sua própria receita. Você diz-me que cuide na publicidade dos meus actos em Portugal. Do essencial recebe o nosso ministro relatos, pelos cortes dos jornais que se lhe mandam. Veja se algum jornal, dos que lhe pertencem, já se referiu a eles. Para bem tratar desse assunto seria forçoso tomar secretários particulares e redobrar de trabalho: ora, já não é possível dar mais. desde que aqui estou não distraí das minhas obrigações meia dúzia de horas e parece-me que está tudo por fazer. Devo dizer-lhe que estou satisfeito com os meus secretários da Legação. O Câmara Manuel é um solteirão habituado à repartição e que dá muito boa conta do seu recado e o Ferreira de Almeida talvez um pouco socancra, trabalha, no entanto, com muita consciência e posso agora afirmar-lhe que ambos se me têm mostrado colaboradores ideais. Tenho também um rapaz inglês -- que eu pago da minha algibeira -- inteligente e zelosíssimo, que presta muitos bons serviços, e todos nós trabalhamos na medida das nossas forças. É para notar que por lei esta Legação devia ter dois secretários -- além dos adidos -- e somente tem um secretário e um adido que exerce as funções de segundo secretário. E é quando a república procura tomar força que semelhante Legação está tão bem provida de funcionários!
Agora temos, palpitante, a questão de Lourenço Marques. É um caso seriíssimo.
A imprensa, evidentemente assoprada pelos nossos vizinhos africanos, quer fazer na Inglaterra uma atmosfera favorável a qualquer golpe de mão, como seria um raid promovido pela judiaria da União Sul-Africana, e o mais curioso é que o Governo inglês instado pelo cônsul de Lourenço Marques, e intimado pela imprensa inglesa a mandar navios de guerra para aquele porto, ainda não conseguiu pôr nenhum dos couraçados que compõem a esquadra do Cabo em termos de se fazer ao mar. Agora anuncia-se como certa a saída de um cruzador amanhã, do Cabo para Lourenço Marques.
Para fazer ideia do que se passa naquela nossa colónia valeram-me umas conferências que aí tive com o Baltasar Cabral e o Freire de Andrade, e foi assim que, ao anúncio espalhafatoso da revolução em Moçambique, anarquia em Lourenço Marques, proclamação de uma nova república sul-africana, etc., eu pude afirmar nos jornais que tudo se reduzia a uma exaltação, sem consequências, dos elementos republicanos que exigiam do Governo da Metrópole a demissão de alguns empregados que o Governo Provisório conservara. Dois dias estive sem receber daí esclarecimentos, que pedi logo à publicação das primeira notícias, e por fim veio uma coisa a dizer o que eu já anunciara aqui. Mas o caso, repito, é seriíssimo. Olhem bem, para ele.
Já pedi o folheto do Columbano, e pelo menos duas bandeiras: uma para a Legação, e outra para dar à Sociedade Shakespeariana, que arvora ainda a antiga, e a quem é costume as nações presentearem com as suas bandeiras. Espero que atenderão sem demora o meu pedido, tanto mais que o fiz particularmente, e com muita instância, ao próprio Bernardino. -- Pelo que tenho descoberto foi o bispo do Funchal quem se encarregou de arranjar -- de acordo com os Jesuítas, os emissários para a propaganda anti-republicana na Europa, mandando um para aqui e os outros para Paris, Roma e Berlim. O daqui chama-se Mendes -- mas não sei que profissão tem. Sei porém que é muito inteligente, que está informado de quanto se passa em Portugal, e vai receber ordens a Richemond com grande frequência.
Logo que saiba alguma coisa do que está em Paris, informá-lo-ei. O célebre padre Cabral trabalha actualmente na Holanda. Ainda lhe alcançaram no Museu Britânico uma colocação bem remunerada, mas ele recusou-a, para ficar livre. Parece-me que já temos conversado bastante.
Veja você se me pode dar, antes de sair daí, algumas informações mais, sobretudo sobre o que se espera dos resultados das eleições: se há probabilidades de levar à Câmara algumas criaturas de jeito. -- Anuncie a sua chegada a Paris por telegrama.
Do coração

Nota -- Correspondência I -- Cartas para Políticos e Diplomatas, Lisboa, Portugália Editora, 1960. Edição de Castelo Branco Chaves. Manuel Teixeira-Gomes, além de ser um dos grandes escritores portugueses do século XX, foi igualmente um extraordinário diplomata, o rosto da República em Londres, o mais importante posto diplomático do país, então. Dos desafios, a carta é eloquentemente elucidativa. Foi também Presidente da República (1923-25), o único a resignar, enojado com a política de porcaria, com grande vantagem também para a nossa literatura, pois mais de metade da sua obra é publicada após a renúncia ao cargo.  Chagas, embaixador em paris, viria a sobraçar daí a uns meses a pasta do Negócios Estrangeiros.




quarta-feira, 20 de março de 2019

Fontanelas, 6 de Abril de 1966: Vergílio Ferreira a Alberto da Costa e Silva

Fontanelas, 6 de Abril de 1966.

Caríssimo Alberto,
Foi uma grande alegria receber notícias tuas e à falta de uma boa cavaqueira nesta Lisboa que se me vai envelhecendo rapidamente, aqui estou a conversar contigo enquanto a noite não vem de todo. Entretanto espero que tenhas recebido um romance meu -- Alegria Breve -- que te dirá talvez mais de mim do que direi aqui. É uma confissão de cansaço e daí talvez que o estejam aceitando. Porque estamos todos tão cansados. Por mim venho-me habituando de há muito e por isso a fadiga entrou sem fazer mossa. Mas os camaradas da ortodoxia estão aflitos. A famosa História está sempre jovem; eles casaram com ela, mas já estão velhos para lhe darem despacho. Assim se lamentam pelos cantos, enquanto a bela História os vai corneando alegremente.
E assim é que, meu caro Alberto, os meus ensaios os não molestaram muito. Os problemas caseiros correm-lhes mal e quase é um conforto que outros lhos lamentem. Porque isto vai mesmo mal. Na política, mas antes na cultura. Tudo evolui tão rapidamente, que está a gente a chorar uma desgraça e já outra bate à porta. Com as desgraças dos ortodoxos não me importo muito. Mas há as minhas -- há as nossas. Já reflectiste um pouco no que vai pela Arte? O mundo atravessa uma crise da puberdade e, como a natureza nesta quadra da primavera, está pondo a casa em ordem. Mas por ora deita apenas fora os trastes velhos, como a natureza se limpa do que já apodreceu. O pior é que já cá não estarei -- nem talvez tu -- quando tudo for mobilado de novo.»
A Arte é a grande reveladora da vida. E é por isso que ela se despedaça. Mas antes isso que o museu de Grévin. E os bonecos de cera que nos queriam impingir. Tudo isto é fímbria -- dirás tu -- e efeito passageiro desta Semana de Trevas. Não é. Além de que sempre tenho procurado assumir tudo -- mesmo os funerais. Assim os aceito em calma sufocante como os casamentos. Que a sorte me proteja com a mesma calma quando o meu funeral se aproximar.
Pouco contas de ti, da Verinha, dos meninos. Verinha melhor? Vocês fazem muita falta. Sabíeis construir um recanto bem agradável para um refúgio desta estopada que é Lisboa. Tu, por exemplo, deves ter seguido algum curso altamente especializado para fazer amigos. Ou veio-te isso no sangue? Porque os breves anos aqui passados deixaram uma grande saudade em todos os que te conheceram.
E tu, não tens escrito? Deixaste a lira por cá? Ela tinha pelo menos, com efeito, algumas cordas portuguesas.
Um grande abraço da Regina e meu para Verinha e para ti.

Vergílio


Nota - in JL-Jornal de Letras, Artes e Ideias, Lisboa, 6 de Janeiro de 2016, número dedicado ao centenário do nascimento de Vergílio Ferreira. Tanto Alegria Breve como o primeiro volume de Espaço do Invisível são de 1965, enquanto que em 1966, ano desta carta, Neste ano, Alberto da Costa e Silva publicará Livro de Linhagem (1966).


domingo, 10 de março de 2019

Espinho, 4 de Março de 1904: Manuel Laranjeira a Luís Pinto Ribeiro

   Meu caro Luís:

Agradecido pela tua carta e pelos jornais que me enviaste. Vamos indo. A imprensa foi amável. Até o Diário Ilustrado foi bondoso. A única amabilidade que o dito jornaleco me podia fazer a ponto de lisonjear-me foi fazendo o que fez. Tu dizes que aquilo é porco. Não, meu velho! Não!!! não, mil vezes não! Aquilo o que é -- é mas é tolo. Unicamente tolo! Sabes? O Mundo espantou-me pela honestidade. O homem que escreveu a crítica do meu prólogo dramático pode ser um burro, dizer imbecilidades; mas o que ele é -- é um homem honesto., dizendo as coisas como as sente, sem preocupações de coteries. Meu filho! Dou-me por imensamente satisfeito em ter escrito um livro que, mais mágico que a lanterna de Diógenes, me fez topar na vida um homem honesto. Vale a pena ter escrito um livro por tal preço. Porque, meu Luís, mais do que o talento vale a honestidade.
Uma outra coisa para mim significativa resultou dessa récita. E foi o seguinte: ficar eu sabendo dum modo certo que em Portugal existe um público. O que nos falta é um teatro. Público ávido de coisas boas há-o; o que não há é essas coisas boas. Isto é o que ficou nitidamente demonstrado. Já não há dúvidas sobre tal. É qualquer coisa de importante saber-se isto, não achas?
Encontrei teu irmão, falei-lhe, mas ele andava tão distraído que mal me pôde responder. Disse-me que amanhã fazias anos. Parabéns e adeus.
Um abraço deste teu amigo

     Espinho, 4 de Março de 1904.
Manuel Laranjeira.

P.S. -- Se houver por aí mais algum jornal que se refira ao ...Amanhã e que tu saibas, envia-o, sim?

Teu

M. Laranjeira

Nota - Cartas de Manuel Laranjeira, Lisboa, Relógio d'Água, Lisboa, s.d, a partir da edição de 1943, de Ramiro Mourão. Amanhã, prólogo dramático, primeiro título do autor. 

quinta-feira, 7 de março de 2019

4 de Janeiro de 1973: Adérito Sedas Nunes a Marcelo Caetano

4/I/73
          Exmo Senhor Prof. Doutor Marcello Caetano,
          Ilustre Presidente do Conselho

     Senhor Presidente,

Como V. Ex.ª sabe, o Prof. Francisco Moura encontra-se detido pela DGS em Caxias desde a noite de 31 de Dezembro. A este respeito permita-me V. Ex.ª que leve ao seu conhecimento o seguinte.
Desde que fui informado da detenção do Prof. Moura, procurei inteirar-me de todos os acontecimentos com ela relacionados, colhendo informações e depoimentos rigorosamente fidedignos. É-me assim possível afirmar ser totalmente infundada qualquer acusação ou suspeita de que o Prof. Moura haja sido organizador ou tenha desempenhado qualquer papel na orientação dos actos levados a cabo na capela do Rato. Aliás, o Prof. Moura esteve ausente do País nos dias que os precederam e não teve deles conhecimento até ao momento em que pessoas já preocupadas com a direcção que os mesmos estariam a seguir lhe pediram para comparecer. Chegou à capela cerca de uma hora e meia antes da intervenção policial e durante esse período limitou-se a assistir em silêncio ao que se estava passando.
Dizem-me que se suspeita de uma ligação entre a iniciativa que conduziu aos actos efectuados na capela e a deflagração de explosivos, acompanhada da difusão de panfletos, ocorrida no dia 31 de Dezembro. Gostaria, porém, de assegurar a V. Ex.ª que, conhecendo de muito perto, como V. Ex.ª sabe, o Prof. Francisco Moura, com quem tenho muito contacto, estou talvez melhor colocado que ninguém para poder considerar completamente absurdo que acerca dele se possa pôr a hipótese de ter qualquer relação  com organizações cujos meios de acção sejam dessa natureza.
De todo o modo e independentemente dos juízos que se formulam a respeito das posições que noutras circunstâncias têm sido assumidas pelo Prof. Francisco Moura, com cujas opiniões e atitudes  eu mesmo me encontra não raras vezes em discordância, estou certo de que V. Ex.ª concordará com que se trata de uma pessoa merecedora do máximo respeito. Ora, é-me doloroso ter de comunicar a V. Ex.ª que, através de informações recebidas da família, que ontem foi autorizada a visitá-lo, tenho de concluir que o Prof. Moura não tem sido efectivamente tratado com a atenção e consideração que lhe são devidas. de facto, além de dar sinais muito visíveis de cansaço físico e moral, o Prof. Moura apresentou-se no parlatório com o cabelo cortado (!) e queixando-se do frio, sono e isolamento. Das suas palavras parece inferir-se que se encontra numa cela onde não entra a luz do sol.
Queira aceitar, Senhor Presidente, com as expressões da minha mais elevada consideração, os melhores cumprimentos do

A. Sedas Nunes

Nota - Publicada por José Freire Antunes, Cartas Particulares a Marcello Caetano, vol. I, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1985. Em apreço está um momento decisivo para a sobrevivência do regime, o da Vigília da Capela do Rato, que conjuga os sectores católicos contrários à guerra colonial, sectores da esquerda armada, como a acção certamente concertada, das Brigadas Revolucionárias, e os efeitos, que no mês seguinte trará à continuidade da chamada 'Ala Liberal' no apoio a Caetano.


terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Paris, 6 de Agosto de 1894: Eça de Queirós a Alberto de Oliveira

Paris, 6 Agosto 1894.


Ex.mo e caro amigo:


Não me queira mal, ou esqueça o mal que me tenha querido por eu só tão tarde ter agradecido o elegante livro.
«O coração põe e a Vida dispõe»: e a minha tão tiranicamente se tem comportado que não me deixa tempo para cumprir uma obrigação logo que a ela se mistura muita devoção.
Foi com alvoroçada simpatia que abri as folhas das Palavras Loucas. Mas Loucas porquê? Através delas só entrevi Razão, e madura, ou na fácil véspera de amadurecer. E nelas próprias só vi precisão, limpidez e ritmo que são qualidades de Razão e das melhores. É por esta linda arte de bem-dizer que eu o quero sobretudo louvar, -- ou antes felicitar, porque a Prosa é um dom, e dos Deuses, como a Beleza. Enquanto às suas ideias -- não lhe parece que o Nativismo e o Tradicionalismo, como fins supremos do esforço intelectual e artístico, são um tanto mesquinhos? A humanidade não está toda metida entre a margem do rio Minho e o cabo de Santa Maria: -- e um ser pensante não pode decentemente passar a existência a murmurar estaticamente que as margens do Mondego são belas! Por outro lado o Tradicionalismo em Literatura já foi largamente experimentado, durante trinta largos anos, de 1830 a 1860 -- e certamente não resultou dele aquela renovação moral que Portugal necessita, e que o meu amigo dele espera. Tivemos xácaras e romanceiros, e lendas e solaus, e moiros, e beguinos, e besteiros, e sujeitos blindados de ferro que gritavam com magnificência -- «Mentes pela gorja, D. Vilão!» -- e uma porção imensa de Novelística popular, e paisagens Afonsinas com torres solarengas sobre os alcantis, e tudo o mais que o meu amigo reclama como factor essencial de educação... E de que serviu tudo isso para o aperfeiçoamento dos caracteres e das inteligências, ou sequer para a sua renacionalização? De resto, o movimento Tradicionalista, cuja ausência o meu amigo lamenta, ainda não cessou, está em torno de si. Tomás Ribeiro, Chagas e toda a sua descendência literária, são tradicionalistas. E esses «Príncipes Perfeitos» e Duques de Viseu, e Pedros Cruz , e D. Sebastiões que frequentam o palco de D. Maria não creio que tivesse chegado aí, de Paris, pelo sud-express. E o resultado?...
Não, caro amigo, não se curam misérias ressuscitando tradições. Se a França, depois de 1870, tivesse resumido o seu esforço em renovar na Literatura as Chansons de Geste , ainda cá estavam os Prussianos. O dever dos homens de inteligência num país abatido, tem de ser mais largo do que reconstruir em papel o Castelo de Lanhoso ou chamar as almas a que venham escutar os rouxinóis do Choupal de Coimbra.
Em todo o caso o grito do Tradicionalismo é um belo grito, sobretudo quando nos chega numa voz tão polida, e culta, e penetrante, e elegante como a sua. E aqui volto ao meu primeiro louvor, o da forma excelente, tão fina e luminosa, que reveste todo o seu livro. Quando se possui um tão belo instrumento, deve-se tocar uma ária mais larga e mais profunda que a do neo-medievalismo e do neo-trovadorismo. E, a propósito, o que é o Neo-Garrettismo? Estou com muita curiosidade de saber a que nova concepção do Universo, a que novo método Científico, ou a que feitio original do espírito crítico, deu o seu grande nome o mestre genial do Frei Luís de Sousa. Se o Neo-Garrettismo é um sistema que nos habilitará, a todos, a fazer Frei Luíses de Sousas e Autos de Gil Vicente, então, por Júpiter! sejamos todos neo-garrettistas com fervente entusiasmo! Para me explicar todas estas coisas e sobretudo para o ver e abraçar é que eu desejo vivamente que se realize a sua vinda a Paris, que há tempos me foi anunciada por um amigo. É para este Outono?
E o António Nobre? Sei que ele está em Paris: mas esse moço encantador, desta vez, nem sequer me quis dar o gosto de saber onde instalara os seus lares. Da sua morada, onde quer que ela seja, à minha, não haverá (dada a extensão de Paris) mais de meia hora de fiacre. Eu, porém, que sou um fiel ledor de Homero, sei quanto custa aos Deuses descerem do Olimpo. Já o dizia Hermeias (vulgo Mercúrio) a Kalipso, que como sabe, morava burguesmente numa ilha do Arquipélago: -- «Cuidas que não é uma grande maçada descer dos sólios estrelados, para vir a estes tristes sítios mortais, onde nunca se respira um bocado de bom incenso nem se bebe um bocado de bom néctar?». -- Mas nisto se engana o meu amigo, porque se eu o desejava ver era justamente para lhe repetir quanto o estimo, e para bebermos juntos um pouco de Médoc, que é o desconsolado néctar destes tempos. Quando lhe escrever ralhe com ele, docemente.
E, enfim, caro amigo, um bom abraço, depois desta tagarelice, e agora, e sempre, me creia, fielmente

Seu muito dedicado

Eça de Queirós
Nota - Publicada por Alberto de Oliveira, Eça de Queiroz -- Paginas de Memorias, Lisboa, Portugal-Brasil Sociedade Editora, 1919. Um prodígio de humor e ironia, a propósito do vezo tradicionalista de Alberto de Oliveira e o neo-garretismo  -- expressão que lhe pertence, que se estende às peculiaridades do seu muito próximo António Nobre. Ao contrário do que alguns pensam, e gostariam, o Eça nem com o aproximar-se do fim foi um reacionário.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

1872: Oliveira Martins a João Lobo de Moura

Meu caro Lobo.

Você que para ser D. João de Castro só lhe falta o ter nascido no século XVI, V. que na índole, no temperamento, no gesto e na fisionomia, tem marcado o carácter guerreiro antigo do Portugal conquistador, V. -- estou certo -- há-de compreender o sentimento deste livro que lhe mando. Se Portugal não pode hoje conquistar Cacilhas, porque -- ai de nós! ela não é moira; é necessário que quando nos voltamos para o passado, possamos sentir a alma, porque ele vivia para o compreendermos; de outra forma a história torna-se ou uma cronologia muda, ou, o que é talvez pior, a justaposição de fonomonalidades animais.
Diga-me francamente, meu caro Lobo, se encontra nos Lusíadas em mundo português antigo, fenómeno histórico que morreu para não ressurgir, em Portugal, para onde V. gosta de voltar-se tanto esses homens cuja vida, cujas crónicas  o entretêm, o impressionam.
Além do sentimento, meu caro Amigo e com ele e por ele, V. é de toda a nossa antiga roda de Lisboa a pessoa que mais conhecia o Portugal descobridor-conquistador, pelos caracteres, pelos ditos, pelos poemas. V. portanto é o melhor juiz para o meu livro.
Senti não poder ler-lho manuscrito: aí vai impresso. Julgue-o e mande-me a sentença.
Entretanto e sempre, creia-me meu caro amigo

Seu do C.

Oliveira Martins

Eu vivo:
Estación de Almadén. Minas de Santa Eufémia -- España.



Nota - Publicado por Francisco d'Assis Oliveira Martins, Correspondência de J. p. Oliveira Martins, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1926.  Os Lusíadas -- Ensaio Sobre Camões e a Sua Obra (1872), refundido em 1891, sob o título Camões, Os Lusíadas e a Renascença em Portugal. Trata-se do segundo livro de OM, depois do romance histórico Febo Moniz (1867), e o seu primeiro ensaio historiográfico; talvez por isso a carta denote uma ansiedade por ouvir a opinião dos pares (pediu também parecer a António Enes e provavelmente a outros.).



sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Lisboa, 9 de Março de 1903: Teixeira de Queirós a João de Barros

Lisboa, 9-3-1903

Meu amigo:

Agradeço-lhe a oferta da sua poesia À Virgem, que acho excelente como composição poética. Porém, não concordo com o seu fundamento filosófico que é dum volterianismo hoje fora de moda. Ou se acredita ou não no que dizem os evangelistas e doutores da Igreja acerca de Maria, o que é ponto secundário. Este belo símbolo que não é somente católico tem um grande interesse poético, considerado na sua pureza. Inúmeros poetas, que se não podem dizer fanáticos pelo espírito religioso o têm respeitado na sua pureza e na sua bela castidade. Antero de Quental é um deles, como sabe. Que belo soneto À Virgem Santíssima!
As ideias religiosas, os símbolos religiosos têm para nós a grandeza de criações do espírito humano e devem ser respeitados como tais. Certamente que não foram inventados para enganar mulheres dementes nem homens sem critério, ainda que as igrejas de todas as religiões se tenham servido deles com esse fim. A lenda da Virgem Maria é encantadora como símbolo poético e é-o para mim principalmente pela sua virgindade, pela sua castidade, que lhe dá um ar elevado e puro, livre das contingências e materialidades. Quanto à adoração das imagens foi o próprio Cristo que o condenou aos fariseus, mas esta materialidade também é uma tendência poética do nosso espírito: -- significar no vivo palpável o que existe no nosso vivo impalpável. Toda a escultura e pintura é isto. De modo que achando inscritos versos felizes na sua poesia, não concordo com as suas antigas ironias volterianas à Virgem, e principalmente à castidade deste símbolo.
Seu amigo



Nota - Publicada por Manuela de Azevedo, Cartas a João de Barros, Lisboa, Livros do Brasil, s.d. Carta interessantíssima Teixeira de Queirós (1849-1919) ao seu futuro genro João de Barros (1881-1960), tanto mais interessante por vir de um veterano escritor naturalista a defesa do valor e beleza simbólicos do dogma da virgindade mariana. Terá resposta.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

4 de Fevereiro de 1949: José Magalhães Godinho a Marcelo Caetano

4 de Fevereiro de 1949

Exm.º Sr. Prof. Dr. Marcelo Caetano:

     Acabo de ler no Diário Popular de ontem passos de uma entrevista concedida por V. Ex.ª ao Jornal do Funchal e, entre eles, leio uma referência directa à minha pessoa. É quando V. Ex.ª, referindo-se aos socialistas portugueses, declara: «Nunca foram, em Portugal, um partido poderoso e acham-se hoje divididos em duas correntes, como na Itália; uma, a do Sr. Dr. Ramada Curto, que não quer entendimentos nem aproximações com os comunistas, e outra, a do Sr. Dr. Magalhães Godinho e outros, favorável à colaboração com o comunismo, não sei mesmo se à fusão com o Partido Comunista.» Confesso que estas declarações de V. Ex.ª me deixaram estupefacto e indignado. Como pode V. Ex.ª assegurar que eu seja dirigente socialista e que eu pense desta ou daquela maneira, se nunca comigo teve qualquer conversação de natureza política, e se nunca eu fiz quaisquer declarações de natureza partidária? Eu sou republicano e, além disso, estou de acordo com a doutrina socialista, mas não sou dirigente de nenhum partido socialista e muito menos orientador de qualquer corrente para que possa afirmar-se a existência de socialistas do Dr. Magalhães Godinho e outros, tal como se os homens que pensam de determinada forma fossem propriedade deste ou daquele homem. Não sei o que o Sr. Dr. Ramada Curto pensa, e como não sou como V. Ex.ª, não me deito a adivinhar. V. Ex.ª, não sabendo o meu pensamento, não tinha o direito de referir o meu nome, em circunstâncias, mais a mais, que até permitem pensar-se na deselegância de uma denúncia. Mais, para que V. Ex.ª não faça mais confusões, sempre lhe direi que, não sendo comunista, não posso advogar fusões com o Partido Comunista, de cujos métodos políticos me acho totalmente afastado. O que por vezes tenho dito, ainda que só em conversas com amigos, é que entendo ter todo e qualquer partido político direito de viver à clara luz do dia, dentro dos preceitos que uma lei, igual para todos eles, estabeleça quanto à sua organização e funcionamento. Entendo, até, que todos os partidos políticos deviam ser constitucionalizados, a todos se consentindo a sua vida e propaganda dentro da mais perfeita legalidade, e desde que nenhum dele enverede pela propaganda da violência e da sublevação. É nesta ordem de ideias que, também, apesar de republicano, admito, em plena república, a existência de um partido monárquico; que, apesar de democrata, admito a existência de um partido que defenda o programa da União Nacional, ou de qualquer outro organismo político que defenda outro programa ou ideologia. E digo mais a V. Ex.ª que tenho para mim como certo que, no dia em que for consentida livremente, em Portugal, a associação em partidos políticos diferenciados, o Partido Comunista deixará de ter aquela importância que só o Estado Novo lhe tem dado e deixará de poder continuar a servir de papão como até agora tem servido na propaganda dos situacionistas. Porque não sou comunista, também eu quero combater a ideologia comunista, não me interessando de nenhum modo combater as pessoas comunistas, porque só as ideias e não os homens eu julgo que merecem ser combatidas ou seguidas. Não sei se há ou não comunistas apoiando a candidatura do Sr. General Norton de Matos, sei, porque nesse sentido houve pública declaração de pessoa responsável, que a Causa Monárquica apoia o candidato da União Nacional, e nem por esse facto eu posso ou devo concluir que a União Nacional queira restaurar a monarquia em Portugal, ou queira a sua fusão com a Causa Monárquica. Aqui tem V. Ex.ª, o que entendo dever, respondendo às afirmações atribuídas a V. Ex.ª, dizer-lhe, em reacção e protesto a essas mesmas afirmações.
     Reservo-me o direito de fazer desta carta o uso que melhor entender.
     Sem mais, sou

De V. Ex.ª com a devida consideração

José Magalhães Godinho, «Correspondência em 1949 com Marcelo Caetano»
Pela Liberdade, Lisboa, Alfa, 1990.



Nota - Primeira de um conjunto de cinco cartas trocadas entre ambos (três de Godinho, duas de
Marcelo), bem revelador, não apenas do ambiente político que se vivia em 1949, estando prestes a fechar-se a abertura empreendida por Salazar na sequência da vitória dos Aliados, que permitiu a constituição do Movimento de Unidade Democrática (MUD) -- que congraçava todas as correntes oposição: republicanos, socialistas, comunistas, anarquistas, monárquicos -- e cujo canto do cisne será a malograda candidatura de Norton de Matos, sem falar nas perseguições movidas aos aderentes ao MUD, cujas listas foras desastradamente parar às mãos do estado. A sequência é muito boa. 


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Póvoa de Varzim, 4 de Março de 1968: José Régio ao sobrinho Ramiro

Diana-Bar da
Póvoa de Varzim, pela manhã
4/3/68

Ramiro:

Já recebi duas cartas tuas, pelo menos, -- a última de há quase um mês. Esta demora não significa que eu te esqueça! Bem pelo contrário, lembro-me constantemente de ti, de vós os três. Significa apenas que atravesso um período de grande trabalho, que a minha correspondência aumenta sempre, etc., etc. A minha casa editora resolveu que este ano seria «o ano de José Régio», e manda-me provas sobre provas de livros a reeditar. Como, nestas provas, me não limito a sublinhar as gralhas, pois sempre corrijo o texto, dá-me isso bastante que fazer. Também retomei colaborações jornalísticas; além de estar escrevendo o sexto volume de A Velha Casa e... vá lá uma novidade!: preparar um novo volume de versos! Supunha que já não publicaria mais livros de poesia; mas a experiência da doença, do sanatório, etc., acumulou no meu subconsciente material que exige expressão mais ou menos poética. Enfim, o artista nem sempre faz o que quer: faz o que de momento pode, aproveita o que lhe vem. Como, portanto, escrevo agora bastante, não tenho desenhado nada. Os desenhos são, de certo modo, um substituto da literatura, um outro modo de expressão, quando a literatura se me torna esquiva. Também me faltas tu, à noite, com a tua calorosa curiosidade pelos desenhos que eu fizera... Não quer isto dizer que eu os deixasse de fazer: apenas estão à espera de novas ocasiões propícias.
     Tens muita razão de, como sobrinho meu, te achares com direito (embora o não digas bem assim) a receber os meus livros. Vou, pois, começar a mandar-tos; aos poucos, e sobretudo os que foram ou vão sendo reeditados nas Obras Completas, pois as edições primeiras ou até simplesmente anteriores rareiam cada vez mais. Algumas até já atingem elevado preço! (1)
     Comecei por falar de mim, e era de vós que eu tencionava começar por falar. Saboreei a breve mas viva evocação que fazes de vossa casa; (e o verbo saborear deve ter surgido aqui por uma subconsciente associação, pois me dizes que cheira a fritos, que a Fátima está fazendo fritos...). Também apreciei e agradeço a fotografia em que estás tu, ela, e o meu boneco na parede. Não se pode dizer que essa máscara faça uma companhia muito gentil, mas enfim... é uma lembrança do «ti Zé». Gosto de saber que estás contente, que vos sentis felizes. Ainda bem, oxalá que assim seja sempre! Claro que o casamento não é um perpétuo idílio (mesmo sem «pieguice») e até a Primavera é atravessada por nuvens e momentos sombrios. Não é de um dia para o outro que as pessoas verdadeiramente se conhecem. Mas também penso que a Fátima é boa rapariga, sei que tu não és mau rapaz, e um amor sólido que a intimidade irá confirmando acaba sempre por desfazer as nuvens... Também estou contente, em suma.
     Agora umas notícias breves:
     -- A «casa da madrinha Libânia», própriamente minha ao presente, está mais arrumada: Fiz nela uma espécie de exposição, embora provisória, de coisas a que depois darei um arrumo definitivo. Espero recomeçar as obras sem grande demora, e para as levar até cabo. Depois te falarei de isso.
     -- «Os habitantes daquela Casa» devem ser estreados brevemente em Lisboa. Entretanto vai à Espanha a um festival de curtas metragens. Tem agradado bastante.
     -- Recebi nova proposta para representação do Jacob e o Anjo, pela companhia que já no ano passado se propusera representá-lo. Fiz um grande esforço... e, embora nos mais lisonjeiros termos com que me foi possível dourar a amarga pílula, recusei autorização. Não me parece que essa Companhia e a sua casa de espectáculos reunissem as condições necessárias para um possível, mesmo relativo agrado junto do público. Principia por que o Rei, a Raínha, o Anjo-Bobo exigem certo aspecto físico (vejo-os em grande!) que não encontro nos actores da dita Companhia. Isto... sem falar no Talento necessário à interpretação desses difíceis papéis. O meu caso (das Três peças em Um Acto) é que parece que será representado em Lourenço Marques. Aqui está proibido, e lá não.
     Bem, basta por hoje. Dá lembranças ao teu pai, e diz-lhe que gosto de o saber convivendo assim com a jovem família. Cá recebi, e gostosamente retribuo, os beijos da Fátima, e para ti o abraço do teu velho
Tio Zé
(1) Não seria razão para eu tas não mandar... se tivesse exemplares!




Nota -In Boletim, #1, Centro de Estudos Regianos, Vila do Conde (direcção de Eugénio Lisboa). Uma bela carta familiar, cheia de informações e conselhos quase paternais, de alguém que trocou a constituição duma vida familiar (teve uma filha que morreu criança fruto, creio, de uma relação pouco mais que fortuita) pela dedicação à obra literária que empreendeu durante quarenta anos -- e que obra... Régio pertence também àquela família de escritores que reflecte profundamente sobre a própria obra ficcional, o que não é de admirar, tratando-se de um dos críticos cimeiros, dos mais agudos e informados, do século XX.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Vale de Lobos, Santarém, 24 de Maio de 1867: Alexandre Herculano a Joaquim Filipe de Soure

Amigo
Vale de Lobos, 24 de Maio [1867]

     Estive em Lisboa poucos dias e disseram-me aí que o am.º fora p.ª Évora. Escrevo pois para Évora, a Deus e à ventura.


     Quisera ter-lhe falado para lhe dizer uma resolução que tomei e que tomei fria e reflectidamente, porque era ao mesmo tempo um preceito da minha consciência, e uma necessidade para este modo de viver que adoptei para os anos, não serão muitos, que me restam de vida.

     Tenho parentes e sou só. Os parentes tratam de si. Não tenho uma irmã, uma sobrinha, uma mulher que olhe por mim e pela casa que, apesar de pequena, tem que governar. Sabe, porque tem sido lavrador. A criada de campo que tenho é incapaz de me olhar por uma camisa ou por umas meias. A antiga criada de minha mãe, que em Belém me tratava dessas coisas, não pode deixar o marido com 84 anos para me seguir aqui. Na doença não tinha quem tratasse de mim; e eu já perdi a esperança de deixar de ser valetudinário. Amancebar-me aos 57 anos publicamente era ridículo e mau, e o resultado pouco seguro.

     Resolvi casar. Tive aos 26 anos uma destas paixões que todos temos naquela idade, mas havia em mim outra mais poderosa, a das ambições literárias. Os meus amores foram com a irmã do Meira, D. Mariana Hermínia. A paixão literária venceu a outra. Tive a coragem de lhe sacrificar esta. Com a minha modesta fortuna não podia fazer filhos e livros ao mesmo tempo. Era necessário ser uma espécie de frade, menos o convento. Falei, pois com franqueza a minha actual mulher, que então era uma cabeça algum tanto romanesca. As mulheres são capazes de actos de abnegação que seriam para nós impossíveis. Já havia rejeitado por minha causa um casamento vantajoso que a família lhe arranjara com um primo, mas à vista das minhas declarações, foi mais longe: aceitou uma posição ambígua, sujeita a comentários e calúnias, sem soltar um queixume, sem a menor quebra durante trinta anos de uma dedicação e amizade ilimitadas. Confesso-lhe que, neste ponto, eu que me parece estar curado de todas as vaidades, ainda tenho vaidade nisto.

     Aqui tem o meu amigo os elementos materiais e morais para avaliar o acto que pratiquei. Conheço-o bastante para saber que o há-de aprovar.


     Estas explicações são apenas para meia dúzia de amigos íntimos. Para o resto do mundo a explicação é mais curta: casei porque tive vontade disso.


     As coisas rústicas por aqui não vão bem. Os trigos são abaixo de medianos, vinho há pouco, e azeite pode-se dizer que nenhum.

     Arranja-me uma pouca de mera, e diz-me aonde ma manda pôr em Lisboa?


     Recomendações ao dr. António Miguel, que é um dos poucos carácteres deste terra que eu admiro.


Amigo


Herculano

Nota - In João Medina, Herculano e a Geração de 70, Lisboa, Terra Livre, 1977; extraído de Luís Silveira, Cartas Inéditas de Alexandre Herculano a Joaquim Filipe de Soure, 1946.  O brônzeo Herculano explicando ao amigo, magistrado e político Joaquim Filipe de Soure (1805-1882) a alteração no seu estado civil, algo que não se está a ver e que só a correspondência tem a desfaçatez de revelar. Conversa para amigo íntimo, previne, pois que para a calhandrice do vulgo, «a explicação é mais curta:» - e que notável explicação.