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quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Santa Eufémia, Córdova, 16 de Novembro de 1870: Oliveira Martins a António Enes


S.ta Eufémia, 16 de Novembro.


Meu caro Enes


     Há já bastante tempo que recebi a tua boa mas desalentada carta. Compreendo o que sentes, porque o senti já, enquanto não tomei a resolução heróica de viver só para comer, e sentir alguma coisa semelhante, á vita della bestia do Maquiavel. O trabalhar e elevar o espírito no convívio humano e existir dentro da Sociedade Culta (?) é, quer-me parecer, impossível. Nós formamos hoje, em Portugal, principalmente, aquilo que a ex-França chamou os declassés. Deita-te ao bispo ou ao Fontes ou ao Ávila, e verás como és homem! Mas tu não podes e dou-te os parabéns por isso. Que vives e reages, vejo eu também, porque além do teu opúsculo, que peço desculpa de não te ter agradecido ainda, tenho seguido a tua polémica com o Testa no J. do C.  -- Dum e doutro dos teus trabalhos, que além da atenção que em si merecem, me mereciam a mim, aquela que se deve a um amigo, te direi o que penso.
     Parece-me que o teu ataque ao Testa, que bem escrito, erudito, sério e elevado, era fraco num ponto essencial, fundamental, direi mesmo, a filosofia do direito. Em virtude de quê entraram os italianos em Roma? Em virtude do direito revolucionário, liberal, etc. E o Testa nesta parte responde-te bem. Meu amigo é necessário dizer as cousas pelos seus nomes e romper com certas banalidades, que não têm razão de ser. Tu não querias impugnar a grande banalidade -- a força não dá direito: uma conquista é um facto, não é um direito. Eu tratando essa questão, diria abertamente: a força é direito a conquista é um direito. É só neste terreno que quanto a mim se pode (e deve) defender a entrada dos italianos em Roma. Quanto ao mais, pouco se me dá que a oligarquia burguesa do governo italiano substitua a oligarquia clerical do governo romano. Duvido que os romanos ganhem muito com a mudança. O plebiscito tem para mim valor igual, ao da recepção de Garibaldi em Nápoles. Já se queixam os napolitanos.
     Lembra-te de que o orçamento da despesa do governo italiano, é o quíntuplo da soma do de todos os estados anexados, antes de 59. Não, os governos constitucionais e liberais, não querem, nem a justiça, nem a liberdade, nem são o caminho para ela. Sobre a ruína de instituições caducas, assentam uma casta que vive dum erro económico da sociedade contemporânea -- a burguesia capitalista. Quanto mais sociedades constituto-liberais se formem mais sangrenta será a luta pela revolução e pela justiça. Quanto *a reformação do non possumus papal, seriamente crês nela? Não digas isso, homem; pois não vês que no momento em que Roma dissesse o possumus, tinha morrido e vergonhosamente? Assim ao menos cai no seu posto. Sobre o teu folheto prusso-francês, que li e reli, te direi que me parece muito mais bem pensado e o abraço convictamente. A França era com efeito o país donde nos devia vir a tocsin regeneradora; Mas a França morreu. Poderá substituí-la a Alemanha? Não tenho ideia feita sobre isso. Não conheço e do pouco que sei, tremo muito da Alemanha. Não falo de Bismark e Comp.ª, porque a esses creio eu que foi a guerra um passo agigantado para a ruína. No momento em que a Alemanha se encontrar constituída, há-de varrê-los de casa para fora, e se o não fizer cairá mais depressa, do que caiu a França.
     Desculpa-me tu meu caro Enes esta maçada; o deserto obriga a meditar, e estas noites longas de inverno a conversar com os bons amigos como tu, por esta forma, já que por outra não pode ser. se não fazes nada aí, vem até cá. Asseguro-te que por um mês hás-de distrair-te. A indústria em si tem uma verdadeira poesia, nunca a senti como agora, a serra, os caracteres primitivos do povo e o sabor arabesco das povoações, valem a pena de serem vistos. Economicamente se faz a jornada.
     Minha mulher te pede para te ser recomendada, e eu que, lembrando-me a todos os que de mim se lembrarem, aceites o cordial aperto de mão


                                                                                Do teu amigo


                                                                                                               J. P. Oliveira Martins


Correspondência de J. P. Oliveira Martins, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1926.

(edição: Francisco d'Assis Oliveira Martins)

Nota - A propósito do trabalho de António Enes, A Guerra e a Democracia. Considerações sobre a Situação Política da Europa (1870), Martins expõe o seu conceito antiliberal, que virá a tomar a forma de cesarismo, comenta a entrada das tropas de Vítor Manuel II em Roma, liquidando os Estados Pontifícios e culminando a reunificação de Itália, bem como a delicada Guerra Franco-Prussiana -- cujos efeitos ainda hoje são sentidos.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Lisboa, 26 de Abril de 1929: Ferreira de Castro a Jaime Franco



Meu ilustre camarada.


Muito e muito obrigado pela sua carta. É a primeira voz amiga que o Brasil me fez ouvir, depois da publicação dos meus «Emigrantes». Confesso que me magoou o que certos jornais daí escreveram sobre o meu livro, que pode não ter relevo literário, mas que é honesto e realizado à margem de sentimentos mesquinhos ou estreitos. E magooei-me, sobretudo, porque me atacaram sem ler o livro, excepto a «Notícia», do Rio, que, para encontrar matéria condenável... teve de falsificar os textos! Os outros periódicos, guiando-se pela «Notícia», tomaram a nuvem por Juno e vá de me acusarem sem terem visto o corpo de delito. A um deles -- «A Gazeta», de São Paulo -- ainda escrevi uma carta pondo as coisas nos seu lugar. Não sei se a publicou, se não. O que sei é que, tempos depois, mostraram-me um exemplar desse periódico, onde reincidia na acusação. Vi que estava de má fé e renunciei a escrever aos outros jornais que me atacavam. Por isso mesmo, a sua carta fraternal sensibilizou-me imenso. Se eu não fosse internacionalista, se eu tivesse preconceitos de raças, se eu não amasse o Brasil como a melhor recordação da minha adolescência, não me importunariam as calúnias que me atribuíram. Mas assim, não. Desgosta-me, sobretudo, a ideia de que as pessoas que aí me conheceram com sentimentos de fraternidade universal, possam supor que, dum instante para o outro, me tornei jacobino, patriota, adepto de todos os gestos comuns... Eu bato-me pela Humanidade, quer seja branca, preta ou amarela, europeia ou americana, asiática ou africana. Eu sou pelos humildes contra os poderosos, pelos explorados contra os exploradores, quer estes sejam portugueses ou brasileiros, espanhóis ou chineses. Para mim há uma questão social, não há uma questão de raças. Veja o meu ilustre camarada como o «Zé do Aido» que foi para os Estados Unidos, põe este país em pé de igualdade com o Brasil, onde esteve o «Manuel da Bouça». Porque descrevo o Brasil? Porque é o país americano que melhor conheço. E não revelo eu as manhas dos portugueses que traficam com a emigração? O que é o Nunes, agente de passagens e passaportes? Contudo, essas más interpretações deixam sempre alguma coisa desagradável no nosso espírito. Agora mesmo hesito em escrever sobre a selva amazonenese, onde estive cerca de quatro anos, e que tinha planeado há muito. Era a epopeia desse heróico e ingénuo cearense, a quem se deve o desbravamento da selva virgem, que, todavia, é lá explorado e escravizado por uns senhores que vivem nababescamente do trabalho desse sertanejo humilde. Mas encontro-me indeciso em realizar a obra, não vão supor os brasileiros que eu quero ferir-lhes o patriotismo. E mesmo que venha a escrever esse romance, já não estarei à vontade. E é lamentável que isto suceda, devido às más interpretações que alguns jornais do Brasil deram ao meu livro, sem o lerem! Por isso repito, você, que é uma excepção, comoveu-me enormemente. A última vez que estive em Santos, foi em 1919 e é natural, portanto, que me tenha esquecido de alguns pormenores. E se a paisagem do porto de Santos «desiludiu» os imigrantes, é porque a da Guanabara é mais imponente e teatral. Mas lá estão o meu entusiasmo e os meus fortes e quentes adjectivos para os panoramas que se vislumbram da Serra e do Mar, a compensar o seu justo bairrismo. E creia que tenho saudades daí, sobretudo das praias José Menino e Guarujá...


(a) Ferreira de Castro -- Lisboa, abril, 26, de 1929.


In Jaime Franco, Gente Lusa, Instituto D. Escolástica Rosa, Santos, 1945.


Nota - Carta muito significativa de Ferreira de Castro, na sequência dos ataques que os sectores nativistas brasileiros haviam desferido contra Emigrantes, romance publicado no ano anterior. Ataques, apesar de tudo, de menor dimensão do que os que sofreria A Selva (1930), por parte do "verdeamarelismo cretino", assim classificados por José Lins do Rego, um muito jovem escritor que, com Jorge Amado, Jorge de Lima e outros viriam à liça, em alguns casos de forma muito contundente, verberar o nacionalismo pateta dos plumitivos de serviço.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Lisboa, 29 de Junho de 1884: Cesário Verde a Mariano Pina



Mariano Pina, meu caro Director


    A sua «Ilustração» impressa neste tumultuoso Paris, em grande formato, composta por tipógrafos franceses que devem achar muito drôle a abundância do «til» e a falta do «acento grave», anunciada com réclames estonteantes e um taraze ensurdecedor nesta pacífica Lisboa tão morna e tão dorminhoca, a sua «Ilustração» duma tiragem muitíssimo reparável, fez-me nascer o desejo de lhe oferecer a Você a minha colaboração. Conquanto V. não me enviasse o seu cartão de convite, o meu ideal de luxo e a minha pretensão de ver os meus versos numa elegante toilette parisiense, instigam-me a recomendar-lhe um pequeno poema que fiz com todo o esmero de que sou capaz, e cujas provas eu quereria ver pessoalmente no caso de ser publicado. Compõe-se de heróicos e alexandrinos, numas 130 quadras que no tipo miúdo (como é mais distinto e mais discreto para a poesia) encherão essas colunas de Hércules durante pouco mais de 2 páginas.

     Mas a direcção literária ou administrativa duma publicação como a sua tem dificuldades. Você tem de consultar os grossos apetites dos seus leitores e os fastios nevrálgicos das suas leitoras, e realmente eu não sei se o devia embaraçar com esta exigência.

      Em todo o caso sempre lhe direi que é um trabalho réussi, correcto, honesto e dum sentimento simples e bom. Chama-se «Nós», e é talvez a minha produção última, final. Trato de mim, dos meus, descrevo a propriedade no campo em que nos criámos, a fartura na vida de província, as alegrias do labor de todos os dias, as mortes que tem havido na nossa família e enfim os contratempos da existência. Para animar tudo isso, para dar a tudo isso a vibração vital, eu empreguei todo o colorido, todo o pitoresco, todo o amor que senti, que me foi possível acumular.

     Ora como esta obra começa com a descrição da Febre-amarela e do Cholera-morbus quando nós fugimos em crianças, lá para fora, e depois continua com as descrições do nosso verão adusto e forte; e como nós agora estamos com a ameaça da epidemia e Julho e Agosto vão começar, eu pretendia que estas coincidências convergissem, publicando imediatamente.

     É uma paixão pela arte que me faz pensar assim, não julgue V. crueldade. A famosa ciência de Pasteur e dos outros há-de atalhar o mal e o pavor será a maior dor que se sentirá.

     Outra coisa: Sabe V. que tenho saudades desse aborrecido mês que vivi em Paris tão contrariado e esmagado, e que hoje fiz volte-face, e agora digo constantemente bem dessa França, desses Franceses e dessas Francesas, como um doido ou um apaixonado?

     Bem, escreva-me Você sem demora com a sua decisão.

     Seu confrade amigo e obrigado

Cesário Verde


Rua dos Fanqueiros, 2 -- Lisboa

in Elza Miné, Mariano Pina, a Gazeta de Notícias e A Ilustração: Histórias de Bastidores Contadas por Seu Espólio, separata da Revista da Biblioteca Nacional, s.2, vol. 7 (2), Lisboa, 1992. 

Nota - Do sentido da oportunidade. (Pina era director da Ilustração, que se
publicava em Paris.) Carta emocionante do enorme e pobre Cesário (1855-1886) sobre um dos seus grandes poemas. Emocionante, porque vê-loouvi-lo falar da sua obra resgatada por Silva Pinto à dispersão, é, de algum modo, trazê-lo de além-túmulo ao nosso convívio. Bendito Mariano Pina, autor menor, porém influente da universo literário português de oitocentos.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Santa Eufémia, Córdova, 14 de Setembro de 1870: Oliveira Martins a António Enes


S.ta Eufémia, 14 de Setembro de 1870


Meu caro Enes

Há muito devia ter-te escrito, mas muito trabalho primeiro, minha mulher doente depois, e por fim 10 dias de sezões, tiraram-me o lugar. Parece-me que não há que dizer.
Agora de mim vou bem, e com a aproximação do inverno tudo melhora. Os campos viçam, rebenta a água por toda a parte. A água! a água é a grande animadora nestas regiões torradas de sol durante uns poucos de meses. Isto é uma serra, e nisto digo tudo. Sinto uma liberdade ampla de acção e de pensamento. Acho que vou dar em caçador. Há gamos, perdizes e javardos por estes montes. Folgo de ter vindo aqui: oxalá eu assim pudesse ter comigo quantos desejara!
Sou uma espécie de rei, entre os 300 ou 400 mineiros: foram-se todas as veleidades republicanas... aqui.
Escreve-me, adeus meu caro amigo.
Crê-me teu am.º verd.º

J. P. Oliveira Martins

Correspondência de J. P. Oliveira Martins, Lisboa, Parceria A. M. Pereira, 1926
editor: Francisco d'Assis Oliveira Martins


Nota - ...ou o desterro como factor de higiene mental.