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segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Pedras Salgadas, 6 de Agosto de 1906: D. Carlos I a João Franco

Pedras Salgadas
6-VIII-906

Meu querido João

    
Quando tive notícia dos acontecimentos de Alcântara e te telegrafei, estive para te escrever, mas preferi fazê-lo só depois de ler os jornais e agora só depois de ler a tua carta. Com a leitura da tua carta tão simples e desapaixonada, tão... tu mesmo, não mudei em nada a opinião que já formara.
 Desde que felizmente tu nada sofreste pessoalmente, e nenhum ferimento houve de gravidade, a minha opinião é que coisa alguma de maior sorte poderia ter sucedido ao governo em prol das ideias que desejamos levar avante, e que cada vez me convenço mais que são as únicas que conseguirão fazer alguma cousa deste nosso tão bom, mas até hoje (poenitet me) tão maltratado país. Pelo meu telegrama, tu que me conheces percebeste o que eu entendia. Deram um óptimo pretexto ao governo para acabar de vez com histórias nas ruas, e tiveram a habilidade de pôr contra si toda a gente honesta, e esta felizmente para nós ainda é a maioria. Quanto a eleições, sou da tua opinião por completo. Tudo depende da gente séria  e pacata se querer incomodar, se assim for, terá o governo uma manifestação que bem útil será ao nosso bom prosseguir; mas, seja como for e suceda o que suceder, temos que caminhar para diante, ainda que a luta seja rude e áspera (e espero-a) porque aqui mais do que nunca parar é morrer, e eu não quero morrer assim, nem tu!
     Como só chegarei na segunda às 9 da manhã a Sintra, a nossa assinatura pode ser na terça-feira em Lisboa, à hora do costume, para eu poder descansar segunda um poucochinho.
     De saúde felizmente óptimo. Teu amigo verdadeiro.

Carlos R.


     O J. Saraiva tem feito óptimo serviço; dar-lhe-ei a Gr. Cruz da Conceição pois já se tem dado a outros Gov.es Civis com menos razão.


Cartas d'El-rei D. Carlos I a João Franco Castello-Branco Seu Ultimo Presidente do Conselho, Lisboa, 1924.

Nota - Interessante em vários domínios. Por um lado,  o raciocínio da vitimização política -- que normalmente costuma pagar -- avançado pelo monarca, na sequência de um atentado a João Franco num comício do seu Partido Regenerado Liberal, por parte de outras facções monárquicas; facções essas, sabe-se hoje, que estarão activamente envolvidas na conspiração regicida, ano e meio depois de escrita esta carta; por outro lado, a consciência do rei dos perigos que enfrentava.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

16 de Maio de 1906: D. Carlos I a João Franco

I noute.
16 -- 5 -- 906
Meu querido João Franco

Tendo o Presidente do Conselho, Cons.º Hintze Ribeiro, acabado neste momento, por carta que acabo de receber e por motivos... que de viva voz te exporei, de depor nas minhas mãos a demissão do Ministério, e desejando eu que neste momento te encarregues da formação do novo ministério, desejo que aqui venhas falar-me, logo possas, e quanto mais cedo melhor.
Há muito a fazer e temos, para bem do País, que seguir por caminho diferente daquelle trilhado até hoje; para isso conto contigo e com a tua lealdade e dedicação, como tu podes contar com o meu auxilio e com toda a força que te devo dar.
Sempre teu
Amigo verdadeiro
Carlos R.


Cartas d'El-Rei D. Carlos I a João Franco Castello-Branco Seu Ultimo Presidente do Conselho
Lisboa, Aillaud & Bertrand, 1924.

Nota - Deve ter feito algum furor, em 1924, quando João Franco, um dos homens políticos mais odiados da História do Portugal contemporâneo, resolveu publicar e comentar as cartas que D. Carlos lhe enviara, desde o convite para formar gabinete, pelo impasse criado pelos partidos tradicionais, fautores do fim da monarquia portuguesa, que em breve eclodiria. Independentemente das intenções e autojustificações, o que interessa é o conjunto de cartas que revelam um rei que pouco tem que ver com o boneco, entre o pândego e torpe, que o republicanismo panfletário dele quis fazer.